Governo Humala completa primeiro ano sob baixa aprovação

Trocas ministeriais, repressão policial e ligações com mineradoras contribuíram para queda na popularidade

Governo Humala completa primeiro ano sob baixa aprovação
Governo Humala completa primeiro ano sob baixa aprovação (Foto: REUTERS/Enrique Castro-Mendivil)


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Opera Mundi - Quando o militar reformado Ollanta Humala recebeu a faixa presidencial no Palácio Pizarro, em Lima, há exatamente um ano, existia no Peru a esperança de uma inédita mudança no quadro social do país. No entanto, com um ano de governo completo neste sábado (28/07), seu mandato é mais comentado pelas trocas ministeriais constantes, a violência policial contra protestos sociais e o favorecimento às grandes empresas ligadas à mineração.

Em recente pesquisa realizada no fim de junho pela empresa GFK para o jornal La República, a popularidade do presidente caiu oito pontos em um mês, chegando a 43%. Sua aprovação no início de mandato caiu de 53% para 35% no interior do país, onde se concentra sua principal base eleitoral. Segundo a GFK, a gestão da economia foi o que segurou a aprovação de Humala em Lima, com 51%.

Para 60% dos entrevistados, o país permanece igual após um ano, dado preocupante para um governo que encarnou aspirações de mudança no dia da posse.

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Na pesquisa da GFK, os principais pontos de aprovação de Humala são o "bom gerenciamento para melhorar o país" (47%), "o trabalho em programas sociais para os pobres" (45%) e o "cumprimento de suas promessas" (42%). Por outro lado, os eleitores desaprovam justamente como principal fator de rejeição o "não cumprimento com suas promessas" (71%), a corrupção (46%) e a segurança (45%).

As relações internacionais (33%) e o desenvolvimento de programas sociais para os pobres (29%) figuram entre as principais conquistas do gerenciamento de Humala, enquanto seus aspectos pior avaliados são a luta contra o crime (55%), o terrorismo (52%), o narcotráfico (51%) e a corrupção no Estado (45%).

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Três quartos dos entrevistados afirmam que o presidente deveria viajar às zonas onde existem conflitos socioambientais pelo desenvolvimento de atividades mineradoras para negociar uma solução, como nos casos da província de Espinar e da região de Cajamarca.

Críticas

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De acordo com analistas políticos ouvidos pela reportagem de Opera Mundi afirmam que, entre as principais razões que apontam para essa queda de popularidade do governo é está a morte de 18 civis durante protestos populares, a maioria de grupos sociais contra projetos de mineração. Isso se deve, em parte, à fama do presidente em adotar uma postura militarizada, pouco aberta ao diálogo.

Analistas políticos peruanos também criticam o governo por aceitar a influência da ala fujimorista (extrema-direita peruana), ocasionada por um acordo político costurado através da distribuição de cargos no governo e troca de ministros.

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A pista inicial dessa aproximação aconteceu durante a primeira mudança de seu gabinete ministerial. Nomes, em sua maioria, considerados progressistas, foram trocados por militares e empresários do ramo da mineração.

"Humala limpou os progressistas do palácio peruano", diz Oscar Ugarteche, economista peruano que trabalha no Instituto de Pesquisas Econômicas da Universidade do México.

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Em dezembro de 2011, o chefe de Estado trocou o premiê Salomón Lerner Ghitis pelo militar e empresário da mineração Oscar Valdés, além de empossar outros nomes em diversas áreas dos ministérios com o mesmo perfil. Ghitis ficou conhecido como homem de confiança do general e ex-presidente progressista Juan Velasco Alvarado (1968-1975), que o colocou à frente da Empresa Pública de Comercialização de Farinha e Azeite de Pescados na década de 1970.

Já Valdés é proprietário de empresas que exploram minério na província de Moquegua ao sul do Peru. Além de admirador do ex-ditador Alberto Fujimori, ele também é um dos principais entusiastas do Projeto Conga, elaborado pela mineradora norte-americana Newmont para administrar Yanacocha, a segunda maior mina de ouro do mundo localizada em Cajamarca, norte do país. Os protestos ocorrem porque a população local é contra os impactos ambientais que a exploração poderá causar na região. Entre outros fatores, ela ameaça o fornecimento de água e a atividade agropecuária local.

