CIA enganou Casa Branca sobre interrogatórios “brutais”
Programa de interrogatórios duros de suspeitos de terrorismo, que incluíam entre os métodos adotados a simulação de afogamento, foram mais brutais do que a própria agência reconheceu, segundo um relatório do Senado apresentado nesta terça-feira; programa foi ineficaz e nunca conseguiu evitar um único complô, de acordo com o documento; presidente Barack Obama prometeu que métodos violentos não se repetirão
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Por Mark Hosenball
WASHINGTON (Reuters) - A CIA enganou rotineiramente a Casa Branca e o Congresso sobre seu programa de interrogatórios duros de suspeitos de terrorismo e, além disso, os métodos adotados, que incluíam a simulação de afogamento, foram mais brutais do que a agência reconheceu, segundo um relatório do Senado apresentado nesta terça-feira.
O programa, criado por duas empresas subcontratadas pela agência de inteligência com a finalidade de pressionar os suspeitos para que dessem informações após os atentados de 11 de Setembro de 2001, foi ineficaz e nunca conseguiu evitar um único complô, diz o relatório do Comitê de Inteligência do Senado.
O programa transcorreu de 2002 a 2006 e envolveu interrogatório de presos da Al Qaeda e outros em centros de detenção secretos em vários países, incluindo Afeganistão, Polônia, Romênia e Tailândia.
O relatório, divulgado após uma investigação de cinco anos, assinala que as técnicas utilizadas foram "muito mais brutais" do que a CIA informou ao público ou às autoridades. Sua divulgação levou ao reforço da segurança nas instalações dos Estados Unidos no exterior.
"Este documento examina a detenção secreta pela CIA no exterior de pelo menos 119 pessoas e o uso de técnicas coercitivas de interrogatório – em alguns casos, equivalentes a tortura", disse a presidente do comitê, Dianne Feinstein.
A CIA rejeitou as conclusões, dizendo que os interrogatórios resultaram, sim, em informações valiosas. Republicanos condenaram o relatório – que foi elaborado pelos democratas, majoritários no comitê – e afirmaram que ele irá deixar os norte-americanos em perigo.
Os exemplos específicos de brutalidade citados incluem a morte por hipotermia, em novembro de 2002, de um detento mantido parcialmente nu e acorrentado a um piso de concreto em uma prisão da CIA.
O relatório diz que a CIA tentou justificar a sua utilização do programa dando exemplos do que chamou de planos terroristas "frustrados" e capturas de suspeitos, mas as "representações eram imprecisas e estavam em contradição com os próprios registros da CIA".
PRIVAÇÃO DE SONO
Alguns prisioneiros foram privados de sono por até 180 horas, às vezes com as mãos algemadas acima dss cabeças, e o relatório registrou casos de "nutrição retal" ou "hidratação retal" sem qualquer necessidade médica documentada.
O texto descreve uma das prisões secretas da CIA, cuja localização não foi identificada, como um "calabouço" onde os detidos eram mantidos em total escuridão e acorrentados em celas isoladas, bombardeados com ruído alto e recebendo apenas um balde para servir de privada.
Segundo o relatório, durante uma das 83 ocasiões em que foi submetido a uma técnica de simulação de afogamento que a CIA chama de "waterboarding", um detento da Al Qaeda conhecido como Abu Zubaydah ficou "completamente em estado inconsciente, com bolhas subindo pela boca totalmente aberta", embora ele mais tarde tenha sido reavivado.
O relatório disse que os registros da CIA mostram que sete dos 39 detidos da CIA submetidos a interrogatórios agressivos não revelaram nenhum dado de inteligência enquanto estiveram sob custódia da CIA. Outros inventaram histórias "resultando em dados duvidosos de inteligência".
Em um comunicado, o presidente Barack Obama afirmou que as técnicas prejudicaram os interesses norte-americanos no exterior sem servir aos amplos esforços de contraterrorismo. "Em vez de ser mais um motivo para combater velhos argumentos, espero que o relatório de hoje possa nos ajudar a deixar essas técnicas ao lugar ao qual pertencem, o passado", disse ele.
O diretor da CIA, John Brennan, reconheceu que o programa de detenção e interrogatório da CIA "teve deficiências e que a agência cometeu erros".
Mas ele negou que a agência tenha enganado alguém e disse que a avaliação da agência indica que os detidos que foram submetidos a interrogatórios agressivos "produziram, sim, dados de inteligência que ajudaram a frustrar os planos de ataque, capturar os terroristas e salvar vidas".
Obama promete que EUA não retomarão métodos brutais em interrogatórios
WASHINGTON (Reuters) - O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, prometeu nesta terça-feira que métodos violentos em interrogatórios não acontecerão em seu mandato, dizendo que as técnicas prejudicaram significativamente os interesses norte-americanos no exterior sem ajudar nos amplos esforços de contraterrorismo.
Obama emitiu um comunicado por escrito em resposta a um relatório do Senado que detalhou os procedimentos dos interrogatórios postos em prática em suspeitos de terrorismo nos anos que se seguiram aos atentados de 11 de setembro de 2001 nos EUA.
"Em vez de outra razão para retomar antigas discussões, espero que o relatório de hoje possa nos ajudar a deixar estas técnicas em seu lugar, no passado", disse.
Obama afirmou que o relatório documenta um programa perturbador envolvendo as técnicas de interrogatório intensificadas, usadas em suspeitos em instalações secretas fora de seu país.
"Ele reforça minha opinião de longa data de que estes métodos violentos não só foram incompatíveis com nossos valores como nação, mas não nos serviram nos esforços mais amplos de contraterrorismo, nem aos nossos interesses de segurança nacional", declarou.
Os métodos abalaram a posição dos EUA no mundo e tornaram mais difícil defender os interesses do país com aliados e parceiros, disse Obama.
"É por isso que continuarei a usar minha autoridade como presidente para fazer como que nunca mais recorramos a estes métodos", disse.
(Reportagem de Steve Holland)
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