Ministro deixa Suprema Corte dos Estados Unidos em situação embaraçosa

Nenhuma palavra sobre a denúncia de que o ministro Clarence Thomas fez viagens de luxo pelo mundo, por mais de duas décadas, bancadas por um bilionário republicano

Clarence Thomas em 7 de outubro de 2022
Clarence Thomas em 7 de outubro de 2022 (Foto: Evelyn Hockstein/Reuters)


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João Ozorio de Melo, Conjur - A Suprema Corte dos Estados Unidos está observando em silêncio. Nenhuma palavra sobre a denúncia de que o ministro Clarence Thomas fez viagens de luxo pelo mundo, por mais de duas décadas, bancadas por um bilionário republicano, sem nunca incluir tais presentes em suas declarações financeiras — apesar da enorme repercussão do caso.

 A acusação foi feita na quinta-feira (6/4) pela ProPublica, uma agência jornalística sem fins lucrativos que investiga abusos de poder. No dia seguinte, o ministro se defendeu em uma declaração à imprensa. Basicamente, disse que seguiu os conselhos dos colegas, quando chegou à corte, e prometeu declarar tais presentes no futuro, diante de novas diretrizes aprovadas no mês passado.

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 Um dos destaques da acusação foi uma viagem de nove dias que Thomas e sua mulher, Virgínia, fizeram à Indonésia em 2019 — como todas as outras, às expensas do "magnata do setor imobiliário" Harlan Crow. O casal viajou em jato particular, um Bombardier Global 5000, e passeou por um arquipélago vulcânico em um iate de 162 pés (quase 50 metros), com serviço de bordo e um chefe particular — ambos de Crow.

 Se Thomas tivesse de pagar por essa mordomia, o custo total excederia US$ 500 mil — fora a hospedagem, segundo a ProPublica. Em comparação, o salário de um ministro da Suprema Corte é de US$ 285 mil por ano. Ou seja, só essa viagem custaria quase o dobro do salário anual do magistrado.

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 Há mais de duas décadas, Thomas viaja de férias, quase todos os anos, para outra propriedade de Crow, o resort Camp Topridge, que fica nas montanhas de Adirondacks, no norte do estado de Nova York.

 A casa na propriedade de 105 acres tem, entre outras comodidades, uma cascata artificial e um grande saguão com uma pintura de Thomas e Crow. A diária mais baixa de um hotel nas proximidades é de US$ 2.250. A região atrai bilionários de todo o mundo.

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 Thomas também frequenta o espaçoso rancho de Crow no Texas e já viajou com ele para Bohemian Grove, um refúgio exclusivo, só para homens, na Califórnia.

 As regras em discussão

 A quantidade e a frequência de presentes recebidos por Thomas não têm precedentes na história moderna da Suprema Corte, diz a ProPublica.

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 O fato de o ministro não os ter relatado em suas declarações financeiras pode ser uma violação de uma lei aprovada após Watergate, que requer dos ministros, juízes, membros do Congresso e autoridades federais a divulgação da maioria dos presentes recebidos.

 Os parlamentares, por exemplo, são geralmente proibidos de receber presentes que custem mais de US$ 50, a não ser que obtenham uma pré-aprovação do Comitê de Ética da Casa.

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 Os juízes federais ocupam uma posição única na confiança do público. Eles têm mandato vitalício, um privilégio concedido para isolá-los das pressões e de possível corrupção política, segundo a ProPublica. O código de conduta dos juízes de primeiro e segundo graus requer que evitem até mesmo a "aparência de improbidade".

 Em sua nota, o ministro Clarence Thomas declarou: "Quando cheguei à corte, meus colegas e outros membros do Judiciário me explicaram que esse tipo de hospitalidade pessoal, a convite de amigos pessoais próximos que não têm processos tramitando na Suprema Corte, não precisa ser declarado. Sempre procurei cumprir as diretrizes de divulgação financeira".

