"Essencialmente, o Brasil e os brasileiros não são nazistas", diz Alberto David Klein

Presidente do Memorial às Vítimas do Holocausto e da Federação Israelita do Estado do Rio de Janeiro (FIERJ) rebate críticas

Alberto David Klein
Alberto David Klein (Foto: Reprodução)


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247 - Presidente do Memorial às Vítimas do Holocausto e da Federação Israelita do Estado do Rio de Janeiro (FIERJ), Alberto David Klein divulgou nota nesta segunda-feira (10) na qual rebate críticas feitas a ele em artigo publicado no Brasil 247 por texto de sua autoria publicado no Estado de S. Paulo.

Leia na íntegra:

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"Essencialmente, o Brasil e os brasileiros não são nazistas

No último dia 5, Brasil247 deu espaço ao artigo “O Brasil não é hoje um país nazista?”, que critica texto de minha autoria, escrito em nome do Memorial às Vítimas do Holocausto – Rio de Janeiro – e da Federação Israelita do Estado do Rio de Janeiro (FIERJ) e que foi publicado pelo jornal O Estado de S. Paulo em 29 de dezembro passado. Os autores desprezaram elementos centrais do que tratei. Por isso, apresento os motivos que me levaram à abordagem, bem como ao final trago o trabalho original, na íntegra, para que os leitores possam ter ciência e tirar suas conclusões.

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Importante registrar que a FIERJ é uma instituição apartidária, cuja diretoria é eleita de forma democrática, por votos diretos de todos os membros da Comunidade Judaica residente no Estado do Rio de Janeiro, com mais de 60 entidades federadas participantes. Portanto, uma entidade que tem convívio e profundo respeito com diferentes posicionamentos ideológicos ou religiosos dos grupos que a compõem. A FIERJ vem, em nome desse coletivo, defender os valores da cultura judaica e a memória de nossos antepassados. 

É fundamental compreender que, na FIERJ, não buscamos enfrentamentos com outras organizações judaicas e nem mesmo com indivíduos da comunidade, porém fazemos, com legitimidade, a defesa intransigente de fatos históricos, papel pertinente ao nosso estatuto e em sintonia com direitos fundamentais e constitucionais do país que acolheu a nossa ancestralidade e que nos dá a sua cidadania. 

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Dito isso, reiteramos que as atrocidades vividas no período do nazismo, na Segunda Guerra Mundial e tudo o que decorreu dela, têm sido abordadas em releituras impossíveis, com finalidades políticas. A FIERJ critica isso e, também, atos e palavras isoladas que banalizam o holocausto. 

Infelizmente, a distorção sobre acontecimentos provocados pelo nazismo e sobre as perversidades do holocausto está acontecendo no Brasil e em outros países, locais onde nenhum político brasileiro governa, mas que, a exemplo do que temos denunciado, ensejam reduzir as questões relativas à Shoá.

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No mundo, como faz a FIERJ, mais vozes da comunidade judaica têm denunciado o que vem ocorrendo: Kenneth Bandler, diretor de relações com a mídia do Comitê Judaico Americano escreveu ao "The Jerusalem Post", em 26 de dezembro de 2021, sobre “uso indevido de analogias históricas” por pessoas contrárias à vacinação contra a Covid-19. Governadores de Connecticut, Idaho, Michigan, Oregon e Washington estão sendo chamados de Hitler por políticos e manifestantes nas ruas. Bandler resgata que poucos têm tido a coragem de se pronunciar sobre absurdos, como fez, recentemente, a prefeita de Chicago, Lori Lightfoot. Ela criticou o chefe do sindicato da polícia de lá por estabelecer comparações inadequadas em vista da exigência da vacinação aos funcionários municipais.

No “Semanario Hebreo Jai”, da Espanha, dia 03 de janeiro de 2022, o autor Isaac Levy menciona resolução do tribunal na Holanda que condenou um líder de extrema direita e um dos líderes do movimento contra a vacinação. Faziam comparações do nazismo às políticas de saúde em torno do passaporte de Covid. Ele alertou: “a banalização do nazismo é extremamente ofensiva para as vítimas da Shoá e é um insulto à inteligência e ao respeito pelos direitos humanos”. 

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Seja para ser contra ou a favor da vacinação, lá no exterior como aqui no Brasil, não se pode ofender a memória dos antepassados, apequenar o ocorrido naqueles tempos prévios e durante a Segunda Guerra Mundial. Tão somente isso estamos buscando esclarecer. 

Assim, agradeço ao Brasil247 por nos abrir seu espaço para essas informações. Segue a reprodução do artigo publicado pelo Estadão.

