Associação de delegados pede proteção para a PF

"Não é admissível que a Polícia Federal – um órgão de Estado, sem alinhamento a governos ou governantes – ainda hoje possa estar sujeita a eventuais desmandos de um ministro da Justiça nomeado conforme interesses políticos da ocasião", diz Carlos Eduardo Sobral, presidente da Associação Nacional dos Delegados de Polícia Federal, que condena a nomeação de Torquato Jardim, que chega com a missão de estancar a Lava Jato e proteger Michel Temer

Brasília - DF, 02/06/2016. Presidente Interino Michel Temer durante cerimônia de posse do senhor Torquato Jardim no cargo de Ministro da Transparência, Fiscalização e Controle. Foto: Beto Barata/PR
Brasília - DF, 02/06/2016. Presidente Interino Michel Temer durante cerimônia de posse do senhor Torquato Jardim no cargo de Ministro da Transparência, Fiscalização e Controle. Foto: Beto Barata/PR (Foto: Leonardo Attuch)


✅ Receba as notícias do Brasil 247 e da TV 247 no canal do Brasil 247 e na comunidade 247 no WhatsApp.

247 – "Não é admissível que a Polícia Federal – um órgão de Estado, sem alinhamento a governos ou governantes – ainda hoje possa estar sujeita a eventuais desmandos de um ministro da Justiça nomeado conforme interesses políticos da ocasião", diz Carlos Eduardo Sobral, presidente da Associação Nacional dos Delegados de Polícia Federal, que condena a nomeação de Torquato Jardim, que chega com a missão de estancar a Lava Jato e proteger Michel Temer.

Leia, abaixo, seu artigo:

Polícia Federal precisa ser protegida

continua após o anúncio

O assunto ganhou novo fôlego após a revelação de declarações do senador afastado Aécio Neves (PSDB-MG), gravadas pelo empresário e delator Joesley Batista, nas quais o parlamentar deixa explícita a intenção de promover articulação política a fim de intervir na Polícia Federal.

No diálogo, o agora afastado presidente do PSDB critica o ex-ministro da Justiça, Osmar Serraglio, e a falta de ingerência na distribuição dos inquéritos da Lava Jato.

continua após o anúncio

"Porque aí mexia na PF", afirmou Aécio, demonstrando preocupação com os rumos e o alcance da maior operação do país contra a corrupção e o crime organizado.

Assim como o senador mineiro, outros protagonistas do mundo político já foram flagrados em conversas similares, discutindo nomeações ou arquitetando formas de afetar as forças policiais.

continua após o anúncio

No início do ano passado, por exemplo, José Eduardo Cardozo deixou o cargo de ministro da Justiça alegando ter sofrido pressão política para frear a Lava Jato.

Cardozo permaneceu no cargo pouco mais de cinco anos. Foi o ministro mais longevo da pasta durante o período democrático. Hoje pesa contra ele a suspeita de que teria repassado informações confidenciais sobre operações da PF.

continua após o anúncio

Em 2016, o senador Romero Jucá (PMDB-RR), então ministro do Planejamento, sugeriu, em outro diálogo gravado tornado público, a construção de um pacto nacional para "estancar a sangria" representada pela Lava Jato. Deixou o posto uma semana e meia após ser nomeado.

Combatidas com veemência pelos delegados federais, essas e outras iniciativas, ao ganharem a luz do dia, acabaram interrompidas pela enorme pressão da opinião pública.

continua após o anúncio

No entanto, elas expõem um cenário extremamente preocupante de fragilidade institucional da Polícia Federal, diante da força de personagens vinculados ao crime organizado e ligados ao alto escalão do governo.
Tais fatos apenas reafirmam a urgência na aprovação da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 412/2009, que consolida a autonomia funcional, administrativa e orçamentária da PF.

Adormecido na Comissão de Constituição e Justiça da Câmara dos Deputados, o projeto altera o artigo 144 da Constituição Federal com o objetivo de garantir maior independência, melhorar a gestão interna e reverter o processo de desmonte imposto à instituição nos últimos anos.

continua após o anúncio

Não é admissível que a Polícia Federal – um órgão de Estado, sem alinhamento a governos ou governantes – ainda hoje possa estar sujeita a eventuais desmandos de um ministro da Justiça nomeado conforme interesses políticos da ocasião.

O projeto também visa garantir o mandato de três anos para o diretor-geral da instituição, com possibilidade de uma recondução, a fim de evitar sua demissão do posto caso a atuação da polícia desagrade aos governantes.

continua após o anúncio

Apesar da escassez de recursos materiais, da falta de pessoal e dos sucessivos cortes orçamentários, os delegados federais continuarão a luta para salvaguardar a independência de suas investigações.

De toda maneira, é fundamental que a sociedade brasileira e os parlamentares se engajem nesse objetivo. A PF é uma polícia de Estado, e não de governo. É um patrimônio do povo brasileiro que deve ser protegido por todos.

CARLOS EDUARDO SOBRAL, delegado federal, é presidente da Associação Nacional dos Delegados de Polícia Federal (ADPF)

iBest: 247 é o melhor canal de política do Brasil no voto popular

Assine o 247, apoie por Pix, inscreva-se na TV 247, no canal Cortes 247 e assista:

Comentários

Os comentários aqui postados expressam a opinião dos seus autores, responsáveis por seu teor, e não do 247

continua após o anúncio

Ao vivo na TV 247

Cortes 247