Como a guerra na Ucrânia está sacudindo a indústria global de armamento
As lutas dos fabricantes russos de armamentos se adicionaram às mudanças históricas no mercado global de armamento
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Artigo de John P. Ruehl originalmente publicado no Globetrotter em 17/4/23. Traduzido e adaptado por Rubens Turkienicz com exclusividade para o Brasil 247
Em 21 de março de 2023, a força aérea da Índia confirmou que uma importante entrega de armas russas não ocorreria, citando os desafios logísticos que derivam da sua guerra na Ucrânia. Ela serviu como o mais recente exemplo da incapacidade da Rússia completar os negócios de armas com a Índia desde que o conflito começou em fevereiro de 2022.
A Índia é o maior importador de armas do mundo e, sendo o maior fornecedor do país, a Rússia desempenha um papel descomunal na defesa da Índia. Mas os atuais desafios militares da Rússia na Ucrânia naturalmente aumentarão o impulso da Índia para desenvolver alternativas de defesa domésticas e a diversificação de fornecedores estrangeiros.
O forte crescimento dos gastos de defesa da Rússia desde o começo da guerra indica que os fabricantes domésticos de armamentos podem contar com uma demanda estável do estado russo. Mas as sanções significam que eles já estão tendo dificuldades de completar estes pedidos, e se arriscam a perder mais participação nos mercados internacionais, à medida que os seus produtos fluem cada vez mais para as forças militares russas.
O Instituto Internacional para a Pesquisa da Paz de Estocolmo (SIPRI – Stockholm International Peace Research Institute) estima que seis países — os EUA, a Rússia, a França, a China, a Alemanha e a Itália — foram responsáveis por 80% das exportações globais de armamentos de 2018 a 2022. Somente os EUA responderam por 40%, enquanto que a Rússia ficou num distante segundo lugar, com 16%.
É difícil designar um valor exato para a indústria global de armamentos. Se debate o que sejam “armamentos” exatamente, porquanto os mesmos produtos podem ser vendidos por preços diferentes. Armas também podem ser transportadas discretamente, ou no mercado negro. No entanto, o SIPRI usa um “valor indicativo de tendência” que aloca um valor específico à armas individuais ou sistemas de armamentos, baseado nas suas capacidades.
Manter e fazer crescer a sua participação de mercado é uma prerrogativa para países que exportam armamentos. Para a Rússia, os negócios com armas são um método-chave para ter acesso à moeda forte. Mas os exportadores de armas também se alavancam com países compradores ao modelar a situação de segurança destes, ajudando a firmar relações construtivas de longo prazo com outros países.
Frequentemente, a força das indústrias nacionais de armas pode flutuar. Após o colapso soviético, por exemplo, o financiamento estatal da indústria de armas russa declinou marcadamente, quando muito da infraestrutura de manufatura de armas que antes estavam sob o controle de Moscou foi espalhada em toda a antiga União Soviética.
Porém, mesmo os países da Europa oriental, que buscavam tornar as suas forças armadas mais interoperáveis com as armas da OTAN e as ocidentais, lutaram para apartar-se das armas russas. Neste ínterim, ao aumentar as exportações para a China e a Índia, ajudaram a sustentar a indústria russa de armamentos nos anos de 1990. E depois que Putin chegou ao poder no ano de 2000, a indústria russa de armamentos conseguiu florescer ao reconstruir parte da sua antiga base de clientes e expandir-se em toda a Ásia, no Oriente Médio e na África.
Apesar de continuar sendo o segundo maior exportador de armas, a indústria russa enfrentou fortes ventos contrários em anos recentes. As vendas já haviam declinado após a imposição da primeira rodada de sanções em 2014, que limitavam tecnologicamente a importação da Rússia e puniram países por comprarem armamentos russos.
As vendas para a China, o outro grande mercado russo de armas, declinaram substancialmente desde os anos de 2000, apesar de um leve ricochete em 2018. E, porquanto a China desenvolveu a sua indústria doméstica, ela também começou a exportar para mercados tradicionais russos no estrangeiro.
As lutas da indústria russa de defesa desde o começo da guerra na Ucrânia também forçaram o Kremlin a estender a mão para países recipientes. Em março de 2022, a inteligência estadunidense indicou que a Rússia pediu assistência militar à China, uma alegação negada tanto pela Rússia quanto pela China. Reporta-se também que a Rússia apelou para a Índia em busca de peças de reposição, buscou cartuchos de artilharia da Coreia do Norte e comprou drones e mísseis do Irã.
Contrastantemente, os EUA proveram à Ucrânia com US$ 30 bilhões de armas e veículos excedentes e algumas das suas armas mais recentes. Ao fazê-lo, os EUA enfraqueceram significativamente as capacidades militares russas, sem envolver diretamente as forças armadas estadunidenses. As exportações de armas dos EUA aumentaram em 2022, estimuladas pelas entregas à Ucrânia e outros aliados que estão cada vez mais desconfiados da Rússia e da China.