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O Brasil não é um país nazista  

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Nazista. Fascista. Genocida. Essas palavras não são simples substantivos ou adjetivos a serem usados de modo banalizado. Tampouco, holocausto! No entanto, tem sido crescente o emprego delas por nomes de grande respeitabilidade e produção científica para classificar personagens e tentar explicar o que acontece na política brasileira nestes dias. Este artigo não tem o propósito de defender ou atacar qualquer político ou intelectual, mas, sim, quer esclarecer à sociedade brasileira o perigo de igualar um dos grandes males da humanidade a outros sem a envergadura comparável. 

Rigorosamente, nada do que acontece no nosso país tem semelhança com o ocorrido na Europa nos anos 1920, 1930 e 1940, com o ódio que ceifou a vida de mais de 6 milhões de judeus e mais de 11 milhões de pessoas das gerações que vivenciaram os processos desencadeados por nazismo e por fascismo. Os genocídios e o holocausto são situações ímpares, incomparáveis em vista do processo histórico da Europa naquele período e não guardam a menor correlação com o Brasil e com o nosso cotidiano.  

O que cabe é a reflexão de que sempre fez parte da política e do marketing político se apropriarem de simplificações para gerar simpatia, antipatia, atrair ou causar repulsa, buscar o voto. Trabalhar o medo e a esperança em uma balança que envolve todos numa gangorra emocional. O problema é que comparações forçadas distanciam a população do real debate a ser feito. A polarização política nos alija de buscar soluções para as mazelas a serem enfrentadas pelos brasileiros. O pior efeito colateral dessa disputa é o apagamento de valores intangíveis sobre o direito inalienável à vida, bem maior. 

A grande dor, a questão-chave, é que o uso indiscriminado de palavras e de tudo o que cerca o holocausto traz o desrespeito ao mais sagrado em todos nós, a nossa humanidade! Tivemos capacidade de registro, de denúncia explícita, de reflexão e de julgamentos em relação ao nazismo, ao fascismo e suas perversidades. Por isso, a conceituação deles é relevante, bem como o entendimento de que resultaram em crimes contra a humanidade. Referir-se a eles é tratar de elementos específicos e de uma gravidade extrema. 

Perdemos mais de 600 mil vidas para a Covid-19. Uma dor indizível! Todos os que se foram merecem nossas preces e suas famílias enlutadas, o nosso respeito. Temos empobrecimento e fome nas nossas cidades porque a economia vai mal e o desemprego é imenso. No Rio de Janeiro, os morros estão conflagrados por conflitos entre traficantes, milícias e policiais. Mesmo com esse estado deletério, não há como estabelecer associação direta com o que fizeram Hitler e Mussolini, de modo obstinado e intencional. Aqui, temos processos históricos próprios do Brasil. 

Recontar a história dos nossos antepassados europeus, ensejando minimização dos fatos, faz as gerações do presente e as futuras esquecerem as atrocidades daquele período, que assim foram nominadas para não serem apagadas ou varridas das consciências no mundo todo. 

O ódio aos judeus é anterior ao nazismo e potencializado por ele. Resultou de um processo de construção secular de raiva, incitação à dominação e à iniciativa de aniquilar quem se odiava. O antissemitismo era plataforma do partido nazista. O programa do partido já dizia que nenhum judeu era cidadão alemão. Essa ideologia pregava a raça superior e excluía desse contingente, além de judeus, os negros, os ciganos, as pessoas com deficiência, os homossexuais, as testemunhas de Jeová. Pelos nazistas, essas pessoas eram consideradas párias, ratos a serem exterminados. É bárbaro ter de escrever assim. Choca. Machuca. Contudo, é a verdade.  

Será que os discursos que permeiam as falas dos políticos brasileiros – por péssimos que sejam – levarão a cabo o ódio para um extermínio em massa de judeus, de negros, de homossexuais, de pessoas com deficiência, ou de outros desafetos, promovendo genocídios à luz do dia neste país? Faço parêntese sobre a questão dos massacres indígenas, destacando que são um outro fenômeno e que a Nação precisa enfrentá-los efetivamente. 

Haverá quem diga que as imagens anteriormente reportadas são as mais extremas possíveis e que não se trata de nada disso, e sim de que o “nazismo e o fascismo atuais” compreendem outras facetas. É justamente o que este artigo vem denunciar: são falácias! Nazismo e fascismo não podem ser relativizados, apequenados, ditos como se fossem termos corriqueiros. As situações do nazismo e do fascismo não podem ser recriadas, adaptadas à sociologia brasileira porque a analogia é perversa, desconstrói o passado e não traz ensinamentos aos jovens.  

Não é sob mentiras que construiremos uma nação mais humana, menos desigual e realmente democrática. Temos de fazer, objetivamente, o debate sobre a política brasileira, suas exclusões sociais e como solucioná-las. Dar às coisas e situações o nome que têm. E se não têm? Analisar o contexto e conceituá-las, em pleno exercício de honestidade intelectual. Nada mais. Essencialmente, o Brasil e os brasileiros não são nazistas".

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