Chile avança no combate ao financiamento empresarial de campanhas

“As empresas não poderão fazer doações de nenhum tipo. A transgressão dessas normas será considerada delito. Será o Estado que financiará o trabalho dos partidos. Para isso, eles terão que cumprir com as exigências e controles claros. Terão que reinscrever todos os seus militantes, para tornar válidos os seus registros. Terão que ser internamente democráticos, ter contabilidade transparente e fiscalizada. Abrir espaço aos novos líderes", disse a presidente Michelle Bachelet, em pronunciamento à nação

Michelle Bachelet, Executive Director of the United Nations Entity for Gender Equality and the Empowerment of Women (UN WOMEN),  briefs the press on the priorities for UN WOMEN for 2011.
Michelle Bachelet, Executive Director of the United Nations Entity for Gender Equality and the Empowerment of Women (UN WOMEN), briefs the press on the priorities for UN WOMEN for 2011. (Foto: Leonardo Attuch)


✅ Receba as notícias do Brasil 247 e da TV 247 no canal do Brasil 247 e na comunidade 247 no WhatsApp.

Por Marco Weissheimer, no Sul 21

O Chile foi sacudido no início desse ano com denúncias de corrupção atingindo políticos e empresários acusados de envolvimentos com práticas de lavagem de dinheiro, tráfico de influência e enriquecimento ilícito. Essas denúncias começaram em fevereiro, envolvendo o filho da presidenta Michelle Bachelet, Sebastián Dávalos, que renunciou ao cargo de assessor presidencial ainda em fevereiro, após uma reportagem publicada pela revista Qué Pasa, de Santiago. Segundo a publicação, Dávalos e a mulher, Natalia Compagnon, teriam conseguido um empréstimo bancário equivalente a US$ 10 milhões, sem renda suficiente para adquiri-lo pelos critérios do sistema bancário chileno. Com o dinheiro, o casal comprou terrenos que teriam sido vendidos por uma diferença de cerca de US$ 5 milhões.

Como assessor presidencial, Dávalos administrava projetos sociais do governo chileno e costumava acompanhar a mãe, que é solteira, em eventos oficiais. Mas as denúncias não parariam por aí e atingiriam também integrantes da oposição. No início de março, dois empresários e outras quatro pessoas, entre elas um ex-vice-ministro do governo anterior de Sebastián Piñera, foram presos, acusados de envolvimento com doações de campanha irregulares, crimes fiscais e emissão de notas fiscais adulteradas. Apontado como o maior escândalo de corrupção do Chile, o chamado “Caso Penta” envolve políticos e altos nomes do setor empresarial, e deu origem a uma comissão parlamentar de inquérito encarregada de investigar as irregularidades. A Justiça decretou a prisão preventiva dos dois donos do grupo Penta, uma das maiores holdings empresariais chilenas, acusados de crimes tributários e suborno.

continua após o anúncio

A partir daí o Ministério Público chileno passou a investigar o braço político o caso, chamando para depoimentos vários dirigentes políticos, em especial do partido direitista União Democrata Independente (UDI), acusados de envolvimento em um esquema de fraude fiscal e financiamento ilegal de campanhas políticas no país, similar ao que é investigado neste momento também no Brasil. Em um pronunciamento à nação no dia 28 de abril, Michelle Bachelet anunciou uma profunda reforma política e administrativa contra a corrupção e a abertura de um processo constituinte para redigir uma nova Constituição, em substituição àquela outorgada pelo ditador Augusto Pinochet em 1980. No dia 7 de maio, Bachellet solicitou a renúncia a todo seu gabinete e fixou um prazo de 72 horas para anunciar a sua nova equipe ministerial.

