Governador do RJ afirma que aliança com Bolsonaro visa mais a gestão do que a política

O governador Cláudio Castro diz, em entrevista ao Valor, que sua relação com o presidente ainda está sendo construída - mais em torno da gestão do que da política

Cláudio Castro
Cláudio Castro (Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil)


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Agenda do Poder - Mais do que a vinculação a Bolsonaro, o governador do Rio Cláudio Castro (PL) conta com quase R$ 10 bilhões - de R$ 14 bilhões que cabem ao Estado pela concessão da Cedae - para fazer investimentos, criar uma marca para a sua administração e conseguir se eleger no ano que vem: “Depende muito mais de mim”.

De fala calma e sem o perfil típico de um bolsonarista-raiz, Castro diz, em entrevista ao Valor, que sua relação com o presidente ainda está sendo construída - mais em torno da gestão do que da política. Na entrevista, ela fixa diferenças em relação ao presidente: “Estou focando muito na gestão, não estou me metendo nas confusões. Estou fugindo. O Rio já tem confusão demais”.

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No fim da conversa de quase uma hora, no Palácio das Laranjeiras, residência oficial do governador, Castro era aguardado pelo advogado-geral da União, André Mendonça, para tratar do processo em que o Rio tenta receber mais recursos da Petrobras a título de royalties e participações especiais dos campos de Lula e Cernambi - um total acumulado que hoje, nas contas do governador, chegaria a R$ 1,5 bilhão. O encontro com Mendonça, favorito de Bolsonaro para a próxima vaga ao Supremo Tribunal Federal (STF), seria sinal da deferência que tem recebido do governo federal, de parlamentares do Congresso e de ministros do STF pelo que já fez no governo, anima-se.

O governador conta que não conhecia pessoalmente o presidente antes de assumir o cargo interinamente, em agosto, e evita se associar ao ideário bolsonarista, mesmo que venha a perder apoio da base dos simpatizantes mais radicais. “Pode ser. A estratégia é ser eu. Vou mudar por causa de um ou de outro?”, diz, quando questionado sobre a calibragem da distância que tem tomado do ocupante do Planalto. O governador afirma que o presidente nunca lhe prometeu apoio em 2022, confirma que buscará a reeleição mas que, se a candidatura não decolar, pode desistir e cumprir o mandato até o fim.

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Confira os principais trechos da entrevista:

Sobre Eduardo Paes:

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“Se você notar, desde dezembro, falamos bem um do outro. Aconteceu uma questão pontual, que discordamos [sobre a pandemia]. Eduardo é muito visceral em tudo, sempre foi. A relação é boa, tranquila. Em um momento ele subiu o tom, mas logo depois desceu, e uma semana depois estávamos falando. [As declarações] Foram ótimas. Eduardo é um querido. É amigo. Eu dou um boi para não entrar numa briga e dou dez boiadas para sair dela. Dialogo sempre com ele. Dialogo até com o [Marcelo] Freixo [deputado federal do Psol, pré-candidato a governador], pra caramba.”

Valor: Esse diálogo faz com que o senhor fique longe da imagem de um bolsonarista-raiz. É possível que isso afaste os seguidores do presidente na eleição em 2022?

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Castro: É... Pode ser. Aí só o futuro vai dizer. Tem que esperar a eleição chegar e ver se vai ser assim.

Há, no seu entorno, quem defenda que sua imagem não seja muito vinculada a Bolsonaro, concorda?

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A estratégia é ser eu. A estratégia é continuar o que me trouxe até aqui, o que sempre fui. O que me trouxe até aqui foi ser um cara do diálogo, conversar com todo mundo. Não faz sentido agora que eu mude o meu perfil. E vou mudar por causa de um ou de outro? Não faz sentido.

Quais seriam as diferenças de pensamento com Bolsonaro?

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Castro: Estou focando muito na gestão, não estou me metendo nas confusões. Estou fugindo. O Rio já tem confusão demais.

Que afinidade o senhor tem com o presidente, ideologicamente ou de estilo?

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Castro: Eu sou um camarada totalmente aberto ao diálogo. O presidente tem dialogado muito comigo em tudo. Tudo que eu preciso do governo federal. Regime de Recuperação Fiscal eu tive o diálogo necessário. Com o ministro Tarcísio na questão da infraestrutura tenho tido um diálogo enorme. Com a Petrobras estamos conseguindo vitórias que [o governo estadual] não teve antes, mesmo quando era muito mais alinhado [com o governo federal]. Pelo menos comigo, o presidente tem sido uma pessoa de altíssimo diálogo, e nossas pautas são 100% técnicas para o Estado.

