Estudo brasileiro explica por que a população negra está mais propensa à intolerância à lactose

Pesquisadores perceberam uma variação genética na expressão da enzima responsável pela digestão de leites e derivados

População na cidade do Rio
População na cidade do Rio (Foto: Reprodução)


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Por Danielle Sanches, da Agência Einstein - Uma variação genética presente em populações negras aumenta a propensão desse grupo de pessoas a desenvolver uma intolerância à lactose, de acordo com estudo brasileiro conduzido pelo Departamento de Genética da Universidade Federal do Paraná. 

A pesquisa, cujos resultados foram publicados na revista científica Frontiers in Genetics, chegou a essa conclusão ao avaliar em 25 populações de 12 países latino-americanos, com ênfase em negros e quilombolas, a presença do alelo (parte do gene que dá as coordenadas) responsável pela persistência da lactase — enzima essencial para a digestão do leite e derivados. 

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A ausência dessa enzima, que já é alta entre os povos latino-americanos, se mostrou ainda mais sensível nas populações negras e quilombolas, segundo o estudo. 

Mudanças da evolução humana

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De acordo com a professora Marcia Holsbach Beltrame, orientadora da pesquisa, a lactase é expressa de forma intensa pelos recém-nascidos — que precisam dela para conseguir digerir e absorver os nutrientes vindos do leite materno. Com o crescimento, no entanto, a enzima deixa de ser necessária e não estaria mais presente no organismo. 

Mas essa condição foi modificada pela seleção natural, quando surgiram indivíduos capazes de consumir leite durante a vida adulta sem apresentar sintomas de intolerância. “Essa capacidade deu vantagem na alimentação das populações pastoralistas e fez com que esses indivíduos passassem seus genes com mais frequência, já que tinham mais chance de sobrevivência e reprodução”, afirma a especialista. 

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Esse processo, no entanto, aconteceu de forma separada em populações da Europa e da África, dando origem a indivíduos com mutações diferentes para a produção da lactase. O estudo, então, avaliou a frequência com que essas variações genéticas se apresentavam no continente americano. 

Foram avaliados os dados genéticos de pessoas negras em todo o continente americano. O sequenciamento mostrou que poucas pessoas possuem a mutação africana para a produção de lactase, indicando que o Brasil possui pouca ancestralidade de populações pastoralistas africanas. Já a mutação europeia foi encontrada em baixa quantidade entre negros – em alguns, nem isso foi detectado. 

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De acordo com Beltrame, entender essas especificidades da população negra – que compõe 56,1% da população brasileira, entre pretos e pardos, de acordo com o IBGE – é fundamental para que as orientações nutricionais sejam readequadas levando-se em conta essas informações. 

“As diretrizes alimentares divulgadas pelo governo reforçam muito o consumo de leite como algo importante para a saúde no que parece ser algo copiado das práticas europeias”, afirma a especialista. “Mas, se uma grande parte da população não consegue aproveitar esse alimento, essa orientação perde o sentido”, explica. 

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O próximo passo agora, segundo a coordenadora, é aprofundar os estudos genéticos nas populações negras, em especial nas comunidades quilombolas. “Nossa intenção é entender mais sobre a história dessas comunidades, já que cada uma delas têm ancestralidades bastante específicas”, afirma. A pesquisa contou com a parceria do pesquisador Victor Borba, da Universidade Federal de Minas Gerais.

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