Maconha protege contra o coronavírus?

Cientistas canadenses supõem que variedades medicinais da Cannabis sativa bloqueiem a penetração do Sars-cov-2. Resultados partem de pesquisas sobre tratamento de câncer e artrite, e necessitam validação independente

(Foto: Paulo Emílio)


✅ Receba as notícias do Brasil 247 e da TV 247 no canal do Brasil 247 e na comunidade 247 no WhatsApp.

247 com DW - Na busca por uma vacina ou medicamento contra o novo coronavírus, os cientistas trilham tanto os caminhos tradicionais quanto outros menos ortodoxos.

Eles já se ocuparam de candidatos existentes, como o Remdesivir, originalmente desenvolvido para o tratamento do ebola. Na Alemanha, transcorrem os primeiros testes clínicos de uma vacina da covid-19, usando um produto criado para a imunologia do câncer. Um estudo francês indica que a nicotina – o alcaloide inalado durante a distração, frequentemente letal, do fumo – talvez proteja contra o novo vírus.

continua após o anúncio

E agora parte do Canadá a informação de que determinados princípios ativos da maconha também podem ter um efeito análogo ao da nicotina, elevando a proteção das células contra o coronavírus. No entanto o estudo ainda não foi submetido a avaliação independente por outros pesquisadores (peer review), que constitui uma espécie de selo de qualidade nos meios científicos.

Segundo revelou à DW Igor Kovalchuck, professor de ciências biológicas da Universidade de Lethbridge, os resultados relativos à covid-19 se originam em pesquisas sobre a artrite, Morbus Crohn, câncer e outras enfermidades. Em artigo no site Preprints.org, ele e sua equipe sugerem que alguns componentes químicos da uma variedade especialmente desenvolvida de cânabis reduziriam a capacidade do vírus de chegar até as células pulmonares, onde se instala, reproduz e propaga.

continua após o anúncio

Para ocupar uma célula hospedeira humana, o Sars-cov-2 necessita um receptor, a enzima conversora da angiotensina 2 (ECA2), que se encontra no tecido pulmonar, na mucosa bucal e nasal, nos rins, testículos e trato digestivo. Sem essa enzima, o patógeno não tem como penetrar.

A teoria de Kovalchuck é que canabinoides modificariam os níveis de ECA2 nesses "portais", tornando o hospedeiro humano menos vulnerável ao vírus e essencialmente reduzindo o risco de infecção.

continua após o anúncio

Diversos médicos indicam a cânabis medicinal para o tratamento de afecções que vão da náusea à demência. No entanto, ela é diferente da erva utilizada como droga recreativa, a qual se destaca pela alta concentração de tetra-hidrocanabinol (THC), seu principal princípio psicoativo.

Em contrapartida, os pesquisadores canadenses se concentraram em cepas da espécie Cannabis sativa com um alto teor de canabidiol (CBD), um canabinoide anti-inflamatório. Eles cultivaram mais de 800 dessas variantes da maconha, identificando 13 extratos que seriam capazes de modular as taxas da ECA2.

continua após o anúncio

"Nossas variedades têm uma alta taxa de CDB ou uma taxa equilibrada de CBD/THC, para que se possa ministrar uma dose mais alta sem que os pacientes sejam afetados pelas propriedades psicoativas do THC", explica Kovalchuck.

Ele dirige a firma Inplanta juntamente com Darryl Hudson, formado pela Universidade de Guelph, em Ontário, onde também se pesquisa o emprego de canabinoides na medicina. Porém "ainda é difícil" obter financiamento para esse tipo de pesquisa, comenta Kovalchuck, e não só no Canadá.

continua após o anúncio

Segundo cientistas do Reino Unido, tanto a opinião pública quanto a política têm uma visão equivocada da cânabis medicinal. Além disso, os médicos temem que os cidadãos se tornem dependentes ou tentem se automedicar, utilizando qualquer variedade da erva que tenham a à disposição.

"Diante da volatilidade sociopolítica do consumo medicinal de cânabis, os pesquisadores têm que ser especialmente cuidadosos com a divulgação de seus resultados", alerta Chris Albertyn, diretor do setor de pesquisas do King's College London e especialista em canabinoides e demência.

continua após o anúncio

Certo está que sem financiamento suficiente e aprofundamento das pesquisas, não haverá o conhecimento necessário sobre os canabinoides, adverte Kovalchuck. Mas "pelo menos agora há um interesse difundido", e ele está seguro que está ocorrendo uma mudança de postura.

Embora admitindo que mesmo seus extratos de cânabis mais potentes necessitam de validação científica abrangente, Kovalchuck e seus coautores asseguram que o canabidiol pode ser um "complemento seguro" no tratamento da covid-19 – paralelamente a outros métodos, frisam os cientistas.

continua após o anúncio

Assim, até uma avaliação conclusiva, a maconha medicinal poderá desenvolver-se como um "tratamento preventivo de fácil aplicação", análogo, por exemplo, aos antissépticos bucais no uso clínico ou doméstico.

iBest: 247 é o melhor canal de política do Brasil no voto popular

Assine o 247, apoie por Pix, inscreva-se na TV 247, no canal Cortes 247 e assista:

Comentários

Os comentários aqui postados expressam a opinião dos seus autores, responsáveis por seu teor, e não do 247

continua após o anúncio

Ao vivo na TV 247

Cortes 247