Disparos contra usina nuclear de Zaporizhzhia podem levar a catástrofe pior do que Chernobyl, diz ambientalista russo
‘Não importa quem dispara contra a usina nuclear. Mais importante é que estamos à beira de uma catástrofe nuclear’, diz Vladimir Slivyak
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Artigo de Vladimir Slivyak originalmente publicado em russo no Moscow Times, traduzido ao inglês e republicado no CounterPunch. Traduzido do inglês ao português e adaptado por Rubens Turkienicz com exclusividade para o Brasil 247
À Distância de um Míssil Errante
Guerra na Zona Nuclear
Um potencial acidente nuclear mundial na usina nuclear de Zaporizhzhia retornou à pauta. Sem dirigirem-se diretamente às partes em conflito, a ONU e a IAEA (International Atomic Energy Agency) estão suplicando por um fim ao bombardeio à usina nuclear. Segundo as reportagens das mídias internacionais, o exército russo alocou não só tropas, mas também armamentos no território da usina.
Quão ruim é a situação?
Apenas uma catástrofe nuclear, como aquela de Chernobyl, pode ser pior. Permitam-me lembrar-lhes que foi um reator que explodiu então. A nuvem radioativa se moveu de tal maneira que não só partes da atual Ucrânia, Bielorrússia e Rússia, mas também muitos países na Europa foram contaminados. Uma parte da radiação chegou à África e até à América do Norte.
Há seis reatores na usina nuclear de Zaporizhizhia.
Será possível um acidente maior? Muito possível. Basta desenergizar a usina se as linhas de eletricidade forem destruídas – estas linhas já estão sendo atingidas por disparos. Obviamente, os geradores de emergência conseguirão fornecer eletricidade para a usina durante algum tempo, sempre que estejam em ordem, mas isto é uma questão de horas.
Eu me lembro de uma usina nuclear russa que esteve à beira de ter um acidente no início dos anos de 1990 – quando um furacão derrubou as linhas de eletricidade e os geradores não estavam em ordem. Sequer foi preciso uma guerra para isso.
Os reatores não são a única fonte de perigo. Na usina nuclear de Zaporizhzhia há combustíveis nucleares usados – o tipo mais perigoso de lixo nuclear – armazenados em containers. O bombardeio deste local também levará a um dos maiores acidentes nucleares da história. Em 1957, houve uma explosão na então-secreta instalação baseada em Chelyabinsk de armazenagem de lixo nuclear de Mayak – a contaminação radioativa se espalhou por uns 20.000 quilômetros do território soviético.
Para se entender se a ação militar nas cercanias de usinas nucleares é perigoso, faz-se necessário ter em mente o seguinte: ninguém, em lugar algum, jamais calculou se os reatores nucleares aguentariam o impacto de um míssil balístico. Ou dois, ou trinta. Não há dúvida que, se alguém quiser bombardear seriamente uma usina nuclear, nenhuma contenção de reatores sobreviveria.
Mas os próprios reatores não parecem estar sendo alvejados. Ainda.
A usina de Zaporizhzhia esteve no noticiário em março, quando as tropas russas começaram a disparar mísseis no seu território e depois o ocuparam. O pessoal ucraniano continua a trabalhar na usina e estão sob enorme pressão - o que, por si só, pode levar a erros no controle do reator. Historicamente, a maior parte dos acidentes e emergências em usinas nucleares têm sido causados por erros humanos.
A usina nuclear de Zaporizhzhia não é o único episódio “nuclear” da guerra. Então, há algumas evidências factuais para se acessar como as forças militares ucranianas e russas trataram anteriormente das hostilidades nas cercanias de instalações nucleares. Há quase seis meses, quando tropas russas estavam entrincheiradas (!) na zona contaminada perto da usina nuclear de Chernobyl, os ucranianos não atiraram neles. Segundo várias reportagens das mídias, os funcionários da Rosatom (empresa nuclear russa) também estavam presentes lá – o que não impediu que os soldados russos escavassem o solo contaminado com radioatividade e, portanto, estava respirando pó radioativo. Eles pelo menos poderiam ter sido advertidos sobre isso, não é?
Os ucranianos tampouco dispararam sobre a usina nuclear de Zaporizhzhia capturada em março, nem para causar danos no equipamento – de modo que não caísse nas mãos dos invasores, nem para recuperar a usina. Por isso, eu não acredito que eles estão disparando contra a usina nuclear agora.
A IAEA está desesperada para ter permissão de entrar na usina de Zaporizhzhia – porém isto parece ser uma jogada pobre de relações públicas. Rafael Grossi, o diretor-geral da agência, não pode deixar de entender que é inútil ter inspetores sob tiroteios numa usina nuclear ocupada, para dizer o mínimo. O que a IAEA pode fazer? Registrar que há uma guerra em andamento e que esta deve ser parada urgentemente? Será que isto não está claro para alguém neste momento?
Diga-se de passagem, que as autoridades russas também estão ansiosas para que o Diretor-Geral Grossi venha a Zaporizhzhia.
Em geral, já não importa mais quem dispara contra a usina nuclear de Zaporizhzhia. E não importa o que a IAEA – cuja reputação deixa muito a desejar – diga. Muito mais importante é que os russos – não menos do que os ucranianos, ou os cidadãos da União Europeia – estão à beira de uma catástrofe nuclear. E nós estamos neste ponto porque os russos alocaram tropas na Ucrânia em fevereiro e ainda estão conduzindo uma guerra sangrenta. Assim mesmo. E talvez um simples erro de um artilheiro de mísseis, ou de um operador do reator, nos separe agora de uma repetição de Chernobyl.
Rezem, se isto lhes ajuda.
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