Chile: Exército enfrenta suspeita de narcotráfico e de corrupção

A "bomba" sobre a cocaína encontrada pela polícia da Suíça em um contêiner das FFAA chilenas, na Suíça, foi detonada pela edição de 13 de dezembro passado, do semanário satírico The Clinic – espécie de O Pasquim chileno; o episódio continua a reverberar com insistência e sacudir a lembrança do tráfico de drogas promovido pela ditadura Pinochet na década de 1980 e foi mantido em completo sigilo durante três meses; reportagem de Frederico Füllgraf, de Santiago do Chile, especial para o 247

A "bomba" sobre a cocaína encontrada pela polícia da Suíça em um contêiner das FFAA chilenas, na Suíça, foi detonada pela edição de 13 de dezembro passado, do semanário satírico The Clinic – espécie de O Pasquim chileno; o episódio continua a reverberar com insistência e sacudir a lembrança do tráfico de drogas promovido pela ditadura Pinochet na década de 1980 e foi mantido em completo sigilo durante três meses; reportagem de Frederico Füllgraf, de Santiago do Chile, especial para o 247
A "bomba" sobre a cocaína encontrada pela polícia da Suíça em um contêiner das FFAA chilenas, na Suíça, foi detonada pela edição de 13 de dezembro passado, do semanário satírico The Clinic – espécie de O Pasquim chileno; o episódio continua a reverberar com insistência e sacudir a lembrança do tráfico de drogas promovido pela ditadura Pinochet na década de 1980 e foi mantido em completo sigilo durante três meses; reportagem de Frederico Füllgraf, de Santiago do Chile, especial para o 247 (Foto: Gisele Federicce)


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Frederico Füllgraf, de Santiago do Chile, especial para o 247

A "bomba" sobre a cocaína encontrada pela polícia da Suíça em um container das FFAA chilenas, na Suíça, foi detonada pela edição de 13 de dezembro passado, do semanário satírico The Clinic – espécie de O Pasquim chileno – após seu acesso ao texto da queixa-crime do general Mauricio Heine Guerra, solicitando instauração de inquérito ao Tribunal de Garantias de Talagante, na região metropolitana de Santiago do Chile.

Detalhe destacado pelos meios de comunicação do Chile, nos quais o episódio continua a reverberar com insistência e sacudir a lembrança do tráfico de drogas promovido pela ditadura Pinochet na década de 1980, é que o caso foi mantido em completo sigilo durante três meses, pois a operação da polícia suíça ocorreu no dia 2 de setembro de 2015 e o libelo do general Heine Guerra leva o carimbo do dia 13 de outubro.

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Assunto de Segurança Nacional

Estranho também o completo silêncio da imprensa suíça, excepcionalmente rompido pelo noticioso online, Zentral +, que em sua edição de 17/12 limita-se a uma nota de dez linhas, resumindo o noticiário chileno.

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Para bom entendedor: mais do que mero caso de polícia, a apreensão da cocaína chilena está sendo tratada como "segredo de Estado", pois o remetente da carga – as Fábricas e Oficinas do Exérdito (FAMAE) – instaurou processo de investigação entre a tropa e a Subsecretaria de Defesa remeteu o caso ao Conselho de Defesa do Estado, comandado pela presidente Michelle Bachelet. A droga virou assunto de Segurança Nacional.

"Espionagem" do Peru?

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Contudo, a cocaína é mesmo de procedência chilena?

Segundo a narrativa oficial do caso – a do Exército chileno – a estória teve início em meados de abril do ano em curso.

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Naquele mês, depois de cotejar orçamentos, a FAMAE emitiu uma orden de serviço à empresa World Transport International (WTI) para translado e embalagem de caixas de transmissão de veículos blindados, de Talagante a Valparaíso, operação realizada em 12 de junho de 2015. No principal porto chileno, a carga foi entregue aos cuidados da filial chilena da transportadora suíça, Fracht Chile, por sua vez contratada pela Ruag Defense, destinatária do recondicionamento das peças, na Suíça.

