Corte na produção de petróleo da Opep+ mostra crescente divisão entre Biden e realeza saudita

"Está claro que a Opep+ está se alinhando com a Rússia", disse a secretária de imprensa da Casa Branca, Karine Jean-Pierre

(Foto: REUTERS/Evelyn Hockstein/File Photo)


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WASHINGTON/LONDRES, 8 de outubro (Reuters) - A decisão da organização Opep+ nesta semana de cortar a produção de petróleo, apesar da forte oposição dos Estados Unidos, prejudicou ainda mais as relações já tensas entre a Casa Branca do presidente Joe Biden e a família real da Arábia Saudita, que já foi um dos mais firmes aliados de Washington no Oriente Médio, de acordo com entrevistas com cerca de uma dúzia de funcionários do governo e especialistas em Washington e no Golfo.

A Casa Branca pressionou fortemente para evitar o corte de produção da Opep, disseram essas fontes. Biden espera evitar que os preços da gasolina nos EUA subam novamente antes das eleições de meio de mandato, nas quais seu partido democrata está lutando para manter o controle do Congresso dos EUA. Washington também quer limitar a receita energética da Rússia durante a guerra na Ucrânia.

O governo dos EUA pressionou a Opep+ por semanas. Nos últimos dias, altos funcionários dos EUA das equipes de energia, política externa e economia instaram seus colegas estrangeiros a votar contra um corte na produção, segundo duas fontes familiarizadas com as discussões.

Amos Hochstein, o principal enviado de energia de Biden, juntamente com o oficial de segurança nacional, Brett McGurk, e o enviado especial do governo ao Iêmen, Tim Lenderking, viajaram para a Arábia Saudita no mês passado para discutir questões energéticas, incluindo a decisão da Opep+.

Eles não conseguiram evitar um corte na produção, assim como Biden fez após sua visita em julho.

Autoridades dos EUA "tentaram posicionar a questão como 'nós contra a Rússia'", disse uma fonte informada sobre as discussões, dizendo às autoridades sauditas que precisavam fazer uma escolha.

Esse argumento falhou, disse a fonte, acrescentando que os sauditas disseram que, se os Estados Unidos quisessem mais petróleo nos mercados, deveriam começar a produzir mais.

Os Estados Unidos são o maior produtor de petróleo do mundo e também seu principal consumidor, de acordo com dados da Administração de Informações sobre Energia dos EUA.

O escritório de mídia do governo saudita não respondeu aos pedidos de comentários enviados por e-mail da Reuters sobre as discussões.

"Estamos preocupados em primeiro lugar com os interesses do Reino da Arábia Saudita e depois com os interesses dos países que confiaram em nós e são membros da Opep e da aliança Opep+", disse o ministro da Energia, príncipe Abdulaziz, à TV saudita na quarta-feira.

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A Opep pondera seus interesses com "os do mundo porque temos interesse em apoiar o crescimento da economia global e fornecer suprimentos de energia da melhor maneira", disse ele.

A manipulação de Washington do acordo nuclear com o Irã e a retirada do apoio às operações militares ofensivas de uma coalizão liderada pela Arábia Saudita no Iêmen incomodaram as autoridades sauditas, assim como as ações contra a Rússia após a invasão da Ucrânia em fevereiro de 2022.

Uma pressão dos EUA por um teto de preço do petróleo russo está causando incerteza, disse o ministro da Energia, príncipe Abdulaziz bin Salman, à Bloomberg TV após o corte da Opep, observando a "falta de detalhes e a falta de clareza" sobre como será implementado.

Uma fonte informada por autoridades sauditas disse que o reino o vê como "um mecanismo de controle de preços fora do mercado, que poderia ser usado por um cartel de consumidores contra produtores".

Uma venda dirigida por Biden de 180 milhões de barris de petróleo em março da Reserva Estratégica de Petróleo dos EUA pressionou para baixo os preços do petróleo. Em março, a Opep+ disse que deixaria de usar dados da Agência Internacional de Energia (AIE), um órgão ocidental de fiscalização do petróleo, devido a preocupações lideradas pela Arábia Saudita de que os Estados Unidos tivessem muita influência.

Na quinta-feira, Biden chamou a decisão saudita de "uma decepção", acrescentando que Washington poderia tomar mais medidas no mercado de petróleo.

"Olha, está claro que a Opep+ está se alinhando com a Rússia", disse a secretária de imprensa da Casa Branca, Karine Jean-Pierre, na quarta-feira. Ela não detalhou como o corte na produção afetaria as relações EUA-Saudita. No Congresso dos EUA, os democratas de Biden pediram a retirada das tropas americanas da Arábia Saudita e falaram sobre a retomada das armas.

"Eu pensei que todo o objetivo de vender armas para os Estados do Golfo, apesar de seus abusos de direitos humanos, guerra do Iêmen sem sentido, trabalhar contra os interesses dos EUA na Líbia, Sudão, etc., era que quando uma crise internacional viesse, o Golfo poderia escolher a América em vez da Rússia/China", disse o senador Chris Murphy, democrata, no Twitter.

O ministro de Estado das Relações Exteriores da Arábia Saudita, Adel Al-Jubeir, disse em comentários à Fox News na sexta-feira, quando questionado sobre as críticas dos EUA: "A Arábia Saudita não politiza o petróleo ou as decisões sobre o petróleo".

"Com o devido respeito, a razão de você ter preços altos nos Estados Unidos é porque há uma escassez de refino que existe há mais de 20 anos", acrescentou.

PRÍNCIPE E BIDEN

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Semanas depois que Biden assumiu o cargo de presidente, Washington divulgou um relatório ligando o assassinato do jornalista Jamal Khashoggi em 2018 ao príncipe herdeiro Mohammed bin Salman.

O príncipe, filho do rei Salman, de 86 anos, negou ter ordenado o assassinato, mas reconheceu que ocorreu "sob minha vigilância".

O príncipe tornou-se primeiro-ministro no mês passado e seus advogados argumentam em um tribunal dos EUA que isso o torna imune ao processo pela morte de Khashoggi.

A viagem de Biden a Jeddah, na Arábia Saudita, em julho para uma cúpula do Golfo teve como objetivo remendar as relações, mas ele também fez duras críticas a Bin Salman pelo assassinato de Khashoggi.

Ben Cahill, membro sênior do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais, disse que os sauditas esperam que os cortes de produção deem à Opep+ controle sobre os preços do petróleo e garantam receita de petróleo suficiente para proteger seu país de uma recessão.

"O risco macroeconômico está piorando o tempo todo, então eles precisam responder", disse Cahill. "Eles estão cientes de que um corte irritará Washington, mas estão administrando o mercado."

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