Colômbia vive expectativa com processo de paz
Talvez nenhuma outra nação latino-americana esteja vivendo um momento tão decisivo na sua história. Os diálogos entre governo e FARC e as novas plataformas amplas de esquerda, como a Marcha Patriótica, possibilitam novos cenários em um país acostumado com a violência; reportagem de Matheus Lobo Pismel e Rodrigo Simões Chagas, de Bogotá, especial para o 247
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Matheus Lobo Pismel e Rodrigo Simões Chagas, de Bogotá, especial para o 247
As Forças Armadas Revolucionários da Colômbia (FARC-EP) e o governo colombiano estão próximos de concluir o primeiro dos cinco temas da mesa de diálogos de Havana: desenvolvimento agrário integral. Na última quarta-feira, o chefe negociador da comissão de paz do governo, Humberto de Calle, declarou que as questões mais importantes do primeiro ponto - o acesso e o uso da terra - estão quase acordadas. O próximo tema, também considerado crucial, é sobre a participação política da guerrilha.
Esse ponto torna-se decisivo porque o histórico de garantias democráticas no país não é dos mais animadores. Um exemplo é o caso da União Patriótica, partido político criado pelas FARC em 1985, como resultado de um acordo de paz com o governo de Belisario Betancur. A tentativa da guerrilha de ingressar na política institucional e disputar as eleições foi freada por um genocídio político. Estima-se que foram assassinados aproximadamente mil partidários, entre os quais, dois candidatos à presidência.
O professor da Universidade Nacional Carlos Medina Gallego, que se considera o "biógrafo das guerrilhas" e dedicou grande parte da sua trajetória acadêmica ao estudo do conflito colombiano, é otimista em relação ao atual processo de paz. "Está andando surpreendentemente bem. Nunca se havia alcançado na história dos diálogos de paz neste país mais acordos do que agora em Havana", avalia o pesquisador, com a autoridade de quem foi o organizador do Fórum de Política Integral Agrária e redigiu o documento final que direciona as discussões sobre o tema em Havana. Ele também será responsável pelo fórum prévio ao tema da participação política, que deve reunir mais três mil delegados de todos os setores sociais, de 28 a 30 de abril, em Bogotá.
Os diálogos de paz com as FARC, iniciados em outubro do ano passado, são uma aposta política do presidente Juan Manuel Santos, que tenta a reeleição no ano que vem. "Santos quer a paz, mas não por ser um humanista. A guerra colombiana é um grande obstáculo para modernizar o país. E não é tão difícil de resolver, pois é uma guerra em que se fala de reformas que, além de tudo, o país necessita", argumenta a jornalista Marta Ruiz, da revista Semana, a maior da Colômbia.
Direita se divide
Apesar de Juan Manuel Santos ter sido lançado pelo ex-presidente Álvaro Uribe como candidato da continuidade, o processo de paz começou a dividir o setor hegemônico colombiano. Santos foi ministro de Defesa no governo Uribe, mas, ao ser eleito, reformulou a coalisão de poder e começou a se afastar de seu antecessor. "á como presidente, Santos diz 'eu vou fazer meu governo, com minhas ideias'. O que ele estava fazendo como ministro era ganhar o voto dos uribistas. Se não tivesse sido empurrado por Uribe, dificilmente se elegeria", avalia Ruiz, que define Santos como "um homem que não tem convicções, senão interesses".
Para o jornalista Carlos Lozano, diretor do semanário Voz, do Partido Comunista Colombiano, as diferenças entre Santos e Uribe são de forma, mas não de conteúdo. "Alguns na esquerda se deixaram atrair pelo discurso de Santos de que tinha a 'chave da paz'. E, claro, em matéria de paz avançou muito mais que Uribe, que queria resolver o conflito pela guerra. Mas eles, no fundo, querem a mesma política: o neoliberalismo", defende o jornalista.
Lozano, que é um dos quatro porta-vozes do movimento político e social Marcha Patriótica, acredita que a diferença está nos setores da oligarquia que cada um representa. "Santos vem de uma oligarquia tradicional, ligada fundamentalmente à indústria e ao sistema financeiro", enquanto que Uribe está ligado à uma "oligarquia mafiosa, paramilitar e narcotraficante".
O ex-presidente responde atualmente a um processo judicial, movido pelo deputado Ivan Cepeda, no qual é acusado de envolvimento direto com grupos paramilitares. "Uribe é um homem que encarnou um projeto supremamente conservador, que busca o prolongamento da guerra para que sirva de cenário para usurpação de riquezas e de territórios camponeses", enfatiza Cepeda.
O afastamento entre Santos e Uribe posicionou o ex-presidente como o maior opositor à mesa de diálogos de Havana. O resultado dos diálogos é fundamental para definir o cenário da eleição presidencial do ano que vem, que está se desenhando como uma disputa entre Santos e um candidato lançado por Uribe. Prova do acirramento na relação entre os dois são as declarações do presidente na última semana, quando acusou Uribe de liderar um grupo que "está inventando todo tipo de histórias para tratar de envenenar" o processo de paz.
Movimentos populares se fortalecem
Neste cenário possível de fim do conflito armado que dura mais de 50 anos, as expressões sociais e políticos de esquerda começam a acumular forças. Para a próxima terça-feira, 9, o movimento Marcha Patriótica está impulsionando a Marcha pela Paz com Justiça Social e Defesa do Público. Esperam-se aproximadamente 200 mil pessoas de todas as regiões da Colômbia, e de distintas tendências.
"A esquerda colombiana ainda tem muito que aprender, muitas visões dogmáticas para deixar para trás, mas o tema da paz é onde encontramos pontos em comum, sobretudo, na necessidade de trabalhar conjuntamente", analisa Boris Duarte, porta-voz do Congreso de los Pueblos, outra plataforma de esquerda que, assim como a Marcha Patriótica, reúne centenas de organizações campesinas, estudantis, indígenas, entre outras.
Quem também vai apoiar a marcha de nove de abril é o presidente Santos, surpreendendo os setores que lançaram a mobilização. A maior expressão partidária de oposição, o Polo Democrático Alternativo (PDA), não aderiu justamente por considerar que seria uma forma de legitimar o governo. Já o prefeito de Bogotá, Gustavo Petro, do movimento Progressistas (dissidência do PDA) apoia e ajuda a construir a mobilização da próxima terça-feira.
"O presidente disse que vai marchar e nos deixou numa situação delicada. Queremos que saia a defender o processo, mas também brigamos por temas cruciais no processo de paz. Exigimos um cessar-fogo bilateral, participação da sociedade civil e uma assembleia nacional constituinte", explicou David Florez, porta-voz da Marcha Patriótica, sobre a tarefa de conciliar os interesses distintos representados na manifestação. "Temos que lutar contra a ultradireita para fortalecer a mesa de Havana e, ao mesmo tempo, lutar contra Santos para que os acordos avancem mais. E como lutar com Santos sem fortalecer a ultradireita? É muito difícil", completa Florez.
A data da marcha relembra a morte do líder popular de maior expressão da história recente da Colômbia, Jorge Eliécer Gaitán, do Partido Liberal. Foi assassinado em 1948, quando era candidato à presidência. Sua morte gerou uma onda de revoltas violentas que ficou conhecida como "Bogotazo" e, posteriormente, a uma guerra no campo entre liberais e conservadores.
Matheus Lobo Pismel e Rodrigo Simões Chagas mantêm o blog Colômbia em Marcha
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