Fundação controlada pela Vale dificulta reparação às vítimas de Mariana

De acordo com o MP-MG, a "Vale e a BHP têm a tendência de reduzir o conceito, dividir os atingidos entre direto (que teve a lama no jardim de casa) e indireto (teve uma atividade econômica prejudicada”. A alteração no conceito de "atingidos" dificulta a reparação dos danos do rompimento da barragem de Função (MG). Essa distinção não existe, ressalta o MP-MG

(Foto: REUTERS/Ricardo Moraes)


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Por Cida de Oliveira, da RBA - Tudo vai bem na publicidade da Fundação Renova, criada para gerir a política de reparação dos danos incalculáveis do rompimento da barragem de Fundão, em Mariana, em 5 de novembro de 2015, que matou 19 pessoas e contaminou toda a bacia do rio Doce. As diretrizes da reparação, traçadas pela fundação com a participação de mais de 70 organizações, envolvem cerca de 7 mil pessoas e dezenas de ONGs, instituições e universidades “que buscam, todos os dias, as melhores soluções para os complexos problemas existentes”. Entre os resultados que vão surgindo, as primeiras casas de Bento Rodrigues que começaram a ser erguidas em julho passado – três anos e oito meses após o rompimento. Paralelamente, as obras de infraestrutura avançam em Paracatu de Baixo e, em Gesteira, o terreno foi comprado.

Ainda segundo a Renova, a condição da água do rio Doce voltou ao nível de antes do rompimento e pode ser consumida depois de passar por tratamentos convencionais, o que pode ser constatado por mais de 6 milhões de dados coletados no monitoramento do rio, todos disponíveis para consulta e pesquisas. Por meio de convênios com pesquisadores, universidades e ONGs, a fundação monitora a biodiversidade em toda a bacia. E 680 produtores rurais estão engajados na restauração florestal e recuperação de nascentes.

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Ao longo de toda a bacia, as indenizações e auxílios financeiros atingiram R$ 1,8 bilhão em agosto, beneficiando cerca de 320 mil pessoas. As ações de reparação e compensação movimentaram cerca de R$ 6,7 bilhões.

“Há muito trabalho sendo feito e muito a fazer. Reafirmamos nossa convicção de que o melhor caminho é o do diálogo, da mediação e da negociação. É um caminho novo para muitos e que, pelas dificuldades, tem exigido correções ou soluções inéditas criadas em conjunto. Mas acreditamos que é desta forma que uma nova realidade para a bacia do Rio Doce deve ser construída: com a participação de todos”, termina assim a carta da Renova às comunidades de Mariana e Bacia do Rio Doce.

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De acordo com o Ministério Público de Minas Gerais (MPMG), porém, não é bem assim. O acordo que levou, entre outras coisas, à criação da Renova, foi feito sem a participação do Ministério Público Federal e estadual, das defensorias públicas e, o mais grave: sem a participação dos atingidos.

“Esses programas foram construídos de gabinete, não a partir das necessidades dos atingidos. Por causa disso o MPF ingressou com uma ação muito grande, no valor de R$ 155 bilhões em indenizações. O MPF, o estadual e as defensorias fizemos acordos com a Vale e com a BHP para modificar o termo de ajustamento de conduta para trazer os atingidos para os processos de reparação. Existe uma disputa muito grande em torno do conceito de atingido, porque modifica a questão das indenizações. A Vale e a BHP têm a tendência de reduzir o conceito, dividir os atingidos entre direto (que teve a lama no jardim de casa) e indireto (teve uma atividade econômica prejudicada”, disse o promotor de Justiça André Sperling Prado, integrante da força-tarefa que atua no caso, em entrevista à web rádio da Diretoria de Imprensa do MPMG.

