Venezuela nega chá de cadeira em Dilma

Notícia de que encontro entre os presidentes Nicolás Maduro e Dilma Rousseff foi atrasado em duas horas em razão da reunião prévia com o ex-presidente Lula, conforme noticiou a Folha, foi desmentida hoje pelo embaixador venezuelano Maximilien Arveláiz; pedido de adiamento teria partido do próprio Palácio do Planalto; crise artificial (mais uma) inspirou até editorial do Estadão sobre o papel "coadjuvante" de Dilma

Venezuela nega chá de cadeira em Dilma
Venezuela nega chá de cadeira em Dilma


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247 – O governo venezuelano negou, à Folha de S.Paulo, que tenha havido qualquer atraso no encontro entre a presidente Dilma Rousseff e o presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, em razão do encontro de Maduro com o ex-presidente Lula. Nesta sexta-feira, o jornal publicou uma reportagem intitulada "Lula atrasa o encontro entre Dilma e Maduro", pela qual diz que a presidente aguardou por cerca de 1h40 no Palácio do Planalto o fim do encontro do cacique petista com o sucessor de Hugo Chávez.

Em resposta à matéria, o embaixador da Venezuela no Brasil, Maximilien Arveláiz, esclareceu, por meio de nota enviada ao jornal, que o atraso se deu já no embarque de Maduro na Argentina e que o próprio governo brasileiro pediu mudança no horário do compromisso com Dilma. A nota foi publicada neste sábado na página de Lula no Facebook. Leia abaixo:

"Diferentemente da informação publicada pela Folha, de que o ex-presidente Lula teria atrasado em quase duas horas a agenda do presidente Nicolás Maduro, informamos que o atraso se deu já no embarque do presidente Maduro na Argentina.

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Ao desembarcar no Brasil, por volta das 13h40, o presidente dirigiu-se à Embaixada da Venezuela, onde participou de reunião com assessores e recebeu o ex-presidente Lula por cerca de 40 minutos. Em seguida, se deslocou para o Palácio do Planalto.

Lembrando que o próprio governo brasileiro já havia solicitado mudança de horário para a audiência com Nicolás Maduro.

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Maximilien Arveláiz, embaixador da República Bolivariana da Venezuela no Brasil (Brasília, DF)"

O fato rendeu até o editorial "Chá de cadeira em Dilma" na edição deste sábado do jornal O Estado de S.Paulo. O texto trata do papel "coadjuvante" da presidente, que teria tomado um chá de cadeira de Maduro enquanto este "bebia dos ensinamentos" de Lula. Jornal diz ainda que foi "constrangedora" a cena do líder venezuelano presenteando Dilma com um "enorme retrato de Chávez". Leia abaixo:

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Chá de cadeira em Dilma

A presidente do Brasil é Dilma Rousseff, mas isso parece ser apenas um detalhe. Na fabulação bolivariana, ela não passa de uma nota de rodapé ante os "gigantes" Luiz Inácio Lula da Silva, Hugo Chávez e Néstor Kirchner. Por isso, o presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, não teve nenhum pudor em deixá-la esperando por quase duas horas, durante sua visita ao Brasil, enquanto se encontrava com o ex-presidente Lula. Não foi apenas Dilma que saiu menor desse episódio. É a própria Presidência brasileira que encolhe a olhos vistos ante o menosprezo de Lula pela liturgia do cargo que ele não mais ocupa, mas do qual não consegue "desencarnar". Dilma, por sua vez, obediente e disciplinada, parece aceitar seu status de presidente ad hoc.

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Como se sabe, Maduro veio ao Brasil para obter a legitimidade política que lhe falta na Venezuela, graças à truculência com que ele está tratando a oposição - dona de metade dos votos na controvertida eleição vencida pelo herdeiro de Chávez. Maduro enfrenta resistência também nas próprias fileiras chavistas, porque, com a morte do Comandante, se multiplicaram focos de rebelião daqueles que se sentiram preteridos dentro do Politburo venezuelano e relutam jurar lealdade ao presidente.

Já começam a circular rumores de que os próprios chavistas, principalmente o presidente da Assembleia Nacional, Diosdado Cabello, estão conspirando para prejudicar Maduro. Suspeita-se que Cabello - que já está sendo chamado de "ditador em espera", é muito ligado aos militares e não é bem visto pelo regime cubano, padrinho de Maduro - esteja incitando a violência para precipitar a crise.

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Tudo isso acontece em meio a uma avassaladora crise econômica, cujo lado mais perverso e politicamente explosivo é o desabastecimento de alimentos - que Maduro atribuiu à "sabotagem econômica", sem reconhecer a óbvia incompetência de seu governo. Não surpreende que já haja pesquisas mostrando que, se a eleição presidencial fosse hoje, o vencedor seria o opositor Henrique Capriles.

Nesse contexto, Maduro veio ao Brasil para pedir ajuda - que se traduzirá em acordos comerciais francamente desequilibrados em favor da Venezuela - e para consultar-se com Lula para saber o que fazer. O ex-presidente não o decepcionou. "Hoje, Lula nos banhou de sabedoria", declarou, entusiasmado, o venezuelano, após a audiência que contou também com a presença do presidente do PT, Rui Falcão, numa deliberada confusão de questões de Estado com interesses político-ideológicos. Lula falou durante uma hora sobre sua "experiência de luta", disse Maduro, que qualificou o petista de "pai dos homens e mulheres de esquerda da América Latina". Para o venezuelano, "dos três gigantes que começaram este processo de integração da América Latina, Kirchner, Chávez e Lula, só nos resta Lula". Assim, a visita oficial de um chefe de Estado ao Brasil converteu-se em peregrinação para adorar um santo vivo e beber de seus "ensinamentos".

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Somente depois de beijar a mão de Lula e de reconhecer-se como seu "filho" é que Maduro dirigiu-se ao Planalto para ser recebido por Dilma, que lhe reservou honras de Estado, a despeito do chá de cadeira que levou. Não contente em fazê-la esperar, Maduro ainda lhe presenteou com um enorme retrato de Chávez, numa cena constrangedora, que tornou a presidente ainda menor em todo o contexto. Restou a Dilma fazer um discurso curto, protocolar, em que exaltou a "parceria estratégica" entre Brasil e Venezuela e chamou de "momento histórico" o fato de que a Venezuela assumirá a presidência do Mercosul no segundo semestre - situação esdrúxula que só está sendo possível graças a um golpe bolivariano para isolar o Paraguai, que se opunha à entrada da Venezuela no bloco.

À vontade, Maduro sentiu-se autorizado a dizer, sem que a mentira fosse contestada, que o projeto do Mercosul "nasceu em essência das ideias de Chávez". No culto à personalidade de Chávez e Lula, Dilma é cada vez mais apenas uma coadjuvante.

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