Qual seria o impacto da adesão de Finlândia e Suécia à Otan?

Eventual entrada das duas nações dobraria a extensão da fronteira terrestre entre os países-membros da aliança e a Rússia

Tanque do Exército norte-americano M1A1 Abrams participa de exercício militar da Otan na Letônia 26/03/2021
Tanque do Exército norte-americano M1A1 Abrams participa de exercício militar da Otan na Letônia 26/03/2021 (Foto: REUTERS/Ints Kalnins)


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DW -  A fronteira terrestre da Otan com a Rússia pode mais que dobrar se a Suécia e, especialmente, a Finlândia efetivamente aderirem à aliança de defesa mútua.

Atualmente, a Organização do Tratado do Atlântico Norte compartilha uma fronteira terrestre de 1.215 quilômetros com a Rússia – formada pelos territórios de Estônia, Lituânia, Letônia, Noruega e Polônia. Se Finlândia se juntar à Otan, a fronteira direta com os russos aumentará para 2.600 quilômetros.

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Em declaração conjunta nesta quinta-feira (12/05), o presidente da Finlândia, Sauli Niinisto, e a primeira-ministra Sanna Marin disseram que a adesão do país fortaleceria toda a aliança de defesa. "A Finlândia deve solicitar a adesão à Otan sem demora. Esperamos que as medidas nacionais ainda necessárias para tomar essa decisão sejam tomadas rapidamente nos próximos dias."

Enquanto isso, a Suécia, que tradicionalmente é mais relutante em aderir à aliança, deve anunciar quais são seus planos ainda nesta semana.

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O que isso significa para a Otan?

Robert Dalsjo, analista da Agência Sueca de Pesquisa de Defesa, ligada ao governo sueco, disse à DW que a adesão dos dois países significaria que a Otan não precisaria mais ter dúvidas sobre como a Suécia e a Finlândia agiriam em uma crise.

"A Otan saberá com certeza qual é a posição da Suécia e da Finlândia, e isso aumentará a segurança e o poder de dissuasão na região do Mar Báltico. Também tornará a defesa dos países bálticos mais fácil para a aliança, porque não haverá mais dúvidas sobre se o espaço aéreo sueco pode ser usado, por exemplo, para enviar tropas ou suprimentos para nações bálticas", diz Dalsjo. "Politicamente, também seria mais um motivo de prestígio."

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Harry Nedelcu, especialista em Otan e Diretor da Rasmussen Global, uma consultoria de política internacional, compartilha avaliação semelhante.

"A primeira mensagem dessas nações que se juntam à Otan é política e direcionada à Rússia. Em segundo lugar, para a Otan isso também é sobre as capacidades genuínas que a Finlândia e a Suécia estariam trazendo para a mesa. Enquanto outros países da Europa diminuíram suas forças militares depois da Guerra Fria, a Finlândia e a Suécia, por outro lado, vêm reforçando sua capacidade militar, o que pode ser um ganho para a aliança", afirma.

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O embaixador da Finlândia junto à Otan, Klaus Korhonen, disse à DW que, embora a Rússia continue sendo um importante vizinho da Finlândia, a confiança na relação foi abalada por causa da guerra de agressão lançada por Moscou contra a Ucrânia.

"A Rússia, de certa forma, mudou o jogo na Europa em relação ao futuro. Então, acho que certamente será uma das tarefas da política externa da Finlândia no futuro também construir com a Rússia, novamente, um relacionamento funcional, baseado em interesses mútuos. Mas resta ver como isso vai acontecer."

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O que motivou a mudança de postura?

Após a desintegração da União Soviética, em 1991, tanto a Finlândia como a Suécia aproximaram-se da União Europeia e se tornaram membros do bloco em 1995. No entanto, ambas as nações continuaram se mantendo militarmente neutras, evitando se juntar à Otan.

A Suécia não faz parte de uma aliança militar há mais de 200 anos e também manteve a neutralidade durante a Segunda Guerra Mundial. A Finlândia, por outro lado, aderiu à neutralidade após ser derrotada pela União Soviética durante a Segunda Guerra.

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Mas a guerra na Ucrânia causou abalos nos dois países e desencadeou novas discussões sobre o futuro de suas políticas de segurança.

"Para os finlandeses, a política externa sempre foi sobre levar em conta que temos uma longa fronteira com a Rússia, uma combinação de realismo e idealismo", disse à DW o ex-primeiro-ministro da Finlândia Alexander Stubb.

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Mas ele destaca como a guerra resultou em uma mudança de postura no país. "Algumas semanas antes do início da guerra, 50% dos finlandeses eram contra a adesão à Otan, e 20% eram a favor. Da noite para o dia isso mudou para 50% a favor e 20% contra." Agora que a Finlândia anunciou sua intenção de aderir à aliança, Stubb avalia que esse apoio chegará a 80%.