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 Os ministros da Suprema Corte devem fazer divulgações financeiras anualmente. No mês passado, o comitê da Conferência Judicial (o órgão que dita as políticas para o Judiciário federal) adotou novas exigências, mais estritas, para a divulgação de presentes recebidos pelos juízes.

 A nova norma esclareceu que "hospitalidade pessoal" não se aplica a presentes relacionados a propriedades comerciais. Só se aplica a certos presentes de alguém que mantém uma relação pessoal com o ministro, em um contexto que não envolva sua ocupação.

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 "Diante da mudança das regras, no mês passado, é minha intenção seguir essas diretrizes no futuro", disse Thomas em sua nota.

 A proibição de hospitalidade em propriedades comerciais é um problema para as viagens de Thomas a Camp Topridge, que pertence a Crow. É, portanto, uma "propriedade comercial".

 Crow também divulgou uma declaração, em que afirma que ele e sua mulher "nunca tentaram influenciar o ministro em qualquer caso perante a corte. E não tinha notícias de que qualquer outro de seus convidados tenha procurado influenciar o ministro em qualquer processo. Sempre foram reuniões de amigos".

 A missão do bilionário

 Crow pode não tentar influenciar o ministro em processos tramitando na Justiça, embora, vez ou outra, a Suprema Corte decida casos de interesse do setor imobiliário.

 A missão à qual o bilionário se entrega fervorosamente é mais ampla: apoiar os esforços ideológicos para moldar a lei e o Judiciário, dar suporte às causas conservadoras, fortalecer a direita (ele teria pavor do marxismo) e ajudar o Partido Republicano e a política conservadora pró-empresas.

 As "reuniões de amigos" sempre incluíram executivos corporativos, ativistas políticos e grandes doadores do Partido Republicano. No quadro pendurado em Camp Topridge, em que Thomas e Crow fumam charutos, também está Leonard Leo, líder da Federalist Society e considerado o arquiteto da virada definitiva da Suprema Corte para a direita, durante o governo Trump.

 Tido como "megadoador" republicano, nos últimos anos ele doou mais de US$ 10 milhões em contribuições publicamente divulgadas ao partido. E também destinou verbas milionárias a organizações que mantêm os nomes dos doadores secretos e manipulam uma espécie de caixa dois. "Eu não divulgo o que não sou obrigado a divulgar", ele disse uma vez ao Times.

 Crow também doou meio milhão de dólares a uma organização filiada ao grupo ultraconservador Tea Party, fundada pela mulher do ministro, Ginny Thomas. E pagou a ela um salário de US$ 120 mil.

 Repercussão da denúncia

 A denúncia da ProPublica teve uma enorme repercussão na comunidade jurídica dos EUA, especialmente entre juízes, e entre os políticos do Partido Democrata. Os políticos republicanos defenderam Thomas ou preferiram não se pronunciar.

 Políticos democratas sugeriram que Thomas deveria renunciar ou que deveria sofrer impeachment, o que não vai acontecer porque a maioria da Câmara dos Deputados é republicana. E o ministro certamente não pretende renunciar, pelo que se lê em sua declaração à imprensa.

 No entanto, um projeto de lei que propõe obrigar a Suprema Corte a adotar um código de ética rigoroso, que já tramita no Congresso, poderá ganhar alguma tração.

 Alguns juízes e advogados criticaram o ministro. Entre eles, a juíza aposentada Nancy Gertner, que disse à ProPublica: "É incompreensível que um juiz faça uma coisa dessa. Quando eu estava na ativa, sequer mencionava meu cargo ao tentar fazer uma reserva em um restaurante. É uma questão de não querer usar seu cargo para qualquer outra coisa que não seja parte de sua função".

 A ex-advogada de ética governamental Virginia Canter, que serviu governos dos dois partidos, disse à publicação que Thomas parece ter desprezado suas altas obrigações éticas. "Quando o estilo de vida de um ministro é subsidiado por ricos e famosos, isso definitivamente corrói a confiança do público."

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