Reindustrialização, combate à pobreza e BRICS: especialistas apontam áreas de cooperação entre China e futuro governo Lula
Relação entre Brasil e China demonstrou resiliência, superando recentes obstáculos políticos. Segundo especialistas, futuro governo Lula dará novo ímpeto aos laços em vários níveis
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Leonardo Sobreira, de Pequim (247) - As relações bilaterais entre Brasil e China sofreram um baque nos ultimos quatro anos. Seja pelas declarações incendiárias de governistas culpando a China pela pandemia de Covid-19 ou pelo alinhamento do governo Jair Bolsonaro com setores ultradireitistas nos Estados Unidos, fato é que o chá azedou, ao menos no nível político.
Ao mesmo tempo, os laços econômicos tornaram-se mais estreitos no período. O superávit dos últimos anos na balança comercial brasileira deve-se, em larga parte, à China. O País exporta hoje 60 vezes mais para a China que em 2001. No ano passado, a conta de pagamentos dos chineses chegou a US$ 60,1 bilhões --30% de tudo o que é exportado pelo Brasil.
As cifras são ainda mais expressivas no agronegócio. 20% de tudo o que os chineses compram de alimentos vem do Brasil, e 40% das exportações brasileiras do setor vão para a China.
Nesse contexto, a eleição de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) à Presidência da República promete não somente restaurar laços políticos amistosos, como também elevar as trocas comerciais a um novo nível, prevê Zhou Zhiwei, subdiretor do departamento de Relações Internacionais do Instituto de Estudos Latino-Americanos da Academia Chinesa de Ciências Sociais (ILAS, CASS, na sigla em inglês).
“De 2003 até 2010, as relações entre a China e o Brasil foram importantes, com cooperação em vários campos, mas nos últimos quatro anos, durante o governo Bolsonaro, o clima de cooperação entre a China e o Brasil mudou dramaticamente, especificamente no campo das relações políticas”, explicou o professor, discorrendo em um português fluído às margens de uma coletiva de imprensa organizada pelo Centro Internacional de Comunicação e Imprensa da China.
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Com um novo governo liderado por Lula, acrescentou Zhou, a restauração da cordialidade abre espaço para uma maior coordenação no âmbito geopolítico. “A vitória do Lula significa que, no campo de relações políticas, as relações entre a China e o Brasil vão melhorar bastante. Com isso, os dois países poderiam fazer mais cooperação e coordenação no campo multilateral, como nos mecanismos G20 e BRICS, e também no tema de mudanças climáticas e questões de governança global”, disse.
Segundo Zhou, a cooperação com o Sul Global deve ser o cerne da atuação geopolítica do Brasil. “O mecanismo do BRICS foi criado durante o governo Lula, em 2003. É um mecanismo importantíssimo para o Brasil aumentar sua participação na governança global. O presidente Lula dá mais atenção a cooperações entre países emergentes. A cooperação Sul-Sul foi uma prioridade na política externa dos governos do PT, não apenas nos governos Lula”, observou.
No campo econômico, disse Zhou, as relações comerciais entre os dois países demonstraram resiliência, resistindo às diferenças políticas entre o governo Bolsonaro e o governo chinês. Segundo ele, o ambiente mais amistoso gerado pela eleição de Lula deve não somente manter o ritmo das trocas comerciais atuais, como também fortalecer a reindustrialização do Brasil.
“A cooperação econômica e comercial vai continuar, porque nos últimos 4 anos, mesmo com o governo Bolsonaro, a relação econômica e comercial não foi afetada bastante pelas diferenças políticas. Nos próximos 4 anos, o ritmo de cooperação econômica entre a China e o Brasil vai continuar”, disse. "O Brasil tem uma ampla base para industrialização. A China e o Brasil têm que buscar a complementaridade na industrialização, em particular, podemos fortalecer essa dinâmica na área de tecnologia”, acrescentou.
Combate à pobreza
Nesse contexto, a professora Lin Hua, subdiretora do departamento de Culturas Sociais da ILAS, apontou que a China poderia intensificar sua cooperação com países do Sul Global também no nível do combate à pobreza, fenômeno em ascensão em toda a América Latina.
“A África e a Ásia cooperam com a China para reduzir a pobreza. Com a América Latina, a cooperação com a China não é muito forte nesse tema”, disse a pesquisadora.
“Com o aumento da pobreza, devemos criar um sistema de mecanismos para compartilhar nossas experiências. Na África e na Ásia, há fóruns desse tipo, que precisam ser reforçados”.
Segundo Lin, a cooperação internacional no combate à pobreza passa principalmente por fatores econômicos. A geração de empregos e a eficiência social do comércio devem ser sempre considerados, pontuou ela.
“Isso passa pela eficiência social do comércio. A China tem que importar mais produtos e mudar a estrutura comercial. Investimentos em infraestrutura, por meio da Iniciativa Cinturão e Rota, podem gerar mais empregos”, disse, observando ainda o potencial de cooperação nas novas fronteiras do desenvolvimento da economia digital.
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