Talibãs moderados querem paz

Se acontecesse antes das eleições americanas, o fim da guerra no Afeganistão seria ótimo para a campanha de Obama, por ser impopular nos EUA. Mas, até agora, os estrategistas democratas têm demonstrado uma postura publicitária bastante conservadora



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A loucura da Guerra do Afeganistão pode ter fim antes do previsto. Entrevista de um importante comandante talibã ao New Statesman (11/7/12) mostra que milicianos moderados são francamente favoráveis à paz. Simplesmente porque eles sabem que não poderão vencer os exércitos da OTAN e dos EUA.

No começo do ano, o Talibã enviou representantes ao Qatar com o objetivo de negociar com os EUA. Eles solicitaram a libertação de quatro membros do movimento presos em Guantanamo, como prova da boa vontade americana.

Os entendimentos, que haviam começado bem, acabaram não dando certo. Por várias razões: os EUA relutaram em transferir os talibãs com medo de que os republicanos acusassem Obama de fraqueza e o presidente afegão Kardai sabotou os contatos por ter sido excluído. A ideia foi suspensa, mas não anulada porque os enviados do Talibã continuam no Qatar, esperando novos desenvolvimentos.

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O comandante talibã entrevistado está ciente de que muitos americanos também duvidam da possibilidade de vencerem. Estão ansiosos por um acordo que permita a retirada das tropas com honra.

Ele acha que esse acordo deve ser discutido com quem manda, ou seja, os EUA, incluindo também a Aliança do Norte, poderoso grupo armado afegão aliado dos americanos. Karsai deveria ficar de fora, pois é considerado pelos talibãs como um mero fantoche, sem poder nem prestígio junto aos afegãos.

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Devido à proibição dos talibãs darem entrevistas sem ser oficialmente, o comandante desejou manter-se no anonimato, sob um nome fictício: Malwvi. O entrevistador, Michael Semple, garante que se trata de um líder, que participa das principais decisões dos talibãs.

Por sua vez, Semple dispõe do mais amplo crédito. Foi enviado da ONU em Kabul, durante os tempos de domínio talibã, onde manteve contato com as lideranças desse grupo. É membro do Centro Carter de Direitos Humanos, presidido pelo ex-presidente americano Jimmy Carter.

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Ele perguntou a Malwvi se a Al Qaeda não criaria obstáculos à paz com o Ocidente. A resposta foi: "Pelo menos 70% dos talibãs têm raiva da Al Qaeda. Nosso pessoal considera a Al Qaeda uma praga... Para falar a verdade, eu fiquei aliviado com a morte de Osama (bin Laden). Com sua política, ele destruiu o Afeganistão. Se ele realmente acreditasse na jihad (guerra santa), deveria ir para a Arábia Saudita e fazer sua jihad lá, não aqui, prejudicando nosso país".

A Al Qaeda não poderá prejudicar o acordo, o problema são os principais líderes radicais, que cercam o chefe supremo dos talibãs, o mulá Omar. Malwvi não sabe dizer se sua influência é maior do que a dos líderes pragmáticos, que pensam como ele.

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É também uma incógnita até onde vai a capacidade dos chefes dos talibãs do Paquistão de conter os jovens milicianos. Eles estão se tornando cada vez mais radicais e agressivos, como reação à campanha de assassinatos das forças especiais americanas e dos drones, nos últimos anos.

O importante é que nem todos os talibãs são irracionais – há uma importante ala pragmática. O mesmo acontece no lado americano. Não são poucos os principais líderes políticos e militares dos EUA que desejam acabar logo com uma guerra que sabem poder durar muitos e muitos anos.

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Esta posição em comum faz supor que a paz não deve estar muito longe. É claro que terá de esperar, ao menos, pela eleição presidencial americana, em novembro.

Na verdade, se acontecesse antes, seria ótimo para a campanha de reeleição de Obama, pois a guerra do Afeganistão é anti-popular nos EUA. Mas, até agora, os estrategistas democratas têm demonstrado uma postura publicitária bastante conservadora.

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Embora as chances de uma volta dos "our boys" do Afeganistão somar pontos para Obama sejam muitas, eles temem os pontos perdidos num ataque republicano, chamando Obama de "covarde", "fraco" etc.

É preciso também considerar que, embora improvável, Romney poderá ganhar.

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Luiz Eça é colunista de Política Internacional do CORREIO DA CIDADANIA e publicitário. Seu site de textos é www.olharomundo.com.br

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