Vice-presidente dos EUA ignora Temer em visita à América do Sul

Mike Pence terá uma série de encontros com líderes da América Latina na próxima semana, mas o Brasil está fora da agenda; para o professor do Departamento de Relações Internacionais da UERJ, Maurício Santoro, o fato de Michel Temer ter sido "esnobado" evidencia o desprestígio do Brasil no cenário internacional; "Dez anos atrás, quando algum líder internacional vinha à região, sempre visitava pelo menos Chile e Brasil, passando por cima da Argentina. Agora é o contrário. Isso dá a dimensão da crise brasileira, com uma recessão profunda e a perda da estabilidade política", disse

Mike Pence
Mike Pence (Foto: Paulo Emílio)


✅ Receba as notícias do Brasil 247 e da TV 247 no canal do Brasil 247 e na comunidade 247 no WhatsApp.

Sputnik - O vice-presidente dos Estados Unidos, Mike Pence, terá uma série de encontros com líderes da América Central e da América Latina na próxima semana, entre os dias 13 e 18 de agosto. Como se tornou frequente recentemente, o Brasil está fora da agenda do vice de Donald Trump.

Em entrevista exclusiva à Sputnik Brasil, o cientista político e professor do Departamento de Relações Internacionais da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), Maurício Santoro, avaliou que o fato do presidente Michel Temer ter sido "esnobado" por Pence evidencia o desprestígio brasileiro no cenário internacional.

"É interessante se você comparar com 10 anos atrás, quando algum líder internacional vinha à região, sempre visitava pelo menos Chile e Brasil, passando por cima da Argentina. Agora é o contrário. Isso dá a dimensão da crise brasileira, com uma recessão profunda e a perda da estabilidade política", afirmou.

continua após o anúncio

Recentemente, em junho, a primeira-ministra alemã Angela Merkel também evitou visitar o Brasil, preferindo desembarcar em Buenos Aires e na Cidade do México. Já em janeiro, o então presidente francês François Hollande optou por visitar exclusivamente a Colômbia, em sua última oportunidade de visitar a América do Sul.

Para Santoro, o fato de líderes estarem evitando o Brasil não acontece ao acaso. Segundo o cientista político, o fato de dois setores caros à política externa do país – o de construção civil e o de petróleo e gás – estarem no coração da Operação Lava Jato ajuda a minar o prestígio brasileiro perante outras nações neste momento.

continua após o anúncio

"Toda essa atuação das empresas brasileiras no exterior foi colocada em xeque [...]. De 2011 para cá, tivemos cinco ministros de Relações Exteriores diferentes, e a cada entra e sai mudam os postos de cúpula, os secretários, ocasionalmente os embaixadores, e tudo isso dificulta. Além disso, houve uma partidarização da política externa, com uma falta de agenda e objetivos a longo prazo", explicou.

O professor da UERJ analisou ainda que o Brasil ser esnobado neste momento é algo até esperado, principalmente se forem considerados os resultados das idas de Temer ao exterior.

continua após o anúncio

"Todas as viagens de Temer têm sido marcadas por situações constrangedoras, sem conseguir encontros privados com chefes de Estado, ao passo que as pessoas o questionam sobre a corrupção no país. Pelo padrão da história brasileira, só tivemos influência externa quando havia estabilidade política em casa e uma economia próspera, o que dava às autoridades brasileiras uma maior influência", destacou Santoro.

Escalas e objetivos

continua após o anúncio

Anunciada há dois meses, a visita de Mike Pence à América Latina prevê encontros com presidentes e empresários na Colômbia (visita Bogotá e Cartagena), Argentina (passa por Buenos Aires), Chile (visita a Santiago), e ainda um desembarque na Cidade do Panamá, na América Central.

"Durante sua viagem, o vice-presidente vai se reunir com líderes do governo e da comunidade empresarial para reafirmar o compromisso do presidente [Trump] em aprofundar o comércio bilateral e os laços de investimento com a região, e continuar o apoio da Administração na cooperação em segurança, engajamento comercial, agricultura e desenvolvimento de infraestrutura", informou a Casa Branca em um comunicado.

continua após o anúncio

A principal mensagem de Pence à região deve abordar as políticas da Casa Branca para a região, tocando em pontos espinhosos, como o corte da ajuda financeira fornecida aos países latino-americanos em 2018, determinado pelo governo Trump. Apesar disso, a ênfase que Pence tentará passar ao longo da sua visita é de que a região segue sendo considerada importante pelo governo estadunidense.

A crise da Venezuela também deve ser abordada nos encontros de Pence na Argentina, Chile e Colômbia. Os EUA elogiaram a decisão do Mercosul em suspender por tempo indeterminado o país vizinho, após o que chamaram de "quebra da ordem democrática" por conta da eleição e implementação de uma Assembleia Constituinte, que planeja reescrever a Constituição venezuelana, em vigor desde 1999.

continua após o anúncio

Na opinião de Santoro, há o risco da crise venezuelana ser colocada no mesmo patamar de Cuba, uma vez que Pence aborde quais são as políticas de Trump em prol da democracia e da estabilidade na região. Todavia, se isso se confirmar será um equívoco, de acordo com o cientista político.

"São situações até opostas. Cuba passa por um processo de reforma do seu sistema político e vinha tendo uma aproximação com os EUA no governo [de Barack] Obama. Houve um baque com Trump, que quer reverter acordos com a ilha. Já a Venezuela vive a pior situação de um país no mundo que não esteja em guerra, com perda de um terço do PIB [Produto Interno Bruto] em quatro anos, escassez de comida, uma inflação de 800% e a deterioração das liberdades civis", afirmou.

continua após o anúncio

Embora pouco se saiba sobre o quão enfático Pence será quanto aos regimes cubano e venezuelano, o que se espera é que o vice-presidente norte-americano traga mais clareza sobre o que a Casa Branca pretende para sua política externa em torno das duas questões. Santoro possui um palpite a respeito.

"O que pode haver de comum entre os dois países envolve a posição dos EUA para ambos, atuando por meio de sanções, o que representa um retrocesso nas políticas americanas para a região", concluiu.

iBest: 247 é o melhor canal de política do Brasil no voto popular

Assine o 247, apoie por Pix, inscreva-se na TV 247, no canal Cortes 247 e assista:

Comentários

Os comentários aqui postados expressam a opinião dos seus autores, responsáveis por seu teor, e não do 247

continua após o anúncio

Ao vivo na TV 247

Cortes 247