Valor: Não tratam de 2022?

Castro: Eu e ele a gente nunca falou: “Ah, eleição, vamos fazer isso e aquilo.” Até porque só estou há oito meses e sequer conhecia o presidente pessoalmente antes disso. Carlos foi vereador comigo, e com o Flávio a gente tinha aquela relação de política de encontrar. A nossa grande afinidade hoje é os dois pensarem no bem do Estado do Rio. O presidente, em tudo que eu peço, ele tem sido uma pessoa extremamente sensível às necessidades daqui. Tem sido de uma correção comigo enorme. Nunca me fez uma promessa de “Ah, vou te apoiar, vou fazer isso ou aquilo”. Tanto que os elogios que ele tem feito a mim são elogios de gestão. Ele vê um cara preocupado com o Rio que está lá, às vezes toda semana, ou semana sim, semana não, com os ministros dele o tempo todo. O André Mendonça está aí para a gente conversar sobre o assunto do campo de petróleo de Lula e Cernambi que tem um R$ 1,5 bilhão nosso preso ali.

Com o presidente a relação não é ainda politicamente tão próxima?

Castro: A nossa afinidade hoje é querer o bem do Rio de Janeiro. O presidente pelo menos comigo tem se demonstrado muito sensível às pautas do Estado. Nunca tive afinidade pessoal antes, então acho que a gente está construindo uma relação mesmo, de ele entender o trabalho. Eles viram o que fiz com a Cedae mesmo com toda a pressão, a gente foi lá firme, foi a maior concessão da história do Rio e a segunda maior do país, só perdendo para a das telecomunicações. Acho que isso vai criando uma afinidade muito mais de admiração do trabalho que de outras coisas.

O senhor vai ser candidato à reeleição?

Castro: Provavelmente, só se o trabalho não acontecer bem, mas é um caminho. Só se não decolar. Aí fico até o final. Entrego para o próximo. [Ir para] Tribunal de Contas esquece, eu não vou sair. A chance de eu sair é zero. Não vou ser candidato a deputado federal. O Estado não merece ter três governadores num período. É uma descontinuidade de trabalho enorme. Se eu fui eleito para estar aqui tenho compromisso que é seguir até o fim.

Mas o senhor não é aliado do presidente?

Castro: Sou, com certeza. Sou porque meu Estado precisa demais. O Rio precisa umbilicalmente do governo federal, não tem como não estar perto. Eu sou muito bem tratado pelos ministros todos. Estamos muito focados na gestão. Estou só há oito meses [no cargo]. Normalmente quem tem esse tempo não pensa em processo político. Eu entrei mais perto da eleição, mas tem muita coisa pela frente. Hoje meu pensamento é na gestão.

Valor: Quanto espera receber da Cedae neste ano?

Castro: Eu não fico com todo o dinheiro, uma parte é dos municípios, tem que indenizar a Cedae, a questão do BNP [Paribas] que ainda estou negociando, mas eu acredito muito que eu vá ficar em torno de uns R$ 7 bilhões só este ano. Ano que vem, mais R$ 2,8 bilhões e, depois de três anos, mais R$ 3 bilhões e alguma coisa, num total de R$ 14 bilhões.

Valor: O dinheiro não será usado para despesa, pagamento de folha?

Castro: Não. Consigo garantir, enquanto eu estiver aqui. Se do último [pagamento] eu não for mais governador, e o [eventual sucessor] que estiver precisar..., mas desse ano e do ano que vem, não. Os recursos da Cedae serão 100% para infraestrutura.

Qual vai ser a marca do seu governo?

Castro: Em primeiro lugar, o combate à pandemia tem que ser prioridade. Distribuir bem as vacinas, abrir leitos, fazer a saúde funcionar. Segundo a questão de gestão. O Rio tem um problema de gestão séria. Ano passado, consegui pagar os salários, fechei com superávit de R$ 800 milhões e ainda inscrevi o menor restos a pagar desde 2014. Este ano estamos 19% acima da LOA [Lei Orçamentária Anual] na arrecadação. Royalties de petróleo agora veio acima. Na Cedae não tenho dúvida que eu fui determinante para o resultado. Ouvi isso da Aegea. Eles falaram que minha condução fez com que o mercado acreditasse [no processo de concessão. Comissões que criei que fazem controle de contratos, de editais. Tem oito meses que não se houve nada de corrupção.

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