'Desigualdade social na Alemanha já é igual à do Brasil', diz cientista alemão
Em entrevista à Spuntik, o economista Christoph Butterwegge disse que a distribuição de renda na economia alemã segue uma tendência alarmante; 20% da população não têm quase nada, enquanto 7% têm mais dívidas do que renda; "Na Alemanha a situação é igual à do Brasil ou Colômbia, embora ainda não tenhamos entendido isso", afirmou; "É evidente que o descontentamento está crescendo e, acho eu, é bem justificado", afirma o cientista, comparando a sociedade alemã com a da década de 1920, época em que uma crise política parecida e em que a pequena burguesia escolheu apoiar os nazistas
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Da Agência Sputnik Brasil - Após o relatório "Como superar a pobreza" ter sido publicado pelo governo alemão, um dos especialistas neste assunto, Christoph Butterwegge, concedeu uma entrevista à Sputnik Alemanha e falou das tendências alarmantes na economia alemã, na distribuição de renda, em particular.
Julgando pela taxa de desigualdade, a Alemanha já pode se comparar com os países do chamado Terceiro Mundo. Por um lado, existem várias famílias com a renda de 30 bilhões de euros, sendo que sua fortuna continua crescendo.
Por outro, 20% da população não têm quase nada, enquanto 7% têm mais dívidas do que renda. Há cada vez mais pessoas que se sentem marginais nesta "festa da vida", o que leva a uma polarização perigosa na sociedade, afirma o cientista Christoph Butterwegge. O acadêmico frisa que, a seu ver, o desequilíbrio na distribuição de riqueza na Alemanha é mais grave do que na distribuição de renda. É que, mesmo que a fonte de renda desapareça, os bens permanecem. Caso contrário, a situação fica muito mais complicada.
"Na Alemanha há famílias cuja fortuna soma 20-30 biliões de euros. Em tais países como a Ucrânia, Rússia ou Grécia os chamariam de "oligarcas". Na Alemanha, para nivelar a gravidade do problema, os denominam carinhosamente de "empresários familiares". É nas mãos de tais famílias, que são poucas, que está concentrada a riqueza nacional", explica o analista.
Ao contrário, segundo diz o Instituto Alemão de Economia, 20,2% dos cidadãos alemães não têm nenhuns bens, enquanto 7,4% devem mais do que possuem. Se juntarmos estes dois grupos, são quase 30% da população — basta uma demissão ou uma doença grave para estas pessoas caírem na miséria.
Apesar desta tendência se verificar em muitas sociedades do mundo (os ricos continuam ricos, os pobres continuam pobres), ela se agravou e leva cada vez mais pessoas a considerarem a situação como injusta. Muitas pessoas se sentem como "abandonadas" pelo governo, a classe média teme ficar pobre, a sociedade se polariza, ressalta Butterwegge à Sputnik Alemanha.
"Isto afeta a situação política no país — muitas pessoas deixaram de participar das eleições, isso acontece, primeiramente, com aqueles que recebem prestações de desemprego. Outras, por sua vez, aderem aos partidos populistas de direita e agrupamentos tipo "Alternativa para Alemanha" ou o PEGIDA [Europeus Patriotas contra a Islamização do Ocidente]. É evidente que o descontentamento está crescendo e, acho eu, é bem justificado", partilha o especialista ao analisar a situação atual na sociedade alemã e a compara com a década de 1920, época em que havia incerteza e uma crise política parecida e em que a pequena burguesia escolheu apoiar os nazistas.
O acadêmico destaca que o atual governo de Merkel não parece ser capaz de lidar com a crise por sua abordagem dogmática e basicamente incorreta. Nas situações de crise, as autoridades devem reagir aos sinais da sociedade de modo mais cuidadoso, apoiar aqueles que correm o risco de colapso financeiro, primeiramente através de um sistema fiscal eficiente com impostos progressivos.
Porém, a União Democrata-Cristã se comprometeu a não aumentar os impostos e, consequentemente, os problemas se agudizarão até que esta força política deixe o poder, assegura o especialista.
Como é que a situação atual se tornou possível? Em 2009, foi aprovada uma lei que possibilitou a transmissão do patrimônio aos herdeiros sem que estes paguem qualquer tipo de imposto ao Estado. Na espoca, enormes impérios empresariais foram "repartidos" e, em resultado, o governo perdeu cerca de 50 biliões de euros no período entre 2009 e 2015.
Claro que tal medida contraditória não poderia ter sido empreendida sem a influência de certos círculos, afirma Butterwegge: "De costume, os ricaços têm grande influência no poder político. Eles têm lobistas e, deste modo, a oportunidade de influir na política no sentido que lhes convém. Isto também foi evidente na discussão do importo sobre o patrimônio.As pessoas pobres não têm tal oportunidade — elas não dispõem de um poderoso lobby econômico. Quando o vento neoliberal começa a soprar, como recentemente, fica mais fácil para os ricos exercerem pressão sobre os políticos."
Ao traçar uma comparação com outros países, o especialista sublinha que a situação na Alemanha pode ser comparada com a dos EUA e até com tais países como o Brasil e a Colômbia. Estes dois últimos costumam ser referidos pelos alemães como os países onde a desigualdade, o fosso entre pobres e ricos, é enorme. "Na Alemanha a situação é igual, embora ainda não tenhamos entendido isso", concluiu.
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