Para a Suécia, a possibilidade de ingressar na aliança é também uma mudança de paradigma.

"A Otan nunca viu um potencial candidato menos entusiasmado do que a Suécia, que atualmente é liderada por um governo social-democrata. Eles [suecos] sabem que, se a Finlândia se candidatar, eles também terão que fazer o mesmo, porque, do contrário, a Suécia ficará sozinha fora da Otan e terá que gastar muito mais com defesa", avalia Elisabeth Braw, do think tank American Enterprise Institute (AEI), em entrevista à DW.

O ex-premiê Stubb acrescenta que, diante da mudança de cenário, tanto a Finlândia quanto a Suécia são capazes de tomar decisões rápidas.

"A Finlândia fez isso ao longo de sua história. A Suécia não teve a necessidade de fazer isso. Mas agora, quando eles também enfrentam uma Rússia agressiva, revisionista, imperialista, totalitária e autoritária, eles estão concluindo que a adesão à Otan é o caminho a seguir", diz.

Novos desafios para a Otan?

Os membros da Otan já deixaram claro que a Finlândia e a Suécia seriam "recebidas de braços abertos". Já o secretário-geral da aliança, Jens Stoltenberg, acrescentou que o processo de adesão tende a "ser rápido". A Alemanha também apoia decisões nesse sentido.

No entanto, Dalsjo, da Agência Sueca de Pesquisa de Defesa, disse à DW que o grande desafio para a Otan no momento não seria a absorção da candidatura da Suécia e da Finlândia, mas como lidar com o impacto da guerra na Ucrânia.

"A Otan se apegou a uma noção de que a humanidade havia virado a página [da Guerra Fria] e que a Rússia havia se tornado um parceiro estratégico. Por essa razão, a aliança não construiu uma força robusta no leste. Isso terá que mudar", afirma.

Nedelcu, da Rasmussen Global, avalia que a adesão finlandesa e sueca fortaleceria a presença da Otan na região do Báltico. "A Finlândia e a Suécia já estão entre os parceiros mais fortes e integrados da Otan. A adesão à aliança resultará em uma presença naval mais forte da Otan no mar Báltico."

Reação russa

Moscou, enquanto isso, vem advertindo contra a adesão das duas nações. O porta-voz do Kremlin, Dmitri Peskov, enfatizou que a expansão da Otan para o leste não traria estabilidade à Europa.

No mês passado, o ex-presidente russo Dmitri Medvedev alertou que Moscou fortaleceria sua presença na região do Báltico se a Finlândia e a Suécia se juntassem à Otan.

No entanto, a especialista Elisabeth Braw diz que uma invasão russa da Finlândia ou da Suécia é altamente improvável.

"Ninguém argumentaria seriamente que a Rússia provavelmente invadirá a Suécia ou a Finlândia se eles se aderirem à Otan. A Rússia claramente não tem os recursos. Então agora não seria o momento para a Rússia retaliar militarmente contra a Suécia e/ou a Finlândia", afirma.

"O que a Rússia está fazendo no momento é realizar ataques cibernéticos contra a Finlândia e lançar campanhas publicitárias bobas contra a Suécia, alegando que várias personalidades suecas eram nazistas. Se isso é o melhor que eles conseguem fazer, acho então que este é um bom momento para se juntar à Otan."

Já Nedelcu avalia ser provável que a Rússia tome atitudes contra os dois países durante o período intermediário do processo de ratificação para a adesão à aliança. Dessa forma, países aliados da Suécia e da Finlândia poderiam deslocar algumas forças militares para o Mar Báltico como forma de enviar uma mensagem política ao Kremlin.

Na quarta-feira, o Reino Unido assinou um acordo para apoiar a Suécia caso a nação escandinava seja atacada. Espera-se que outros países ocidentais sigam o exemplo com acordos semelhantes com Estocolmo e a Finlândia.

Braw reitera que, independentemente do apoio que um país possa receber do Reino Unido e dos Estados Unidos, tornar-se membro da Otan representaria uma posição formidável contra eventuais ameaças russas.

"Quando esta guerra acabar, a Rússia lamberá suas feridas e avaliará: 'Bem, tivemos nosso momento Vietnã. Fomos muito mal e nos colocamos numa situação embaraçosa. Este é o momento de reformar nossas forças armadas.' E eles devem fazer isso. Talvez não o façam tão radicalmente como os Estados Unidos após a Guerra do Vietnã, mas eles vão emergir muito melhores do que estão agora", avalia Braw.

"A partir desse ponto, a Suécia, a Finlândia e outros países da região realmente teriam que se preocupar com uma possível agressão russa. Este então seria um bom momento para ser membro da Otan."

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