Segundo a FAMAE, em 21 de julho, a carga foi acondicionada pela Fracht em um container lacrado. Seis dias depois, zarpou de Valparaíso o navio que transportava o container, com destino a Rotterdã, na Holanda. De lá a carga seguiu por terra até Basileia, na fronteira com a Alemanha, onde foi fiscalizada pela alfândega e a droga apreeendida pela polícia suíça, em 2 de setembro. Nenhum documento oficial faz referência à quantidade de cocaína capturada, mas Jorge Molina, redator de The Clinic, indicou ao Brasil 247 tratar-se de 42 quilogramas.
Chama atenção que, baseando-se em despacho da embaixada do Chile em Berna, segundo o oficio reservado 1162, de 8 de outubro, só um mês depois o diretor da Divisão de Relações Internacionais da Subsecretaría de Guerra, René Fuentealba, comunicou-se com o diretor da FAMAE, general Mauricio Heine.

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Rapidamente, o Ministério Público do distrito de Oriente apurou que, antes de alcançar a Europa, o cargueiro fizera uma escala no porto de Callao, no Peru.

Desde então, todas as baterias – das FFAA, pelo Governo às mídias chilenas – voltam-se contra o malquisto país vizinho, ao qual o Chile perdeu 30.000 Km2 de águas oceânicas mediante veredicto da Corte Internacional de Haia, de janeiro de 2014.

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Alardeando um segredo público – o de que Callao é notório porto de embarque do tráfico de cocaína -, até mesmo o Ministro da Defesa, o ex-comunista e dirigente do Partido Radical Socialdemocrático (PRSD), José Antonio Gómez, insinua que o lacre do container possa ter sido violado no porto de Callao.

Pensando em voz alta, com vazamentos propositais à mídia nativa, setores das FFAA do Chile arriscaram um palpite ousado: não apenas Callao seria suspeito como porto predileto do narcotáfico, mas também como palco de uma operação de espionagem da inteligência peruana, interessada em bisbilhotar a tecnologia dos blindados utilizados pelo Chile.

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As rusgas entre os dois vizinhos não são novidade. Elas datam das guerras pela independência, no início do séc. XIX, e se manifestam com periódicas exibições de bíceps, como as manobras ocorridas ainda em novembro de 2015; primeiro do Chile, junto às fronteiras com a Bolívia e o Peru e, no final do mesmo mês, do Peru junto à fronteira chilena.

As acusações de espionagem são recíprocas, porém o episódio mais recente teve como protagonista ativo não o Peru, mas o Chile. Em abril de 2015, com discreta mensagem diplomática, o Governo Michelle Bachelet desculpou-se ao Governo Ollanta Humala pela cooptação de três oficiais da Marinha peruana pela Inteligência chilena, à qual teriam revelado segredos militares. Segundo a imprensa peruana, entre 2009 e 2010, o Chile operou uma notável rede de espionagem em território do vizinho andino, com quem disputa a supremacia militar na região central dos Andes.

Rompido o silêncio sobre a cocaína encontrada, no Chile a investigação oficial foi entregue a Brigada Antinarcóticos (Briant) da polícia federal, PDI Sur, sob o comando do comissário Marco Mercado.

"Milicogate": rede de corrupção e defraudações

A apreensão da cocaína, na Suíça, era a pior notícia para a imagem já derruída das FFAA chilenas, envolvidas no escândalo de codinome "Milicogate", investigado por Mauricio Weibel, redator da agência DPA no Chile e colaborador do semanário The Clinic.

Com o terceiro maior orçamento militar (5,5 bilhões de dólares) da América do Sul, atrás apenas do Brasil (35,0 bilhões de dólares) e da Colômbia (12,2 bilhões de dólares), contudo, as FFAA do Chile são as mais privilegiadas do Continente, pois além do Orçamento anual são financiadas pela Lei Reservada do Cobre, promulgada em 1958 pelo governo do general Carlos Ibañez del Campo, que obriga ao recolhimento de um percentual do lucro das empresas mineradoras de cobre (principal produto de exportação do país) para a compra e manutenção de armamento.

Porém, enquanto na era Ibañez a lei incidia com 15% sobre a tributação da mineradora estatal Codelco, durante a ditadura Pinochet a lei passou a ser aplicada ao lucro bruto, cobrando 10% do faturamento bruto e 10% sobre os depósitos internacionais das mineradoras.

