Petistas apontam manobras do governo para impedir aprovação da Cannabis para uso medicinal

Três ex-ministros da Saúde, Arthur Chioro, Alexandre Padilha e Humberto Costa, detalham em artigo todas as manipulações do governo Bolsonaro para impedir que a planta seja cultivada no Brasil, tolhendo o desenvolvimento de pesquisas na área e prejudicando as famílias que precisam da erva para fins medicinais



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247 - Os ex-ministros da Saúde, Arthur Chioro, Alexandre Padilha, atual deputado federal (PT-SP), e Humberto Costa, senador da república (PT-PE), divulgaram nesta quarta-feira (27) artigo denunciando as manobras do governo de Jair Bolsonaro para impedir o desenvolvimento de critérios para que o insumo da cannabis esteja disponível para as pessoas que precisam de tratamento.

Leia abaixo na íntegra:

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Após seguidas manobras do diretor da Anvisa indicado pelo governo Bolsonaro, a regulamentação do plantio de cannabis para fins medicinais e de pesquisa parece finalmente próximo de um desfecho, que pode beneficiar milhares de brasileiros que precisam desse medicamento. Depois de pedir vistas do processo e extrapolar o prazo regimental de análise, o diretor se comprometeu a voltar com o tema na próxima reunião da Diretoria Colegiada do órgão, prevista para terça-feira (3/12).

Inicialmente, a regulamentação foi colocada em pauta pelo diretor-presidente da Agência e relator da matéria na reunião do dia 15 de outubro, após processo de ampla participação social, com realização de audiência pública, consulta pública, consultas dirigidas e discussões em comissões no Congresso Nacional. Entretanto, depois da leitura do voto favorável do relator pela regulamentação do plantio de cannabis para fins medicinais e de pesquisa e também do procedimento específico para o registro de medicamentos à base dessa planta, as matérias foram alvo de pedido de vistas por dois diretores.

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Agora, quando o tema voltar para análise do colegiado, um dos diretores da Agência, notoriamente favorável à regulamentação, não participará da votação, em razão do término de seu mandato. Mais uma vez, houve manobra dos diretores alinhados ao governo,  os mesmos que pediram vistas, já que a votação poderia ter ocorrido na reunião da última terça-feira (26/11). Mas, sob forte pressão, especialmente do ministro da Cidadania, Osmar Terra, o tema foi novamente adiado para reunião futura, com ausência já confirmada de um dos diretores favoráveis ao tema. 

Como de costume, desde que Bolsonaro assumiu o governo, o debate sobre o plantio de cannabis para fins medicinais e de pesquisa foi contaminado pela chamada “questão ideológica”, com ataques sistemáticos do ministro da Cidadania contra a questão. Apropriando-se de um discurso obscurantista e retrógrado, Terra bradou aos quatro cantos que liberação da maconha para fins medicinais “abre portas para consumo generalizado”.

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Para sustentar sua tese, o ministro fez uso, inclusive, de afirmações falsas sobre o tema, dentre as quais de que a Anvisa estaria contrariando a legislação se permitisse o plantio da maconha para fins medicinais ou científico, algo que já é previsto desde 2006 pela Lei de Drogas, ou de que toda a propriedade medicinal da maconha estaria restrita ao canabidiol, sendo que há remédios à base de THC, em outros países, por exemplo. Aliás, parece ser esse um dos expedientes recorrentes do atual governo: difundir informações falsas para confundir a sociedade.

Acontece que, diferente do que afirma o ministro, as propostas da Anvisa não tratam da legalização da maconha ou da abertura das portas para o consumo generalizado da planta. É uma questão científica, algo que parece custoso ao governo obscurantista de Bolsonaro, que já demonstrou seu total desprezo pelas nossas universidades e pela ciência, quando congelou e cortou bolsas de pesquisa científica de milhares de estudantes brasileiros.

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As recentes descobertas científicas apontam para os efeitos positivos no uso de derivados da planta no tratamento de dores crônicas, esclerose múltipla, epilepsia e outras condições neurológicas desafiadoras, como o controle dos sintomas da doença de Parkinson. Justamente, por isso, o plantio controlado tem sido regulamentado em diversos países e não tem sido alvo de questionamentos da Organização das Nações Unidas (ONU). 

Cabe ressaltar que, desde 2014, famílias brasileiras têm conseguido na justiça o direito de importar produtos à base de cannabis para o tratamento de crianças portadoras de epilepsia refratária. Desde 2015, a Anvisa já regulamentou a importação desses produtos, tendo sido realizados quase 13 mil pedidos por mais de 1,2 mil médicos, desde então, conforme dados do próprio órgão, o que comprova a existência de uma demanda real sobre prescrição por esses produtos.

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Em janeiro de 2017, foi registrado o primeiro medicamento à base de Cannabis sativa, no Brasil. Mesmo assim, há dezenas de processos em andamento para que o judiciário autorize o plantio individual por famílias e pacientes, que alegam ausência de condições para importar esses produtos.

Isso sem considerar os gastos do SUS com a aquisição de produtos à base cannabis, que não passaram pela avaliação da Anvisa. No Canadá, nos Estados Unidos e em Portugal, por exemplo, produtos à base de cannabis podem ser registrados como medicamento, com a devida avaliação de qualidade, segurança e eficácia das autoridades sanitárias. 

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Ao manipular para impedir que a planta seja cultivada no Brasil para fins exclusivos de pesquisa e de saúde, o governo está tolhendo o desenvolvimento de pesquisas científicas a respeito do tema, deixando o país a reboque das descobertas internacionais. Também impede a disponibilidade do insumo farmacêutico, para que dele sejam elaborados medicamentos à base dessa planta. 

Mais de 30 países já possuem normas que regulamentam, tanto do ponto de vista da qualidade e da segurança, a produção de insumos, produtos e medicamentos derivados da cannabis em seus territórios, como revela o voto do diretor da Anvisa.  Cabe mencionar, que a proposta da Anvisa, engavetada pelo diretor bolsonarista, prevê um rígido sistema de controle para que a planta seja cultivada no Brasil.  

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Ao se manter refém de uma visão obscurantista sobre o tema, o governo Bolsonaro impede o Brasil de progredir, junto com diversos países do mundo, no desenvolvimento de critérios para que o insumo da cannabis esteja disponível para as pessoas que precisam de tratamento. Também coloca mais um freio no desenvolvimento científico nacional deixando um dos maiores mercados farmacêuticos mundiais, que é o brasileiro, ao dispor da indústria farmacêutica internacional. 

Conforme preconiza a própria Constituição de 1988, a saúde é direito de todos e dever do Estado, garantido mediante políticas sociais e econômicas que visem à redução do risco de doença e de outros agravos e ao acesso universal e igualitário às ações e serviços para a promoção, proteção e recuperação. Por isso, avançar na regulamentação do registro e do monitoramento de medicamentos produzidos à base de cannabis e nos requisitos técnicos e administrativos para o cultivo da planta, única e exclusivamente para fins medicinais e científicos, é uma questão de cidadania, garantindo que pacientes com doenças debilitantes ou que ameaçam a vida tenham acesso a um tratamento eficaz e seguro. 

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