O destempero na terra dos faraós
A nova Constituição do Egito teve aprovação de 63% dos votantes no referendo nacional. Porém, o preocupante foi a taxa de abstenção: 70%
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Após a tradicional ausência de Natal, volto ao nosso planeta, que está com um noticiário cada vez mais sonolento nesta época do ano.
Escolhi como tema mais importante a votação da Constituição no Egito. Os últimos dados oficiais indicaram que a nova Carta Magna do país teve aprovação de 63% dos votantes no referendo nacional. Porém, o preocupante foi a taxa de abstenção: 70%.
Teoricamente, quem saiu vitorioso do processo foi a Irmandade Muçulmana (IM), do contestado presidente Mohamed Morsi. O grupo islâmico conseguiu o que queria, mas não da maneira planejada.
Após as décadas do faraó Mubarak, a ideia da IM era ter um retorno triunfal à política egípcia. Não foi isso que aconteceu.
Morsi venceu com muita dificuldade um ex-membro do alto escalão do governo de Hosni Mubarak nas eleições presidenciais de junho.
Depois, em novembro, ficou em alta ao mediar com sucesso a trégua entre Israel e Hamas. Dias depois, sentiu "saudades" do jeito Mubarak de governar e concedeu a si e a pessoas da IM superpoderes. Pegou muito mal.
A Praça Tahrir novamente foi o centro dos protestos no país. Oposicionistas seculares protestaram ferozmente contra as "novas práticas" do governo, que respondeu com mais violência policial. Dezenas de pessoas morreram.
Mohamed Morsi também comprou brigas com o Judiciário. Primeiro, declarou que o poder não poderia dissolver a Assembleia Constituinte, formada majoritariamente por islamistas. Depois, demitiu o procurador-geral Abdel Maguid e nomeou o "amigável" Ibrahim Talaat, para a ira dos juízes. Sentindo a pressão, Talaat pediu para sair, mas voltou atrás, para piorar ainda mais os ânimos entre Executivo e Judiciário.
Com tudo isso, vários magistrados influentes fizeram campanha pelo boicote ao referendo. O presidente também percebeu que a situação poderia sair do controle e cedeu em alguns pontos. Assim, parte dos "juízes rebeldes" resolveu ajudar na votação. Entretanto, em muitas seções, votantes disseram que não havia nenhum supervisor do judiciário acompanhando as votações.
Hamdi Yassim, chefe dos magistrados do Conselho de Estado, falou que só participaria do trabalho caso os simpatizantes de Morsi encerrassem o bloqueio ao redor da Suprema Corte Constitucional, no Cairo. Parece que não foi atendido. Houve relatos de que o presidente do órgão foi impedido de entrar nos escritórios do complexo.
O destempero no Egito entre Executivo e Judiciário só deixa ainda mais incerto o futuro da terra dos faraós.
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