Sanções contra a Rússia falham em gerar instabilidade no país
As sanções morderam, mas não fizeram o Kremlin balançar
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Leonardo Sobreira*, de Moscou (247) - O Ocidente tinha alguns objetivos em mente quando decidiu aplicar uma enxurrada de sanções contra a Rússia. O primeiro, mais contido, era estrangular a economia do país de tal forma a forçar o Kremlin a abandonar sua operação militar especial na Ucrânia.
Outra possibilidade talvez pairasse sobre os corredores do Pentágono, Whitehall e Berlaymont: tornar a vida dos russos ordinários e das elites tão difícil que, eventualmente, uma 'mudança de regime', como dizem as águias, se sucedesse.
Nos dois cenários, o Ocidente se encontra, quase dez meses após o primeiro pacote de sanções abrangentes, abanando as mãos. As medidas impactaram a economia russa, mas muito menos do que se esperava. Estimativas apontam para uma contração do PIB de menos de 3%, ante previsões de colapso total no início do conflito. A inflação deve se estabilizar em cerca de 12%, enquanto renda real da população cairá de 2% a 2,5%, menos que na Alemanha e no resto da Europa, onde salários reais podem cair até 2,9% em 2022.
Em diversas métricas, a economia russa vem superando as expectativas. A indústria do país terminará o ano sem recessão e o investimento continuará crescendo, contando com um papel crescente do Estado. O rublo se fortaleceu em relação ao dólar e a parceria ‘sem limites’ com a China abre as portas para novos investimentos, enquanto emerge um sistema financeiro internacional alternativo, que baterá de frente com o SWIFT.
“As sanções mordem”, disse Maxim Suchkov, diretor do Instituto de Estudos Internacionais da Universidade MGIMO. “Mas Putin, assim como Assad e o Aiatolá, não se importam se não há McDonald’s. Sanções sobre a indústria médica são as únicas que realmente surtem efeito. Todo o restante depende da habilidade nacional de mudar cadeias de suprimento. Possuir recursos naturais, como é o caso da Rússia, é uma grande vantagem”.
“O que realmente importa é o aquecimento e a comida. Em uma crise, é isso que importa --e estamos longe de estarmos em uma”, acrescentou o acadêmico, que tem suas opiniões ecoadas em outras esferas sociais.
Nos mercados de Moscou, as prateleiras estão cheias, e come-se bem e barato --resultado dos controles sobre exportações de alimentos básicos. O combustível é abundante e barato, bem como o gás doméstico.
“A comida e o gás são mais baratos na Rússia”, comentou um guia turístico, questionado sobre o efeito das sanções ocidentais no dia-a-dia das famílias russas. “É por isso que as pessoas não saem às ruas para protestar”.
Nas instituições de pesquisa, materiais avançados e componentes aumentaram de preço e não são mais comprados de fornecedores ocidentais. “Mas isso não é um problema", contou um doutorando mexicano da jovem universidade Skoltech.
"Recursos não faltam e, quando precisamos, compramos materiais da China”, acrescentou o jovem, enquanto apresentava uma solução robótica para otimizar o carregamento de carros elétricos. Ao seu lado, outro pesquisador controlava o primeiro “cachorro-robô” desenvolvido totalmente na Rússia.
Caminhando pelas ruas e shoppings de Moscou, não percebe-se que, a apenas mil quilômetros daqui, a operação militar especial continua a todo vapor. A indicação mais clara é a presença constante de policiais e militares pelas ruas e estações de metrô, em constante movimento, sabe-se lá para onde.
*Leonardo Sobreira participa do programa jornalístico InteRussia em conjunto com a SputnikPro, a convite do Fundo Alexander Gorchakov de Diplomacia Pública
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