Com Bolsonaro, país troca altivez para ser motivo de zombaria, diz cientista político
Em entrevista, o professor de Geopolítica e Relações Internacionais Diego Pautasso antecipa os passos dos grandes atores globais nos próximos anos
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247 - Para o cientista político Diego Pautasso, a pandemia já começou a transformar o panorama internacional mostrando, por exemplo, os movimentos distintos de dois grandes protagonistas: os Estados Unidos, de Donald Trump, e a China, de Xi Jinping.
Autor de "China e Rússia no Pós-Guerra Fria”, livro publicado em 2011 que trata da trajetória de russos e chineses no período pós-guerra fria, Pautasso é mestre e doutor em Ciência Política pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e também colaborador do curso de Especialização em Estratégia e Relações Internacionais Contemporâneas da UFRGS.
Nesta entrevista aos jornalistas Ayrton Centeno e Walmaro Paz, do Brasil de Fato RS, ele traça um quadro do mundo em 2020, descreve os passos dos grandes atores globais nos próximos anos e lamenta o apequenamento do Brasil na cena internacional.
Diego Pautasso considera que a pandemia da Covid-19 já influenciou as relações internacionais. “Primeiro, com a maior crise econômica desde a Grande Depressão de 1930. Segundo, porque colocou em evidência as contradições sistêmicas em múltiplos níveis, como a fragilidade dos Estados de Bem-Estar no epicentro do sistema, justamente onde a pandemia se abateu de forma mais devastadora: EUA, Grã-Bretanha, Itália e Espanha. Terceiro, colocou em caminhos ainda mais divergentes os EUA, centrando suas ações em culpabilizar os chineses pela pandemia e atacar a Organização Mundial de Saúde (OMS) e a China, que priorizou fortalecer a OMS e liderar um movimento de conformação de políticas de saúde global para combater a Covid-19”.
Pautasso analisa a evolução das relações da China com o Brasil. “Desde o final do governo Dilma Rousseff houve uma retração do ativismo diplomático da Era Lula-Celso Amorim. No governo Temer, diversas outras iniciativas refluem ou são interrompidas.
Entretanto, apenas com Bolsonaro linhas históricas da política externa brasileira foram finalmente descontinuadas: a defesa do multilateralismo, da solução negociada de conflitos, do não-alinhamento, da ênfase na independência e busca pelo desenvolvimento, etc. Ou seja, está se desenhando um alinhamento submisso ao centro do sistema de inéditas proporções, absolutamente nocivo para os interesses nacionais.
Emblemático disso, é a disfuncional e irresponsável condução da diplomacia com aquela que é nossa principal parceira comercial desde 2009, a China. Aliás, justamente com o principal polo geoeconômico do mundo, responsável por 80% do superávit comercial do Brasil em 2019 e, de quebra, líder na produção de Equipamentos de Proteção Individual (EPIs) em saúde no contexto da pandemia. Infelizmente, o país que recentemente detinha protagonismo e altivez em suas participações nos BRICS, nas organizações internacionais e em mecanismos de integração regional, atualmente é motivo de zombaria por suas decisões políticas e diplomáticas”.
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