Dez anos após Primavera Árabe, desilusão dos egípcios da Praça Tahrir continua

No dia 25 de janeiro de 2011, tinha início o movimento que levaria à queda do presidente egípcio Hosni Mubarak

Manifestantes protestam no Cairo contra militares no poder
Manifestantes protestam no Cairo contra militares no poder (Foto: Mohamed Abd El Ghany/REUTERS )


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Por Nicolas Falez, da RFI - Há exatamente dez anos, no dia 25 de janeiro de 2011, tinha início o movimento que levaria à queda do presidente egípcio Hosni Mubarak algumas semanas depois. Na sequência, o país elegeu um presidente islâmico, deposto pelo Exército. Desde então, o governo atual tem um histórico sombrio em termos de liberdades democráticas. Dez anos depois da Primavera Árabe, a RFI entrevistou um jovem que participou dos protestos na Praça Tahrir, no Cairo, que foi o centro do levante de 2011.

Taha Metwally nasceu e cresceu no Cairo. Ele tinha 22 anos em 25 de janeiro de 2011, quando participou da primeira manifestação anti-Mubarak. O rapaz se lembra "dos milhares de manifestantes nas ruas" e do slogan "Queremos pão, liberdade, igualdade, justiça!" que era entoado pela multidão e pelos habitantes da capital egípcia que, das varandas de seus apartamentos, encorajaram os manifestantes.

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"Acho que naquela época todos na Praça Tahrir compartilhavam um sentimento de liberdade", diz Metwally. "Nós éramos apenas um, tínhamos o mesmo objetivo e devíamos continuar para ver o que poderíamos fazer...”

Entre o medo e alegria

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Metwally também se lembra da violência que marcou a Revolução Egípcia, especialmente do ataque contra o acampamento da Praça Tahrir por partidários do poder, em 2 de fevereiro de 2011. Ele passou mal a primeira vez que sentiu o cheiro de gás lacrimogêneo. “Vi pessoas morrerem perto de mim. A Praça Tahrir estava cheia de crianças e mulheres, todos estavam com medo. E, ao mesmo tempo, vimos muitas pessoas tentando proteger o lugar. Mas é claro que é uma memória ruim, perdemos muita gente", conta.

Os protestos duraram até 11 de fevereiro, data da renúncia do presidente, e mais de 800 pessoas morreram na repressão ao movimento. Metwally também se lembra da alegria que tomou conta das ruas do Cairo quando Hosni Mubarak deixou o poder. Foi em um telão que o jovem acompanhou o último discurso do presidente egípcio e teve esperança de que a liberdade e a democracia estavam enfim chegando ao país. A eleição em 2012 do presidente islâmico Mohammed Morsi, seguida de sua queda iniciada também por protestos populares são acontecimento que Metwally vivenciou de longe, enquanto prestava o serviço militar.

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O fim de uma revolução com a chegada do Marechal Sisi

A chegada ao poder, em 2013, de Abdel Fattah al-Sisi, marechal que depois se tornaria presidente, foi uma ducha de água fria. Metwally entendeu que a revolução havia fracassado: “Quando o ditador Abdel Fattah al-Sisi chegou, prendeu muitas pessoas, mas acho que ele encarcerou principalmente a liberdade. Todo mundo está com medo. Ninguém fala sobre política. O governo está tentando silenciar todo mundo”.

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Ele assistiu à repressão contra opositores e organizações de direitos humanos. Militante em associações LGBT, Metwally cita particularmente a onda de detenções que se seguiu ao show do grupo de rock libanês Mashrou 'Leila no Cairo no outono de 2017. Dezenas de espectadores foram presos por agitarem a bandeira arco-íris, símbolo do orgulho gay.

"A França continua apoiando ditadores"

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Há três anos, Taha Metwally vive exilado na França e fundou a ONG ANKH, que defende os direitos das pessoas LGBT, especialmente no Oriente Médio. O ativista denuncia o apoio do governo francês ao atual poder egípcio. Em dezembro de 2020, o presidente Sisi foi novamente recebido em Paris com toda a pompa de uma visita de Estado. O líder egípcio foi inclusive condecorado com a Grã-Cruz da Legião de Honra, a mais alta condecoração francesa.

O ex-manifestante da Praça Tahrir não esconde seu descontentamento com a proximidade exibida entre os líderes franceses e líderes pouco democráticos. “Houve 2011 (a Primavera Árabe), e mesmo assim a França continua acreditando que deve apoiar ditadores para ter estabilidade. Obviamente que é o contrário", salienta ainda Asmahan el-Badraoui, da Iniciativa Franco-Egípcia pelos Direitos e Liberdades.

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Dez anos depois da Primavera Árabe, Taha não perde as esperanças. “Quando alguém rouba a liberdade de um povo, é claro que o povo não aceita. Estou convencido de que um dia milhões de pessoas voltarão às ruas. Um dia, voltarei a me manifestar na Praça Tahrir para pedir de novo o que esperávamos em 2011”.

Outro opositor do regime egípcio, hoje no exílio, é o escritor Alaa El Aswany. Censurado em seu país, perseguido por um tribunal militar, ele encontrou refúgio em Nova York. Em entrevista à RFI por ocasião do aniversário de dez anos da "Primavera Egípcia", ele disse que, apesar da ditadura atual, também mantém as esperanças em um futuro democrático para o Egito.

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