“Refugiado negro não é animal, mas ser humano que tenta sobreviver”
O alerta é feito pela congolesa Sarah Mbuyamba Masengu, de 29 anos, que conheceu Moïse Kabagambe. À TV 247, ela fala sobre o drama dos refugiados no Brasil
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Por Marcelo Auler - “Refugiado negro não é animal, mas ser humano que tenta sobreviver”. O alerta é feito pela congolesa Sarah Mbuyamba Masengu, de 29 anos, que por 11 anos (a partir de 2010) residiu no Brasil onde se formou pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) em Ciências Sociais e Relações Internacionais. Posteriormente, fez o mestrado em Direitos Humanos e Políticas Públicas na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ).
No tempo em que morou no Brasil – atualmente está no Canadá – Sarah conviveu não apenas com seus patrícios congoleses, mas com refugiados africanos de uma maneira em geral. Orientada pelo seu professor no mestrado, o padre Ricardo Rezende Figueira – com uma longa militância na luta contra trabalho escravo, em especial no sul do Pará, onde atuou por anos seguidos na década de 80 -, a congolesa elaborou uma pesquisa sobre “A inserção de imigrantes congoleses nas relações de trabalho no Rio de Janeiro”. O trabalho foi realizado entre fevereiro de 2018 e setembro de 2019, entrevistando 26 congoleses (16 homens e dez mulheres). No Rio, onde teve um maior contato com os refugiados, Sarah conheceu e foi atendida na praia da Barra quando ia ao banho de mar pelo seu patrício Moïse Kabagambe, assassinado brutalmente no quiosque Tropicália daquela praia, no final de janeiro. Segundo dados da Caritas Arquidiocesana do Rio de Janeiro, ONG que acolhe os migrantes, notadamente os refugiados, apenas no Rio de Janeiro, em 2017, moravam 2.431 congoleses. Destes, 931 seriam refugiados e 1.500 solicitantes de refúgio, que aguardavam deferimento. Para entender o drama que sofrem os refugiados, notadamente os africanos por conta da cor da pele, que o 247 decidiu ouvir a congolesa.Sarah, na entrevista que gravou para a TV 247, detalha todo o preconceito a que se submetem estrangeiros negros, que buscam o Brasil na tentativa de sobreviverem, após fugirem das perseguições e conflitos em sua terra natal. “Eles não são animais, só querem sobreviver” lembrou enfaticamente.
eNo Canadá, onde aprimora seus estudos com uma bolsa de doutorado sobre Relações Industriais, ela não encontra a hostilidade e discriminação que sofreu na própria pele quando morou no Brasil. Inclusive dentro da vida acadêmica. Na UFPE o preconceito não era só de alunos, que se distanciavam dos africanos – de Sarah também –, mas ainda dos professores que dispensavam a alunos europeus tratamento diferenciado do que mantinham com africanos (entenda-se, negros).
“As dificuldades por questões raciais a mim e a outros africanos existiam no meio universitário. Dentro da universidade tinha uns brasileiros que até conversavam (com africanos), outros tinham preconceitos. Certos professores também com preconceitos. Por exemplo, fazíamos um curso de Português, tinham alunos da França, da Europa, que vieram fazer intercambio e tínhamos nós, africanos. Dentro da sala, o preconceito que eu comecei passando é que para a professora tudo o que o europeu faz ou fala era bom, já nós africanos não podíamos falar. Éramos sempre desqualificados”, explicou.
Foi, porém, no Rio, que a convivência dela se deu com patrícios que não eram estudantes, mas refugiados, migrantes econômicos e outras pessoas. Descobriu que por serem pretos/negros sofriam preconceito da cor da pele e ainda pelo status como refugiados.
Ela conta que refugiados africanos com diplomas de outros países, ou mesmo ela, formada e diplomada no Brasil, não conseguem empregos qualificados. Quando muito são chamados para trabalhos braçais, muitas vezes sem registro, como ocorria com Moïse Kabagambe, que trabalhava como uma espécie de garçom, atendendo clientes do quiosque na areia da praia. Sem registro e às vezes sem salário, recebendo apenas as gorjetas dos clientes.
Recordou, por exemplo, um rapaz que entrevistou na pesquisa e que trabalhava na reposição de mercadoria em uma rede de supermercado que faz entrega em domicilio. Ele preparava os pacotes dos pedidos feitos por telefone. Era um arrumador de mercadorias vendidas de forma on line.
No trabalho de baixa qualificação o rapaz foi advertido por seu “patrão”: “você não pode reclamar porque você veio fugido da sua terra. Lá você não tinha nada, não tinha o que comer, o que fazer. Estava vivendo no meio dos animais. Aqui você ao menos tem esse trabalho, esse emprego. Tem que agradecer e fazer tudo o que estamos mandando.“
Sarah alerta que mesmo os africanos qualificados, que já chegam diplomados, encontram dificuldades em emprego, meramente pelo preconceito racial ou social, isto é, por serem negros e, ao mesmo tempo, refugiados.
“Muita gente qualificada, das pessoas que encontramos e outras que eu conheço pessoalmente e não participaram da pesquisa, são médicos, ou trabalharam em área administrativa. Podem ocupar um cargo, ser gerente de uma loja. Mas a pessoa não consegue por causa da desqualificação dos estudos feitos fora do Brasil. Os estudos realizados no Congo não são levados em conta. Quando tem uma pessoa que vem, por exemplo, da Europa, os estudos são levados em conta. Mas quando vem da África, tipo do Congo, isso não acontece”, denuncia. E continua: .
“A questão não é só o diploma, os estudos feitos lá fora, mas o preconceito mesmo. Eu estudei no Brasil, eu me formei no Brasil, eu tenho diplomas brasileiros, eu falo português consideravelmente bem, tinha possibilidade de conseguir emprego, mas não consegui. Me encaixo dentro dessas pessoas porque eu tive dificuldades, não consegui emprego. Quando terminei o meu mestrado fiquei sem trabalho até ser convidada pelo professor Ricardo para fazer parte do grupo de pesquisa dele. Conheço muita gente, como um rapaz formado em relações internacionais, que está trabalhando de bico”.
A partir de todo este seu aprendizado é que Sarah alerta para a necessidade de o Brasil traçar políticas públicas de acolhimento aos refugiados, notadamente seus patrícios africanos, o que certamente terá que ser enfrentado por qualquer governo democrático que substitua este atual, onde o preconceito reina e acaba servindo de mau exemplo.
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