James Green: com Bolsonaro, o Brasil ficará 50 anos atrasado
Historiador e professor da Brown University, o brasilianista James Green avalia que "o Brasil ficará 50 anos atrasado em termos de desenvolvimento em relação ao mundo" sob o atual governo; à TV 247, ele também comenta o repúdio de Nova York ao presidente brasileiro; "Não foram somente os brasileiros ativistas, mas 14 grupos se mobilizaram", conta; assista
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247 - Historiador, brasilianista e professor da Brown University, James Green falou à TV 247 sobre a recente rejeição da cidade de Nova York ao presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, que desistiu de viajar à cidade após manifestações do prefeito, Bill de Blasio, e a desistência de dois locais para sediar a cerimônia em que ocorreria uma homenagem a ele pela Câmara de Comércio Brasil-Estados Unidos. No final desta semana, Bolsonaro confirmou que irá a Dallas, no Texas, com o mesmo intuito.
Integrado desde muito jovem com os movimentos LGBT, negro e feminista, além de trazer uma longa história com o Brasil, inicialmente por sua relação com brasileiros exilados da ditadura militar nos Estados Unidos, Green relata que há muita solidariedade dos norte-americanos com os brasileiros neste momento político e compara as situações dos dois países, assim como as esquerdas e as resistências e aos dois governos de extrema-direita, de Bolsonaro e de seu ídolo, Donald Trump. Ele também comenta a rede internacional formada por acadêmicos de universidades no mundo inteiro em defesa da educação no Brasil, que sofrerá cortes pelo atual governo.
"É muito importante para as pessoas que estão lutando contra esse governo a resistência internacional e nacional. Eu achei interessante porque não foram somente os brasileiros ativistas, que a partir do golpe de 2016 estavam mobilizados em Nova York, mas 14 grupos que se juntaram para fazer essa atividade. E alerta: parece que ainda vão realizar o evento no [Hotel] Marriot sem o presidente, com um representante. Os ativistas de Nova York estão mobilizando as pessoas todos os dias em frente ao Marriot e em frente a outros lugares onde serão realizadas essas atividades para dizer "não", tanto ao presidente quanto à premiação dele nesse momento do Brasil, enquanto ele está cortando as verbas universitárias e atacando movimentos populares", disse.
Ele comentou que a cidade tem uma população LGBT ampla e que já superou a conquista de seus direitos, e por isso não aceita as declarações de Bolsonaro sobre os gays. "O movimento LGBT americano, que é muito grande, amplo e descentralizado, entrou em contato com os ativistas de Nova York dizendo: 'estamos contra as declarações do presidente Bolsonaro, queremos fazer alguma coisa. Como podemos participar?', e mobilizaram sua base para essa atividade. Um deputados estadual de Nova York foi muito importante nessa mobilização também e o próprio prefeito de Nova York também, sensibilizado pela situação no Brasil, se solidarizou com nosso movimento e fez as declarações que foram importantes da decisão do governo de cancelar a visita do presidente a Nova York".
Munido de informações de um aluno, cujo pai integra a Câmara de Comércio Brasil-Estados Unidos, ele revelou um bastidor: um grupo da entidade se espantou com a falta de preparo de Bolsonaro em um evento na época das eleições onde o então candidato discursou. "Durante o debate, quando o Bolsonaro foi para a Câmara de Comércio Brasil-Estados Unidos, ele falou e depois as pessoas fizeram perguntas e elas ficaram surpresas com a incapacidade do Bolsonaro de responder às perguntas. Perguntaram sobre políticas econômicas e ele: 'não sei nada sobre economia, vou contratar uma pessoa para responder essa questão'. Sobre a questão da saúde: 'eu não sei, não sou médico, não sei nada sobre medicina no Brasil. Não sei como responder', então naquele momento foi um mal-estar dentro da sala, as pessoas olhavam umas para as outras e falavam: 'gente, é sério esse cara como candidato a presidente?'".
O professor opinou também sobre o corte de verbas do atual governo às universidades públicas do país. "O desafio, no passado, era de informar as pessoas nos Estados Unidos e Europa sobre a realidade brasileira porque as pessoas desconheciam muito a essa realidade, tinham uma série de estereótipos na sua cabeça, mas sem conhecimento real. Com a eleição de Donald Trump aqui, nós temos uma noção da extrema-direita que está atacando uma série de medidas de situações nacionais, então quando Bolsonaro foi eleito e a mídia começou a compará-lo com Trump, dizendo que Bolsonaro é o Trump dos trópicos, criou uma ligação com o Brasil muito mais forte porque acadêmicos que talvez nem saibam muito bem da realidade brasileira sabem agora que esse governo no Brasil está implementando as mesmas medidas no Brasil que estão sendo implementadas nos Estados Unidos. Então há uma solidariedade muito mais ampla a respeito do Brasil do que em outro momento no passado".
