Macron: coronavírus é 'evento existencial para a humanidade' e transformará o capitalismo
Em entrevista ao Financial Times, o presidente francês Emmanuel Macron afirmou que a crise do coronavírus vai mudar as relações mundiais. Ele ressaltou a necessidade da liderança dos países mais ricos para salvar a União Europeia e da luta contra mudanças climáticas no pós-pandemia
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247 - O presidente da França, Emmanuel Macron, concedeu entrevista ao Financial Times onde expõe sua preocupação com a pandemia do coronavírus, que já infectou mais de 2 milhões e matou mais de 140 mil pessoas no mundo - deixando também um profundo estrago na economia mundial, que ainda pode se aprofundar.
Diante disso, o francês ressaltou de forma pessimista, a necessidade “de inventar algo novo, porque é tudo o que podemos fazer”. O Financial Times informa que Macron defende “que a UE lance um fundo de investimento de emergência” bilionário para ajudar a Itália e a Espanha (os países mais afetados pelo coronavírus na Europa). Também o presidente francês é defensor de uma “moratória imediata sobre pagamentos de dívidas bilaterais e multilaterais” para o continente africano.
“Não sei se estamos no início ou no meio desta crise – ninguém sabe”, afirmou. “Há muita incerteza e isso deve nos tornar muito humildes”. Para ele, a crise é um “evento existencial para a humanidade” que vai mudar a natureza da globalização e a estrutura do capitalismo, pois diante da situação, os governos estão precisando “priorizar a vida humana em detrimento do crescimento econômico” - o que ele vê como uma abertura para enfrentar os desastres ambientais e as desigualdades sociais. Ele, entretanto, vê outro cenário possível. O presidente francês coloca o fechamento de fronteiras, a ruptura econômica e a perda de confiança na democracia como um fator que pode fortalecer os autoritários e populistas, que buscam explorar a crise.
Ele considera a atual crise um “choque antropológico profundo”, pois “paramos metade do planeta para salvar vidas, não há precedentes para isso em nossa história”.
“Isso mudará a natureza da globalização, com a qual vivemos nos últimos 40 anos… Tivemos a impressão de que não havia mais fronteiras. Era tudo uma circulação e acumulação cada vez mais rápidas”, afirma. “Houve sucessos reais. Nos livramos dos totalitários, houve a queda do Muro de Berlim há 30 anos e, com altos e baixos, tiramos centenas de milhões de pessoas da pobreza. Mas particularmente nos últimos anos, aumentaram as desigualdades nos países desenvolvidos. E ficou claro que esse tipo de globalização estava chegando ao fim de seu ciclo, estava minando a democracia”.
O FT informou que Macron se irritou quando perguntado se a crise do coronavírus não comprovou a fraqueza das chamadas democracias ocidentais em relação à China, afirmando não haver comparação entre países onde a informação flui livremente e os cidadãos podem criticar seus governos e aqueles onde a verdade foi suprimida.
Macron se irrita quando perguntado se os esforços erráticos para conter a pandemia de Covid-19 não haviam exposto as fraquezas das democracias ocidentais e destacou as vantagens de governos autoritários como a China. “Dadas essas diferenças, as escolhas feitas e o que a China é hoje, que eu respeito, não sejamos tão ingênuos a ponto de dizer que foi muito melhor lidar com isso. “Nós não sabemos. Claramente, aconteceram coisas que não sabemos”, disse.
“Alguns países estão fazendo essa escolha na Europa [de abandonar a democracia”, diz. “Nós não podemos aceitar isso. Você não pode abandonar seu DNA fundamental, alegando que há uma crise de saúde”.
Ele também disse que tanto a União Europeia, quanto o euro estão ameaçados, se não houver a liderança solidária de países mais ricos, como a Alemanha e a Holanda. Para ele, isso pode estimular o crescimento do populismo no continente.
Parafraseando os populistas, Macron disse que as pessoas dirão: “Quando os imigrantes chegam ao seu país, eles dizem para você ficar com eles. Quando você tem uma epidemia, eles dizem para você lidar com isso. Oh, eles são muito legais. Eles são a favor da Europa quando isso significa exportar para você os produtos que produzem. Eles são para a Europa quando isso significa que seu trabalho é realizado e produz as peças do carro que não fabricamos mais em casa. Mas eles não são para a Europa quando isso significa compartilhar o fardo’”. Por isso, a responsabilidade dos mais ricos de unificar a Europa e encontrar uma solução.
“Estamos em um momento de verdade, que é decidir se a União Europeia é um projeto político ou apenas um projeto de mercado. Eu acho que é um projeto político… Precisamos de transferências financeiras e solidariedade, para que a Europa continue firme”, diz.
Ele reforça também a necessidade de lutar contra as mudanças climáticas: “Quando sairmos dessa crise, as pessoas não aceitarão mais respirar o ar sujo”, diz. “As pessoas dirão… ‘Eu não concordo com as escolhas das sociedades onde respirarei esse ar, onde meu bebê terá bronquite por causa disso. E lembre-se de que você parou tudo por essa coisa do Covid, mas agora você quer me fazer respirar ar ruim!’”
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