Estratégia dos EUA na Ucrânia é alongar a guerra, denuncia Caitlin Johnstone

Segundo a jornalista australiana, a estratégia dos EUA na Ucrânia é sabotar a diplomacia para manter a guerra e tentar sangrar e cansar a Rússia

Joe Biden | Kiev | Otan
Joe Biden | Kiev | Otan (Foto: Reuters)


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Artigo de Caitlin Johnstone* publicado originalmente em www.caitlinjohnstone.com, traduzido e adaptado por Rubens Turkienicz com exclusividade para o Brasil 247

Guerra Por Procuração Não Tem Estratégia de Saída

O Comitê Internacional dos Socialistas Democráticos dos EUA [International Committee of the Democratic Socialists of America - DSA] publicou uma declaração se opondo à guerra por procuração do governo dos EUA em andamento na Ucrânia, dizendo que bilhões de dólares estadunidenses estão sendo canalizados para o complexo militar-industrial “numa época na qual os estadunidenses comuns estão lutando para pagar por habitação, alimentos e combustível” e que isso é “um tapa na cara dos trabalhadores”. A declaração defende um acordo negociado para a paz, dizendo que continuar a despejar armas no país “prolongará desnecessariamente a guerra, resultando em mais mortes de civis” e que ela “arrisca escalar e ampliar a guerra – até chegar e incluindo uma guerra nuclear.”

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Em resposta a esta posição inteiramente razoável e moderada, atualmente o DSA está sendo ferozmente atacado com fogo por gerentes de narrativas marcados com checagens azuis (reconhecidos como oficiais) no Twitter com acusações de lealdade ao Kremlin e de facilitar o assassinato e o banho de sangue. Isto ocorre porque as únicas posições aceitáveis para qualquer um com influência significativa sobre esta guerra vão desde dar apoio contínuo às operações de guerra por procuração, até iniciar uma guerra quente diretamente entre a OTAN e a Rússia.

É assim que o limitado espectro permissível de debate sobre este conflito foi reduzido: de militaristas do status quo até militaristas homicidas. Qualquer coisa fora deste espectro é rotulada de extremismo radical. Como disse Noam Chomsky: “a maneira esperta de manter passivas e obedientes as pessoas é limitar o espectro de opiniões aceitáveis, mas de permitir um debate muito vivaz dentro daquele espectro – e até mesmo de encorajar as visões mais críticas e dissidentes. Isto dá às pessoas a sensação de que está ocorrendo a liberdade de pensar, enquanto as pressuposições do sistema estão sendo reforçadas até os limites dados para a variedade do debate o tempo todo.”

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Por um lado, este espectro de debate foi reduzido pelos manipuladores imperiais que martelam continuamente a mensagem que qualquer apoio pela desescalada e por soluções diplomáticas é um “apaziguamento” e indica simpatias pela Rússia; pelo outro lado, os especialistas e políticos  militaristas insistem nas respostas mais assustadoramente agressivas possíveis para esta guerra. Ao proibir o espectro aceitável de debate para incluir a paz, enquanto empurram com a maior força possível na direção do extremismo militarista, os gerentes da narrativa imperial criaram com sucesso uma janela de conotações nas quais o único debate permitido é sobre como a Rússia pode ser confrontada diretamente e pela força – de modo que os pedidos pela paz ficam fora desta janela.

Isto é um problema, porque tanto uma guerra quente da OTAN com a Rússia quanto seguir adiante no atual rumo das ações do império na Ucrânia, são opções igualmente estúpidas. O conflito direto entre potências nucleares provavelmente significa uma terceira guerra mundial muito rápida e muito radioativa, e o status quo da abordagem de guerra por procuração não está fazendo a Rússia parar – à medida que cada vez mais territórios são tomados no leste, em impassível desafio às alegações ocidentais de que eles duvidam que a Ucrânia sequer será capaz de retomar o território que já perdeu. A não ser que, ou até que algo significativo mude, a Ucrânia não parece ter qualquer caminho para a vitória nesta guerra a curto prazo.

