Uma reflexão de Gramsci sobre o Ano Novo

Escrito originalmente em 1916, pouco após a Itália entrar na 1ª Guerra Mundial, pelo filósofo italiano Antonio Gramsci, o texto Odio il Capodanno (Odeio o Ano Novo) não traz apenas uma luz sobre as batalhas entre trabalhadores e o defensores de posições "social-democratas"; mais do que isso, porém, no texto Gramsci deixa à mostra sua luta contra o imobilismo e o conformismo das ideias, algo bastante presente nos dias hoje no Brasil 

Escrito originalmente em 1916, pouco após a Itália entrar na 1ª Guerra Mundial, pelo filósofo italiano Antonio Gramsci, o texto Odio il Capodanno (Odeio o Ano Novo) não traz apenas uma luz sobre as batalhas entre trabalhadores e o defensores de posições "social-democratas"; mais do que isso, porém, no texto Gramsci deixa à mostra sua luta contra o imobilismo e o conformismo das ideias, algo bastante presente nos dias hoje no Brasil 
Escrito originalmente em 1916, pouco após a Itália entrar na 1ª Guerra Mundial, pelo filósofo italiano Antonio Gramsci, o texto Odio il Capodanno (Odeio o Ano Novo) não traz apenas uma luz sobre as batalhas entre trabalhadores e o defensores de posições "social-democratas"; mais do que isso, porém, no texto Gramsci deixa à mostra sua luta contra o imobilismo e o conformismo das ideias, algo bastante presente nos dias hoje no Brasil  (Foto: Paulo Emílio)


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Esquerda DiárioO texto foi publicado original no dia 1º de janeiro de 2016 em Turim, no jornal Avanti!, onde Gramsci escrevia a coluna "Sotto la Mole", dedicada a comentar sobre a vida turinesa sob a sombra da Mole Antonelliana , principal símbolo arquitetônico da cidade.

O "Capodanno" (Ano Novo) de 1916 esteve marcado pela recente entrada da Itália na Primeira Guerra Mundial, uma carnificina entre as nações imperialista pela dominação mundial como nunca antes a humanidade tinha visto. Este fato gerou um profundo debate na sociedade italiana, entre a classe trabalhadora e dentro do próprio Partido Socialista Italino que se debatia entre posições "social-patriotas" a favor da intervenção militar e posições de "neutralidade".

Esse debate atravessou o socialismo europeu, e os principais partidos apoiaram a guerra e suas próprias burguesias em "defesa da pátria", levando a bancarrota da Segunda Internacional. Entre os que se opuseram a esse caminho reformista da Segunda Internacional e dos Partidos Socialistas estavam aqueles que fizeram isto a partir de uma posição revolucionária (encabeçados por Lênin, Trotsky, Liebknecht e Rosa Luxemburgo) e também o próprio Antônio Gramsci. Posteriormente, junto a Amadeo Bordiga, serão alguns dos principais fundadores do Partido Comunista Italiano.

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Neste contexto o "Odeio o Ano Novo" é uma diatribe contra essa festa, mas sobretudo, é uma manifestação do ódio de Gramsci ao conformismo das ideias e da vida regulamentada pelo capitalismo e sua ideologia, que nos leva a celebrar, porque sempre se celebrou, uma ocasião especial.

Algo que nos impulsiona a mudar ou a preparar novos planos para alguma mudança mas que logo seremos enfrentados por um pântano de imobilismo até uma nova ocorrência. Contra esta inércia escreve Gramsci:

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"Quero que cada manhã seja um ano novo para mim. A cada dia quero ajustar as contas comigo mesmo e renovar-me."

Odio il Capodanno de Gramsci nos aproximo de seus conhecidos artigos "Ódio aos indiferentes" publicados no mesmo Avanti! um ano depois em 11 de fevereiro de 1917. A luta de Gramsci contra o imobilismo e o conformismo das ideias, próprias de sua personalidade curiosa, inconformista, anticlerical e sobretudo, comunista.

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Odio il Capodanno

Toda manhã, ao acordar mais uma vez sob o manto do céu, sinto que para mim é o primeiro dia do ano.

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Por isso odeio estes anos novos a prazo fixo, que transformam a vida e o espírito humano em uma empresa comercial, com sua prestação de contas, seu balanço e suas previsões para a nova gestão. Eles fazem com que se perca o sentido de continuidade da vida e do espírito. Termina-se por acreditar a sério que entre um ano e outro exista uma solução de continuidade e comece uma nova história; fazem-se promessas e projetos, as pessoas se arrependem dos erros cometidos, etc. É um equívoco geral que afeta todas as datas.

Dizem que a cronologia é a ossatura da história. Pode-se admitir que sim. Mas também é preciso admitir que há quatro ou cinco datas fundamentais, que toda pessoa conserva gravadas no cérebro, datas que tiveram efeito devastador na história. Também elas são primeiros dias de ano. O Ano Novo da história romana, ou da Idade Média, ou da era moderna. Elas se tornaram tão presentes que nos surpreendemos a pensar algumas vezes que a vida na Itália começou em 752, e que 1490 ou 1492. São como montanhas que a humanidade ultrapassou de um só golpe para entrar em um novo mundo e em uma nova vida.

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Com isso, a data converte-se em um fardo, um parapeito que impede que se veja que a história continua a se desenvolver de acordo com uma mesma linha fundamental, sem interrupções bruscas, como quando o filme se rompe no cinema e se abre um intervalo de luz ofuscante.

Por isso odeio o ano novo ano. Quero que cada manhã seja um ano novo para mim. A cada dia quero ajustar as contas comigo mesmo e renovar-me. Nenhum dia previamente estabelecido para o descanso. As pausas eu escolho sozinho, quando me sinto embriagado de vida intensa e desejo mergulhar na animalidade para extrair um novo vigor.

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Nenhum disfarce espiritual. Cada hora da minha vida eu gostaria que fosse nova, ainda que vinculada às horas já passadas. Nenhum dia de júbilo coletivo obrigatório, a ser compartilhado com estranhos que não me interessam. Só porque festejaram os avós dos nossos avós, etc., teremos também nós de sentir a necessidade de festejar? Tudo isso dá náuseas.

Espero o socialismo também por esta razão. Porque mandará para o lixo todas estas datas que já não têm nenhuma ressonância em nosso espírito. E se o socialismo vier a criar novas datas, ao menos serão as nossas e não aquelas que temos de aceitar sem benefício de inventário dos nossos ignorantes antepassados.

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Antonio Gramsci, Turín, 1º de janeiro de 1916.

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