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Todos são atingidos

Para o MPMG essa distinção não existe. São atingidas todas as pessoas que tiveram seu modo de vida modificado, seu modo de produção e renda prejudicados, mesmo as que tiveram aspectos religiosos prejudicados. “Há tribos indígenas, os Krenak, que consideravam o rio Doce uma entidade, uma divindade. E o rio está destruído. Até a religiosidade das pessoas pode ser atingida. Há uma gama enorme de atingidos que lutamos para que eles sejam reconhecidos como atingidos e tenham seus direitos, que foram violados, reparados”.

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De acordo com o promotor, os acordos de reparação dependem de uma perícia ao longo do rio, extremamente cara e complexa, que por sua vez depende da oitiva das vítimas. Até agora foram contratadas três entidades para trabalhar nessas perícias – o que pode ser considerado uma grande conquista: o reconhecimento da assessoria técnica aos atingidos, escolhidos pelos próprios atingidos.

“Trata-se de um grupo de profissionais que atua ao lado dos atingidos, para que esses processos sejam construídos com um mínimo de paridade, de igualdade, em relação a essa entidade muito poderosa que é a Renova, controlada por uma das duas maiores mineradoras do mundo”.

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A dificuldade nesse processo, porém, começa com o déficit de assessorias. Dos 21 territórios existentes de Mariana até o litoral do Espírito Santo, foram contratadas assessorias para Mariana, Barra Longa, Santa Cruz do Escalvado, Rio Doce e São José do Xopotó – esses três municípios têm a mesma assessoria. Há disputas para que outras não sejam contratadas porque nesses locais os atingidos estão mais empoderados e questionam a Renova quando há violações.

Em casos assim, conforme o promotor, que a fundação tem se retirado das mesas de negociações. “Se recusa, diz não há um clima para negociar. Como uma fundação foi criada para o processo de reparação e não está em campo efetivamente para conversar com os atingidos? Essa é uma relação que precisa ser modificada. A fundação precisa entender que precisa dialogar com os atingidos, e que é normal que os atingidos estejam revoltados nessa altura do campeonato, por que afinal já faz quatro anos do rompimento e tem muitas pessoas que ao longo desses quatro anos não receberam absolutamente nada, nem um pagamento emergencial, um auxílio financeiro emergencial”.

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“A Vale e a BHP vem tentando, insistentemente, desidratar esses processos de assessoria técnica, transformado em projetos menores. Por que onde há assessoria técnica, há um enfrentamento qualificado pelos próprios atingidos à técnica perversa da Renova, que tem uma dificuldade grande de conversar com os atingidos quando enfrenta resistência”.

Vida piorada

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No domingo (3), integrantes do Movimento dos Atingidos por Barragem (MAB) se reuniram em Mariana para recordar os quatro anos do rompimento da barragem de Fundão. De acordo com o dirigente Guilherme Camponez, a bacia do rio Doce, atingida pelo rejeito de minério com o rompimento da barragem, tem hoje uma piora nas condições de vida de seus moradores. “Há um aumento considerável de doenças respiratórias, de pele, depressão e suicídio, sem contar o agravamento do desemprego na região”.

“Foram muitas promessas não cumpridas. A Samarco afirmou que a nova Bento Rodrigues estaria construída em 2018, e até agora nada. Além disso, ainda existem mais de 400 famílias desabrigadas por conta desse crime. Nenhum reassentamento coletivo foi feito. E isso é produto da negação permanente de participação dos atingidos no planejamento da reparação dos atingidos. Atualmente, cerca de 48% dos atingidos sequer são reconhecidos pela Renova”, denunciou.

O ato do MAB reuniu ainda vítimas de Brumadinho, atingidas pelo rompimento da barragem do Córrego do Feijão, em 25 de janeiro. “Se a gente olhar, a atuação da Vale na bacia do rio Doce é a mesma na bacia do Paraopeba, de protelar a reparação, de negar a participação dos atingidos, de negar o reconhecimento aos atingidos e atingidas. O que mudou de lá pra cá foi que os atingidos se organizaram, acumularam na luta e impuseram outro tipo de resistência lá em Brumadinho”, disse Ana Galeb.

*Com informações do Coletivo de Comunicação do MAB

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