James citou os governos Lula e Dilma e os incentivos dados, nesta época, aos intercâmbios de estudantes brasileiros. "Por causa da política dos governos Lula e Dilma, de intercâmbios internacionais, de incentivar as bolsas sanduíches, as bolsas pós-doc, Ciências Sem Fronteiras e outros programas, houve uma interação muito grande entre os Estados Unidos e os brasileiros, em todas as universidades, não somente nas universidades da elite. Não existe uma universidade americana que não recebeu, nos últimos dez anos, brasileiros, que trabalhou com eles, percebeu que eles eram muito sérios e que aproveitaram muito a oportunidade de estudar fora do Brasil. Então existe essa solidariedade porque as pessoas conheceram os brasileiros, os cientistas, as pessoas das ciências sociais, das humanas que conviviam com eles nas suas universidades e sabem que agora vai ser quase impossível, no próximo ano ou mais adiante, acadêmicos brasileiros poderem viajar aos Estados Unidos".
Sobre a ascensão da extrema-direita no Brasil, James Green expôs sua análise sobre os motivos que levaram Bolsonaro ao Planalto. "Tem uma nova situação no Brasil, um outro tipo de polarização, na qual, em certo sentido, o PT perdeu uma força dentro da população e o antipetismo, incentivado por vários fatores, pela mídia, pelos próprios erros do PT em certos momentos, criou um bloco anti-PT muito forte e ficou evidente que o centrão, PSDB e MDB, perderam força no país. Do outro lado, o Bolsonaro foi muito inteligente. Após a facada, quando ele recusou debater, as pessoas não perceberam que ele não tem conteúdo, é uma pessoa muito vazia".
Sob Bolsonaro, o Brasil ficará 50 anos atrasado em termos de desenvolvimento em relação ao mundo, avalia o historiador. "Todo mundo está comentando que os primeiros 120 dias representam um governo fraco, no sentido de todos os erros que eles têm cometido, muitos tipos, inclusive, parece que ele vai ter que recuar à eliminação de vários ministérios se o Congresso não aprovar essa medida. Apesar de errar muito, apesar das divisões dos quatro pilares desse governo, os militares, os evangélicos, o mercado e os setores conservadores da direita, eu acho que apesar de todos esses atritos e contradições, de qualquer jeito, o governo está implementando o programa que ele prometeu durante a campanha eleitoral. Isso é muito perigoso para o Brasil, eu acho que o Brasil vai ficar 50 anos para trás em termos de desenvolvimento, produção acadêmica, pesquisa e visibilidade internacional. O Brasil, que estava emergindo como grande potência e mundialmente reconhecido nas áreas acadêmicas vai para trás agora, vai ser muito ruim para a economia e sociedade brasileira".
James Green conclui fazendo uma comparação entre o ex-presidentes Lula e Getúlio Vargas. "Os dois têm o talento de fazer política, de seduzir as pessoas, convencer, fazer negociações, juntar pessoas de perspectivas diferentes, nesse sentido, acho que os dois são muito parecidos. Mas a origem de Lula é totalmente diferente da origem social de Getúlio Vargas, a eleição de Lula representa outra realidade. Imagina um trabalhador, que nem sequer terminou a primeira série, ser presidente, e um caro muito mais capaz que o presidente atual. Uma pessoa brilhante, ainda que não tenha uma formação formal".
Ele também defendeu a liberdade do ex-presidente brasileiro, que está preso há mais de um ano. "É claro que ele tem que ser livre, é um absurdo ele estar na prisão. Quando eu vi aquela famosa foto da cozinha do triplex eu ria, porque me lembrava da república em que eu morava em São Paulo em 1979, na qual tinha um fogão igual àquele e aquela cozinha igual a que a gente usava em um apartamento de segunda categoria alugado. Ou seja, não era nada luxuoso e nunca houve convencimento sobre as acusações. Eu acho que vai ser muito difícil, se ele for solto pela questão do triplex eles vão prendê-lo de novo por outra acusação. Não vão deixar ele ser livre".
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