Os lucros auferidos pela Lei Reservada do Cobre tornaram-se uma literal caixa-preta guardada a sete chaves pelas FFAA. Apenas entre 2004 e 2014, a participação das FFAA nos lucros da antiga estatal Codelco foi da ordem de 11,7 bilhões de dólares, dos quais 6,47 bilhões de dólares foram aplicados em desenfreada compra de armas.

Com o passar dos anos, e protegidos pela impunidade, alguns militares não resistiram ao butim, deturpando-o como festim para compras superfaturadas, notas frias e desfalques.

Mauricio Weibel – autor da série "Milicogate" em The Clinic e de uma reportagem para o programa "Informe Especial".da estatal TVN - advertiu que a roubalheira não pôde ser detectada pelo Poder Civil, exatamente porque os recursos não são contabilizados pelo Orçamento, mas estima que, apenas entre 2011 y 2014, o Estado tenha sido defraudado em pelo menos 10,0 milhões de dólares. Porém e à semelhança do "Petrolão" da era FHC, no Brasil, o esquema foi montado entre os anos 2000 e 2004, sugerindo que o tamanho do rombo seja muitas vezes maior.

A FAMAE e a cocaína preta de Pinochet

Capítulo virtualmente desconhecido no Brasil, devido à preguiça de redatores e descaso de editores, é o envolvimento das FFAA chilenas com a produção e o tráfico de drogas pesadas durante a ditadura de Augusto Pinochet.

Ninguém menos que o famigerado e recentemente falecido general Manuel Contreras - criador e comandante da sinistra DINA, responsável pela tortura de mais de 40.000, o assassinato de 2.000 e o desaparecimento de 1.500 chilenos oposicionistas – foi o autor da denúncia contra o narcotráfico da ditadura.

Um dos fundadores da Operação Cóndor, em 1988 Contreras alimentou a expectativa de uma saída negociada com os EUA, trocando sua extradição e mais do que certa punição como responsável, com Pinochet, em 1976, pelo assassinato de Orlando Letelier - antigo ministro do Exterior de Salvador Allende - e sua secretária, em Washington, pela entrega de informação sigilosa.

Sentindo-se traído por Pinochet, o ex-chefão da DINA surpreendeu a opinião pública ao denunciar Marco Antonio Pinochet Hiriart, filho primogênito do general, como eminência parda do esquema de narcotráfico chileno montado em Los Ángeles, na Califórnia, cujos principais atores eram o empresário Edgardo Bathich, o ex-marine norte-americano Iván Baramdyka, e seu principal distribuidor, Monzer Al Kassar.

Decidido a vingar-se dos Pinochet, Contreras apontou o Complexo Químico do Exército - instalado pela FAMAE na mesma Talagante de onde partiu o container com as caixas de transmissão para a Suíça – como laboratório clandestino de produção de cocaína.

O "diferencial" da cocaína produzida pela ditadura chilena era sua cor preta, um subterfúgio engenhado pelo químico da DINA, Eugenio Berríos, assassinado no Uruguay em 1992, em operação de queima de arquivo. Sua fórmula consistiu em mesclar o alcalóide com sulfato ferroso e outros sais minerais para impregnar a pigmentação, aumentando a aderência da droga a qualquer superfície e apagando o odor que permite detectá-la.

Durante vários anos, os carregamentos da droga partiam da FAMAE em veículos militares até o aeroporto internacional de Santiago, onde eram despachados em voos comerciais da então estatal LAN-Chile, com destino à Europa, ou - com escalas no Haití e nas Ilhas Canárias - transportados por aviões da britânica Quinn Freight, a mesma empresa usada naqueles anos pelos militares norte-americanos, Robert Mc Ferlane e Oliver North, para o tráfico de armas no episódio "Irã-Contras".

Sobre a cocaína preta de Pinochet a Justiça chilena tirou duas conclusões. A primeira é que o narcotráfico da ditadura financiou o aparelho de repressão da DINA, com milhares de violações de Direitos Humanos e, em segundo lugar, explicou a fortuna acumulada pelo ditador chileno em várias contas secretas no banco Riggs, dos EUA - operação conhecida no Chile como "Caso Riggs", que envolve o desvio de 21,3 milhões de dólares e que em maio de 2015 culminou com a condenação de seis generais e coronéis, cúmplices do ditador, que governou o Chile de 1973 a 1990.

 

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