Outros países também buscaram tirar vantagens das lutas enfrentadas pela indústria de armas russas. As exportações francesas de armas aumentaram de 7% do total global de 2013 a 2017 para 11% de 2018 a 2022. A França também procurou rejuvenescer a sua imagem como o principal exportador de armas após o acordo AUKUS de 2021 entre a Austrália, os EUA e o Reino Unido acabou com um programa franco-australiano de alto perfil para submarinos, humilhando Paris.
Sendo a segunda maior fonte de armas da Índia, a França é a líder de um acordo para suprir 27 jatos de combate Rafale para a marinha indiana, já tendo suprido 36 para a Índia desde que um acordo foi assinado em 2016. À medida que as sanções impediram a capacidade da Rússia de prover peças essenciais, a Sérvia — um outro cliente de armas russas — declarou que também estava em conversações para fazer um pedido de jatos franceses.
A indústria de armamentos da Alemanha também exportou quantidades significativas nos anos recentes, sendo 2022 o segundo maior ano de exportações de armas na história alemã. Inicialmente, a coalizão de governo da Alemanha queria diminuir as exportações de armas do país, para evitar o envio de armas a países considerados como infratores dos direitos humanos, antes que a guerra na Ucrânia fizesse crescer as exportações.
No entanto, as dificuldades que muitos países europeus enfrentaram quando tentaram enviar tanques Leopard construídos pela Alemanha para a Ucrânia demonstraram algumas das questões subjacentes que afetam as indústrias ocidentais de armamentos. Muitos tanques Leopard não funcionavam bem e exigiam reformas significativas e peças adicionais, enquanto que outros países não estavam dispostos a ceder os poucos tanques funcionais na sua possessão. Apesar das centenas de tanques Leopard requisitados pela Ucrânia, apenas umas poucas dúzias foram entregues.
Os estoques de armas ocidentais também foram significativamente reduzidos, num esforço de reforçar as forças militares ucranianas. O foco em armas “de luxo” de alta tecnologia, por enquanto significa que os países europeus lutaram para fazer a transição às indústrias de produção em massa. O foco da Rússia em usar a artilharia e depender dos seus estoques de munições erodiram as vantagens tecnológicas e industriais do Ocidente ao forçar a Ucrânia a se engajar em batalhas de artilharia.
Tanto as indústrias de defesa dos EUA quanto da Rússia também têm lutado para produzirem drones baratos, que têm tido um impacto significativo nos conflitos recentes, mais notavelmente durante a guerra de 2020 entre a Armênia e o Azerbaijão. A Turquia, em particular, desenvolveu rapidamente a sua indústria doméstica de drones e os drones turcos têm sido usados com grande efeito contra as armas russas durante a guerra Armênia-Azerbaijão, bem como na Líbia e na Síria.
A Turquia vendeu muitos drones para a Ucrânia, enquanto o Irã vendeu o seu próprio arsenal para a Rússia. Tanto a Turquia quanto o Irã visam oferecer os seus produtos como alternativas baratas aos fabricantes ocidentais. No entanto, a Turquia ainda está em conversações para comprar sistemas de mísseis de defesa S-400 da Rússia. A sua provisão de armas para a Ucrânia, porquanto continue a negociar acordos de armas com a Rússia, demonstra a natureza complicada da indústria global de armamentos.
A guerra na Ucrânia continua a sublinhar quão integral a indústria de armas é para a geopolítica e a importância de ser capaz de fabricar armas baratas domesticamente. Por exemplo, a China não proveu armas nem à Ucrânia, nem à Rússia, mas o seu maior fabricante de drones civis, a DJI, é um dos fornecedores mais importantes das suas forças militares.
Os fabricantes de armas também devem ser cautelosos que as suas exportações um dia possam ser usadas contra eles. O fornecimento de armas da China para o Vietname para lutar contra as forças dos EUA nos anos de 1960 e 1970 as viu serem usadas contra os militares chineses durante a Guerra Sino-Vietnamita de 1979. Além disso, muitas armas estadunidenses dadas ao Afeganistão e o Iraque acabaram nas mãos dos Talibãs e do Estado Islâmico.
No tribunal da opinião pública, os exportadores de armas também são cada vez mais vistos como parcialmente responsáveis sobre como os recipientes usam os seus produtos. Os EUA têm sido criticados em anos recentes pelas suas exportações de armas para a Arábia Saudita – que está sob fogo pelos abusos de direitos humanos e pelo seu conflito no Iêmen. Apesar das alegações de armas ocidentais sendo contrabandeadas da Ucrânia tendo sido frequentemente desqualificadas, há uma preocupação que muitas das armas enviadas para os militares ucranianos acabam indo, ou irão, para o mercado negro.
Acima de tudo, as atuais entregas massivas de armamentos que seguem moldando o conflito na Ucrânia elevaram os perfis de importantes corporações multinacionais de armas, reforçando um dos aspectos mais desconfortáveis da guerra — a especulação pelo lucro.
John P. Ruehl é um jornalista australiano-estadunidense que vive em Washington, D.C. Ele é um editor-contribuidor do Strategic Policy e um contribuidor de outras publicações estrangeiras. O seu livro 'Budget Superpower: How Russia Challenges the West With an Economy Smaller Than Texas’ foi publicado em dezembro de 2022.
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