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Os últimos meses de conflitos em Cajamarca resultaram em mortes e prisões arbitrárias aos manifestantes contrários ao projeto. A crise obrigou Humala a trocar novamente seu premiê e parte do gabinete. Muitos ministros também renunciaram por protesto contra a repressão policial.

"Aí está uma estratégia de Humala, trocar novamente o gabinete ministerial para acalmar a situação em Cajamarca, local onde o gabinete de Valdés perdeu muita aprovação popular", analisa o cientista político Arturo Ayala.

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Nesta semana, Humala empossou novos ministros nas pastas da Saúde, Agricultura, Defesa, Justiça e Interior. Para Ayala, nada muda. "A nova ministra de Justiça, Eda Rivas, por exemplo, trabalha diretamente com a USAID (Agências dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional) órgão norte-americano ligado à cooperação dos grandes projetos de mineração no país".

Se Valdés era a figura emblemática e clara do apoio à mineração a qualquer custo, o atual primeiro ministro, Juan Jiménez Mayor (ex-ministro da Justiça) é mais moderado. "O presidente distribuiu estrategicamente seus novos ministros, pois a aparência é diferente, mas a essência é a mesma", define Ayala.

Outros temas

Para Hector Bajos, professor da Universidade San Marcos, a desaprovação do presidente é fruto de um cenário onde "não existe nenhuma mudança estrutural de importância destinado à maioria da população peruana, nem um sinal que indique que isso ocorrerá no futuro".

O cientista social Antonio Zambrano aponta que "o único investimento social que se fez de forma coerente e significativa até agora foi o combate à desnutrição. Entretanto, o grande capital segue controlando a execução de um Estado subserviente aos projetos das grandes empresas no país".

"A riqueza no Peru está sendo distribuída entre a elite peruana que habita Lima e aumentando a massa da classe média nas grandes cidades do país. Por outro lado, tem proporcionado o empobrecimento da vida no campo e forçando a migração", explica Zambrano.

Os TLCs (Tratados de Livre Comércio) são outra questão muito criticada por parte da população. Humala assinou mais um em junho, agora com a União Europeia, fazendo com que o Peru totalize 11 diferentes tratados dessa natureza. "Esses TLCs desprotegem nossa economia e promovem um verdadeiro saque de nossas riquezas naturais, além de formar um Estado débil", crítica Bajos.

Na opinião de Carlos Navas, secretário-geral do Sindicato dos Trabalhadores de Educação na região do Vale do Rio Amazonas e Ene, uma das mais pobres do Peru, o governo Humala não soube destinar devidamente recursos para educação, saúde e infraestrutura na região. "Faltou também investir em projetos de desenvolvimento econômico alternativo para incentivar e apoiar as famílias para a produção de cacau, arroz, entre outros produtos", afirma.

Sendero Luminoso

Outro ponto de debate central que esteve presente nesses 12 meses foram os conflitos na selva peruana, que levantaram novamente a suspeita do ressurgimento do grupo armado Sendero Luminoso.

Combatido na década de 1990 pela ditadura de Alberto Fujimori, o grupo foi praticamente dizimado. Os principais líderes sobreviventes estão encarcerados e condenados à prisão perpétua.

Na visão do advogado Ricardo Saberón, especialista no conflito, esse novo grupo seria originado das décadas de 1980 e 1990, mas com mudanças na forma de atuação. "Atualmente estariam vinculados à economia do narcotráfico, deixando de fazer massacres, assassinatos de civis como em tempos passados para focarem suas ações contra as forças armadas peruanas".

Para Saberón, o Sendero está sendo usado para desviar o foco para outro problema. "O que tem que ser debatido no momento é a falta de investimentos do governo Humala numa região pauperizada. As intervenções estatais ocorrem somente no âmbito da repressão policial, pois a região do Vale do Rio Amazonas e Ene foi taxada de espaço do narcoterrorismo. Isso não ajuda a gerar políticas públicas adequadas", reclama Saberón.

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