"Os europeus não querem ficar para trás", diz analista sobre possível cúpula entre UE e Rússia

O presidente francês, Emmanuel Macron, e a chanceler alemã, Angela Merkel, devem propor a realização de uma cúpula UE-Rússia, que seria a primeira desde 2014

Bandeiras da União Europeia na sede da Comissão Europeia em Bruxelas, na Bélgica 06/03/2019
Bandeiras da União Europeia na sede da Comissão Europeia em Bruxelas, na Bélgica 06/03/2019 (Foto: REUTERS/Yves Herman)


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Sputnik - Nesta quinta-feira (24), 27 líderes de países-membros da União Europeia (UE) começaram o primeiro dia de uma cúpula na qual abordam vários assuntos, como as relações com Rússia e Turquia, o contexto europeu pós-pandemia e questões migratórias.

O encontro, que acontece em Bruxelas, na Bélgica, começou com um diálogo entre o secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, anunciado no Twitter do presidente do Conselho Europeu, Charles Michel.

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Para saber mais a fundo sobre os objetivos gerais do encontro, como será discutida a questão entre a União Europeia e a Turquia e a proposta apresentada para uma cúpula UE-Rússia, a Sputnik Brasil conversou com o professor e doutor Demétrio Cesário, coordenador do núcleo de Relações Internacionais da ESPM, em São Paulo.

A Cúpula e os temas do encontro

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Cesário conta que a Cúpula da UE é um órgão administrado pelo Conselho Europeu dentro da própria União Europeia, que em 2009 ganhou um presidente específico, representado pelo ex-primeiro-ministro da Bélgica, Charles Michel. Os encontros da cúpula são bastante regulares e envolvem os 27 líderes do bloco.

Segundo o professor, as expectativas em torno dessas reuniões são sempre grandes, pois além de reunirem os representantes máximos dos países sabe-se que o Conselho Europeu é o grande centro impulsor de decisões políticas do bloco.

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Sobre os temas abordados, Cesário acredita que estará no topo da agenda questões relacionadas à pandemia, visando uma perspectiva de abertura dos países para geração de receita através do turismo, assim como discussões acerca do passaporte europeu de vacinação.

Porém, o professor pontua que essa circulação de pessoas pode se normalizar mais internamente, entre os países europeus, e possivelmente não abrangerá o Brasil, a Índia e outros países que não estão com a pandemia controlada.

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A recuperação econômica do bloco pós-pandemia também será um tema abordado. Questões de imigração e as relações com a Rússia e a Turquia também estarão na agenda, de acordo com o professor.

Entretanto, Cesário diz que gostaria de ver como pauta da cúpula o acordo Mercosul-União Europeia, assunto que interessaria muito aos brasileiros.

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Portugal, que está atualmente na presidência do Conselho da União Europeia (órgão abaixo do Conselho Europeu) tem enorme interesse para que esse acordo se ratifique, e o professor gostaria que o país exercesse sua influência para finalmente concluir o pacto.

Questão migratória

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Cesário explica que a questão migratória é um assunto sensível para Europa, e que o bloco vem paulatinamente tentando equilibrar a questão, encontrando como solução barrar a migração oriunda de países fora da do continente, liberando com maior fluidez apenas o trânsito de pessoas com passaporte europeu.

"A maioria dos migrantes vem do Leste Europeu em direção aos países do oeste. E tem as fronteiras externas da UE, reguladas pela Frontex [Agência Europeia de Gestão da Cooperação Operacional nas Fronteiras Externas], que devem cuidar bastante da questão do Mediterrâneo, especialmente em relação [as pessoas que vêm] da Itália, da Líbia, onde naufragam muitos barcos, do Norte da África e especialmente da fronteira entre a Grécia e a Turquia", contou o professor.

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Ele enfatiza que nessas áreas existe um controle maior e que possivelmente essas regiões podem ser abordadas no encontro.

Turquia e UE

Conforme citado anteriormente, a Turquia também será uma pauta da cúpula. Mas por que Ancara recebe tanta atenção do bloco europeu?

Cesário explica que o país tem uma relevância nos assuntos da UE por uma parte territorial do mesmo ser dentro da Europa, e pelo fato da Turquia ser "uma eterna candidata" a entrar no bloco, já que tenta fazer parte da União Europeia desde 1987.

As imigrações provenientes de Ancara também são uma questão para a UE, pois há uma comunidade turca muito forte na Europa, especialmente na Alemanha. Além disso, há entraves com a Grécia e com o Chipre, segundo o especialista.

De acordo com o professor, as relações entre a Turquia e o bloco acontecem "entre idas e vindas instáveis" por conta de todas essas questões, e que por isso, há uma baixa probabilidade de Ancara entrar para o quadro de países-membros da UE.

Cúpula União Europeia e Rússia

Durante o encontro, o presidente francês, Emmanuel Macron, e a chanceler alemã, Angela Merkel, devem propor a realização de uma cúpula UE-Rússia, que seria a primeira desde 2014.

Antes de entendermos os objetivos da proposta e se a mesma teria sucesso, é importante destacar a importância desses dois países no bloco, os quais, segundo o especialista, exercem profunda influência nas tomadas de decisões da união.

Para Cesário, França e Alemanha sempre foram os motores da integração europeia desde o princípio da comunidade, sendo os líderes desse processo de união entre os países e até hoje continuam a dominar o bloco. Com a saída do Reino Unido por conta do Brexit, o terceiro país com maior influência seria a Itália.

A partir do momento que a proposta para uma cúpula entre Rússia e União Europeia origina dessas duas nações, existe uma grande chance da ideia prosperar pois "em geral, os países acabam aderindo as propostas desses dois países", explicou o analista.

Entretanto, mesmo com essa robusta influência, Cesário acredita que pode haver uma forte resistência por parte de outros países, principalmente os do Leste Europeu, especialmente a Polônia, e os países bálticos, Estônia, Letônia e Lituânia.

"Esses países que fizeram parte da União Soviética, e que tiveram sua independência em 1991, têm uma oposição muito forte em relação à Rússia, além do receio de que essa dominação também possa voltar."

O professor também enfatiza como forte oposição a Polônia, onde foi assinado o Pacto de Varsóvia, pois os poloneses "não têm uma lembrança muito boa da época da União Soviética".

O país é o mais forte do Leste Europeu, que pode se opor a essa cúpula, pois grande parte das votações e a própria composição do Parlamento Europeu é baseada na população, e a Polônia é o país mais populoso da região.

Ao mesmo tempo, na interpretação do especialista, essa cúpula entre União Europeia e Rússia seria muito importante. Em primeiro lugar porque Moscou é vizinha da Europa e há uma parceria estratégica, ou seja, existem relações próximas, assim como há relações delicadas, como a questão da Ucrânia e da Belarus.

"Após a anexação da Crimeia por parte da Rússia, a União Europeia emitiu sanções contra Moscou, e uma cúpula poderia tratar do cancelamento dessas sanções", explicou Cesário.

Contudo, o especialista diz que após o encontro de Biden com Putin, os europeus ficaram "sentidos" com essa reunião, e "não querem ficar para trás, já que eles têm relações muito mais próximas tanto comerciais como territoriais com a Rússia", completou.

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