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Em resumo, não existe uma estratégia de saída para esta guerra por procuração. Não há planos previstos para forçar Putin a uma derrota rápida, e o governo Biden segue desdenhando firmemente até dos mínimos gestos na direção da diplomacia com Moscou. Foi reportado que Boris Johnson estaria fazendo ruídos sobre admoestar o presidente da Ucrânia, Zelenski, e o presidente Macron da França - e sabe-se lá quem mais – de não trabalhar pela paz na Ucrânia. Seja vencendo rapidamente ou negociando um acordo de paz, ambas as portas para terminar esta guerra estão trancadas – o que garante uma pancada longa e sangrenta.

E isto acaba sendo muito adequado para Washington. As autoridades do governo Biden declararam que a meta é usar a guerra na Ucrânia para “enfraquecer” a Rússia e que os EUA já têm um padrão estabelecido para trabalhar para atrair Moscou para entrar em custosos pântanos militares – como vimos tanto no Afeganistão quanto na Síria. Continuar a despejar armas e inteligência militar na Ucrânia enquanto se trabalha para separar a Rússia do mundo não provê chance alguma de terminar a guerra em tempo breve, mas cria uma boa chance de sangrar e enfraquecer Moscou.

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E já que este é o caminho de ação que foi tomado pelo império, só podemos presumir que este seja o seu resultado desejado: não a vitória, não a paz, mas uma longa e cansativa guerra.

Uma das principais críticas recorrentes sobre a guerra do Iraque foi que Bush se apressou em entrar nela sem uma estratégia de saída, sem um plano para terminar a guerra uma vez que foi iniciada. Esta guerra por procuração com a Rússia não só não tem uma estratégia para terminar a guerra, aparentemente ela só tem estratégias para não terminar a guerra. Não ter uma estratégia de saída é a estratégia.

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Sempre que você assinala a insanidade desta abordagem, há idiotas úteis do império que objetam – dizendo que, ao criticar os EUA pela guerra por procuração e por apoiar um acordo negociado, você é culpado de “apaziguamento” - exatamente como foi o caso de Neville Chamberlain – porque o único argumento que os apologistas do império sempre tiveram é comparar todos os governos visados pelo governo dos EUA à Alemanha Nazista.

Segundo estes autômatos confundidos pela propaganda do império, tendo a estória de não fazer acordos com Putin-Hitler e não cometendo o pecado do “apaziguamento” vale o sacrifício de todos na nação da Ucrânia inteira. Eles ficarão felizes em atirar todas as vidas ucranianas nas engrenagens desta guerra, enquanto eles ficam sentados em casa comendo guloseimas e enviando tweets – de modo que possam ter a estória de que “nós não fizemos um acordo com Putin” pendurada na sua lareira mental.

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Quantas vidas mais estas pessoas estão preparadas para alimentar numa guerra que não pode ser vencida que o ocidente provocou de propósito? Quantas vidas mais das crianças de outras pessoas eles estão preparados a sacrificar? Quanto tempo deve o banho de sangue durar até que a estória de “não-apaziguamento” perca o valor que tem para eles? Quanto tempo passará até que eles se despertem dos seus comas induzidos por propaganda e se deem conta que nós fomos manipulados a apoiar uma guerra por procuração que não traz benefício algum às pessoas comuns, de maneira nenhuma, e que, na verdade, nos empobrece e ameaça as nossas próprias vidas?

Não existe um argumento moralmente consistente para continuar com esta guerra por procuração da maneira como está sendo conduzida. Se você efetivamente dá valor à vida e à paz, a única saída é através de negociações e acordos. Eu assinalo isto não porque eu acredite que isto acontecerá, mas com a esperança de ajudar algumas pessoas a mais a abrirem os seus olhos para o fato de que estamos sendo enganados.

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*Caitlin Johnstone é uma experiente jornalista independente e escritora australiana, baseada em Melbourne, publicando o seu trabalho em diversos veículos internacionais

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