Patricia San Martín, que fugiu de Pinochet, morre no ataque de Paris
Uma das vítimas do ataque terrorista à casa de shows Bataclan, em Paris, foi a a chilena há décadas residente na França, Patricia San Martín Núñez; ela chegou à França em meados dos anos 1970, em companhia de seus pais, militantes do Partido Comunista do Chile, duramente perseguidos pela ditadura Pinochet; "Patricia exilou-se para fugir da ditadura de extrema-direita de Pinochet e vem a morrer assassinada por fanátidcos religiosos!”, indignou-se Baptiste Talbot, secretário-geral da federação sindical CGT dos Serviços Públicos e amigo da chilena fazia 20 anos; “Ela era passionária e convincente, é uma página de quase vinte anos que se vira, muito difícil de acreditar neste desfecho!”, diz; confira relato completo de Frederico Füllgraf, especial para o 247
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Frederico Füllgraf
De Santiago do Chile, Especial para o 247 – com informações da imprensa internacional.
Na sexta-feira, 13, a chilena há decadas residente na França, Patricia San Martín Núñez, acompanhou sua filha, Elsa Veronique Delplace, seu neto de cinco anos e uma amiga ao show da banda de rock norte-americana, Eagles of Death Metal, à sala Le Bataclan, situada no Boulevard Voltaire, no XI. arrondissement (vila) da capital francesa.
O show, com rock metálico, pancada, durava uns trinta minutos, quando, por volta das 21:40 um Volkswagen Polo, com placa da Bélgica, estacionou diante da casa de espetáculos.
Três dias depois, ninguém sabe explicar como seus ocupantes fortemente armados tiveram acesso à casa e sua plateia, onde se concentravam aproximadamente 1.500 pessoas, entre elas muitos estrangeiros de passagem por Paris.
Subitamente, rajadas de armas automáticas cortaram o som da banda e entraram em cena quatro homens vestidos de negro, com armas em punho, gritando "Allah Akbar" - “Deus é grande!”.
E apontando suas armas ao público, abriram fogo e descarregaram-nas.
Na plateia, os atingidos caíam fulminados, uns sobre os outros, como pedras de dominó.
Atônitos, em cima do palco, os integrantes da Eagles of Death Metal jogaram seus instrumentos para o lado e fugiram pelos cantos do palco.
Corpos ensanguentados, gritos, pânico, terror.
Como se não bastasse, os jihadistas estabeleceram um cerco, tomando mais de uma centena de espectadores como reféns.
O cerco, a execução, tiro a tiro, de vários reféns, duraria longas três horas, para a maioria dos sobreviventes as três horas mais angustiantes de suas vidas.
Algumas pessoas conseguem escapar, saltam do segundo andar para a calçada.
Os tiros, as execuções continuam.
Um repórter do Le Monde, que vive a poucos metros do Bataclan, filma com seu celular a debandada de sobreviventes. Grita “O que está acontecendo?”, mas ninguém pára na rua.
O celular registra o pipocar de tiros e duas fortes explosões.
Os meios de comunicação disparam noticias desencontradas, o pânico é geral, pois Paris está sendo atacada simultaneamente em seis lugares diferentes. Nunca se viu uma operação de terror tão bem concatenada.
Sómente às 00:33 o Bataclan é tomado pelo GIGN-Grupo de Intervenção da Gendarmeria Nacional.
Não há negociador, os homens do GIGN entram atirando, o pânico se intensifica em meio às rajadas de lado a lado.
Dois jihadistas acionam seu cinturão explosivo e auto-detonam-se, matando mais gente. Dois outros terroristas são abatidos.
“Os corpos estavam por todos os lados, empilhados uns sobre os outros, desfigurados por tiros de Kalashnikovs!”, recorda, em estado de choque, um policial ouvido pelo canal de TV La 1ére, que por motivos de segurança se identifica apenas pelo primeiro nome, David. “Havia um forte odor a sangue, misturado com cheiro de pólvora. É indescritível. O horror é indescritível!”, balbucia o policial.
Cerca de 1:00 da manhã a operação de resgate no Bataclan estava terminada. Contavam-s mais de 80 mortos, que na recontagem, sobretudo com a morte dos gravemente feridos, subiram para mais de 100.
Três chilenos fuzilados, um quarto sobrevive como refém
Na rua, em frente ao Bataclan, um garotinho deambula de um lado a outro da calçada. Está sozinho, em seu rosto a estampa do horror.
Abordado, diz que se chama Louis e que conseguiu fugir durante o tiroteio. E o autor dessa crônica de fragmentos intui que sua avó e mãe, certas de que dificilmente escapariam, devem tê-lo induzido a esgueirar-se no meio das pernas dos adultos, tropeçando em cadáveres, derrapando em poças de sangue, até alcançar uma saída.
Então Louis conta que sua avó, Patricia San Martín Núñez, e sua mãe, Elsa Veronique Delplace, ainda estão la dentro do Bataclan.
Até a tarde do dia seguinte, sábado, a avó e a mãe estavam desaparecidas. Foram encontradas, abatidas a tiros, entre os cadáveres espalhados.
Um terceiro chileno, o músico Luis Felipe Zschoche Valle - 35 anos, radicado em Paris – também é identificado entre as dezenas de mortos.
Um quarto chileno, David Fritz, teve mais sorte: feito refém, segundo suas próprias palavras só sobreviveu “porque eles não tiveram tempo de executar-me, pois a polícia chegou - “Isso foi como em um filme!”.
Patricia, a sindicalista exilada
“Patricia exilou-se para fugir da ditadura de extrema-direita de Pinochet e vem a morrer assassinada por fanáticos religiosos!”, indignou-se Baptiste Talbot, secretário-geral da federação sindical CGT dos Serviços Públicos e amigo da chilena fazia 20 anos.
Nascida em 1954 e sobrinha de Ricardo Núñez, atual embaixador do Chile no México, Patricia San Martín Núñez chegou à França em meados dos anos 1970, em companhia de seus pais, militantes do Partido Comunista do Chile, duramente perseguidos pela ditadura Pinochet. Na França, sua familia se estableceu em Fontenay sous Bois, na periferia de Paris.
Bibliotecária por formação, Patricia tornou-se funcionária pública do município de Sevran, e delegada da CGT para negociações salariais, muito elogiada por colegas e o prefeito Stéphane Gatignon.
“Ela era passionária e convincente, é uma página de quase vinte anos que se vira, muito difícil de acreditar neste desfecho!”, suspira Baptiste Talbot.
Nos estertores da ditadura Pinochet, final da década de 1980, seus pais retornaram ao Chile e Patricia fue a única de sua familia que decidiu permanecer na França, onde se casaria com um francês, constituindo sua própria família, da que era fruto sua filha, Elsa Veronique, de 34 anos, também casada com um francês de sobrenome Delplace.
Ainda não se sabe se os corpos de Patricia e sua filha Elsa serão transladados ao Chile, como desejam seus familiares.
Na localidade francesa de Sevran faz-se luto oficial nesta semana.
Luto por uma cidadã e resistente chilena alegremente acolhida por um país europeu, onde encontrara seu amor e ao qual decidira dedicar sua generosidade de militante sindical.
Balas estúpidas, terrorismo psicopata.
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