Reindustrialização, combate à pobreza e BRICS: especialistas apontam áreas de cooperação entre China e futuro governo Lula

Relação entre Brasil e China demonstrou resiliência, superando recentes obstáculos políticos. Segundo especialistas, futuro governo Lula dará novo ímpeto aos laços em vários níveis

Xi Jinping e Lula
Xi Jinping e Lula (Foto: REUTERS/Tingshu Wang | Ricardo Stuckert)


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Leonardo Sobreira, de Pequim (247) - As relações bilaterais entre Brasil e China sofreram um baque nos ultimos quatro anos. Seja pelas declarações incendiárias de governistas culpando a China pela pandemia de Covid-19 ou pelo alinhamento do governo Jair Bolsonaro com setores ultradireitistas nos Estados Unidos, fato é que o chá azedou, ao menos no nível político.

Ao mesmo tempo, os laços econômicos tornaram-se mais estreitos no período. O superávit dos últimos anos na balança comercial brasileira deve-se, em larga parte, à China. O País exporta hoje 60 vezes mais para a China que em 2001. No ano passado, a conta de pagamentos dos chineses chegou a US$ 60,1 bilhões --30% de tudo o que é exportado pelo Brasil. 

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As cifras são ainda mais expressivas no agronegócio. 20% de tudo o que os chineses compram de alimentos vem do Brasil, e 40% das exportações brasileiras do setor vão para a China. 

Nesse contexto, a eleição de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) à Presidência da República promete não somente restaurar laços políticos amistosos, como também elevar as trocas comerciais a um novo nível, prevê Zhou Zhiwei, subdiretor do departamento de Relações Internacionais do Instituto de Estudos Latino-Americanos da Academia Chinesa de Ciências Sociais (ILAS, CASS, na sigla em inglês). 

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“De 2003 até 2010, as relações entre a China e o Brasil foram importantes, com cooperação em vários campos, mas nos últimos quatro anos, durante o governo Bolsonaro, o clima de cooperação entre a China e o Brasil mudou dramaticamente, especificamente no campo das relações políticas”, explicou o professor, discorrendo em um português fluído às margens de uma coletiva de imprensa organizada pelo Centro Internacional de Comunicação e Imprensa da China. 

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Com um novo governo liderado por Lula, acrescentou Zhou, a restauração da cordialidade abre espaço para uma maior coordenação no âmbito geopolítico. “A vitória do Lula significa que, no campo de relações políticas, as relações entre a China e o Brasil vão melhorar bastante. Com isso, os dois países poderiam fazer mais cooperação e coordenação no campo multilateral, como nos mecanismos G20 e BRICS, e também no tema de mudanças climáticas e questões de governança global”, disse. 

Segundo Zhou, a cooperação com o Sul Global deve ser o cerne da atuação geopolítica do Brasil. “O mecanismo do BRICS foi criado durante o governo Lula, em 2003. É um mecanismo importantíssimo para o Brasil aumentar sua participação na governança global. O presidente Lula dá mais atenção a cooperações entre países emergentes. A cooperação Sul-Sul foi uma prioridade na política externa dos governos do PT, não apenas nos governos Lula”, observou. 

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No campo econômico, disse Zhou, as relações comerciais entre os dois países demonstraram resiliência, resistindo às diferenças políticas entre o governo Bolsonaro e o governo chinês. Segundo ele, o ambiente mais amistoso gerado pela eleição de Lula deve não somente manter o ritmo das trocas comerciais atuais, como também fortalecer a reindustrialização do Brasil.

“A cooperação econômica e comercial vai continuar, porque nos últimos 4 anos, mesmo com o governo Bolsonaro, a relação econômica e comercial não foi afetada bastante pelas diferenças políticas. Nos próximos 4 anos, o ritmo de cooperação econômica entre a China e o Brasil vai continuar”, disse. "O Brasil tem uma ampla base para industrialização. A China e o Brasil têm que buscar a complementaridade na industrialização, em particular, podemos fortalecer essa dinâmica na área de tecnologia”, acrescentou. 

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Combate à pobreza

Nesse contexto, a professora Lin Hua, subdiretora do departamento de Culturas Sociais da ILAS, apontou que a China poderia intensificar sua cooperação com países do Sul Global também no nível do combate à pobreza, fenômeno em ascensão em toda a América Latina.

“A África e a Ásia cooperam com a China para reduzir a pobreza. Com a América Latina, a cooperação com a China não é muito forte nesse tema”, disse a pesquisadora. 

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“Com o aumento da pobreza, devemos criar um sistema de mecanismos para compartilhar nossas experiências. Na África e na Ásia, há fóruns desse tipo, que precisam ser reforçados”. 

Segundo Lin, a cooperação internacional no combate à pobreza passa principalmente por fatores econômicos. A geração de empregos e a eficiência social do comércio devem ser sempre considerados, pontuou ela. 

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“Isso passa pela eficiência social do comércio. A China tem que importar mais produtos e mudar a estrutura comercial. Investimentos em infraestrutura, por meio da Iniciativa Cinturão e Rota, podem gerar mais empregos”, disse, observando ainda o potencial de cooperação nas novas fronteiras do desenvolvimento da economia digital. 

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