Pelo fim das doações de empresas a políticos

continua após o anúncio

Em seu discurso à nação, Bachelet defendeu mudanças constitucionais urgentes para desmontar o sistema no qual, segundo ela, a democracia e a política são capturadas pelo poder do dinheiro. Neste pronunciamento, a presidenta chilena propôs as seguintes medidas para mudar o sistema político-eleitoral do país:

“As empresas não poderão fazer doações de nenhum tipo. A transgressão dessas normas será considerada delito. Será o Estado que financiará o trabalho dos partidos. Para isso, eles terão que cumprir com as exigências e controles claros. Terão que reinscrever todos os seus militantes, para tornar válidos os seus registros. Terão que ser internamente democráticos, ter contabilidade transparente e fiscalizada. Abrir espaço aos novos líderes. Fazer o investimento necessário para ter uma melhor vida pública e uma maior participação da cidadania. Regularemos detalhadamente o financiamento das campanhas eleitorais. O importante deve ser o debate de ideias. Por isso, reduziremos o gasto. Só será permitido fazer propaganda em zonas delimitadas”.

continua após o anúncio

No dia 11 de março de 2015, Bachelet criou o Conselho Assessor Presidencial Contra os Conflitos de Interesse, o Tráfico de Influências e a Corrupção, que recebeu a tarefa de “propor um novo marco normativo que permita o cumprimento efetivo dos princípios éticos, de integridade e transparência, em seus aspectos legais e administrativos para obter um eficaz controle do tráfico de influências, prevenção da corrupção e dos conflitos de interesse nos âmbitos dos negócios, da política e do serviço público, assim como na relação entre esses setores”. Para elaborar seu informe final o Conselho realizou audiências públicas e criou um canal para receber propostas de cidadãos individualmente. Presidido por Eduardo Engel, professor titular de Economia na Universidade do Chile e professor visitante na Universidade de Yale, o conselho reuniu renomados pesquisadores chilenos das áreas do Direito, Ciências Sociais e Políticas, Economia e Desenvolvimento.

Desde o dia 11 de março, foram 45 dias de trabalho que envolveram 10 instituições estatais, 12 instituições ou organizações políticas, 12 especialistas internacionais (incluindo aí representantes do Banco Mundial e da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico), 51 organizações da sociedade e 53 propostas escritas apresentadas. Ao todo, foram realizadas oito audiências públicas nas cidades de Coquimbo, Valparaíso, Temuco, Concepción e Santiago, organizadas em torno de cinco grandes temas de debate: financiamentos de campanha, financiamentos de partidos, órgãos e fiscalização, conflitos de interesse e corrupção. Nestas audiências, 305 ideias foram apresentadas pelos participantes.

continua após o anúncio

Dez propostas contra a corrupção

Entre outras propostas, o relatório final do conselho propôs o fim do financiamento de empresas para partidos e candidatos em campanhas eleitorais, o estabelecimento de um teto para as doações de pessoas físicas e a criação de um fundo público para o financiamento das campanhas. Confira dez das principais propostas apresentadas pela Conselho Assessor Presidencial Contra os Conflitos de Interesse, Tráfico de Influências e Corrupção:

continua após o anúncio

1. Os funcionários das áreas sensíveis dos municípios devem realizar anualmente um curso sobre probidade e aqueles que atuam em áreas orçamentárias devem realizar um curso de contabilidade e gestão financeira municipal, ambos organizados pela Controladoria Geral da República.

2. Encarregados de compras e licitações e diretores de órgãos governamentais devem ser concursados.

continua após o anúncio

3. Os avaliadores de licitações públicas estarão obrigados a firmar uma declaração juramentada da ausência de conflitos de interesse na operação.

4. Adequar penas, tipificação e prescrições dos delitos de corrupção de acordo com os padrões internacionais.

continua após o anúncio

5. Pelo prazo de um ano, depois do término de suas funções, ministros, subsecretários e autoridades com papeis normativos e fiscalizadores não poderão trabalhar, prover serviços e manter vínculos comerciais com organizações privadas relacionadas com sua função prévia no governo.

6. Proibição de doações por parte de pessoas jurídicas para os partidos políticos e as campanhas eleitorais.

7. As pessoas físicas terão um teto para doação a partidos políticos e campanhas eleitorais.

8. Estabelecer um Fundo Público de Financiamento dos Partidos Políticos de aproximadamente $ 6.900 milhões de pesos anuais (valor equivalente ao gasto anual em campanhas eleitorais).

9. Estabelecer um período de pré-campanha, desde o dia das eleições primárias até 30 dias antes da eleição geral. Neste período, toda receita deve ser declarada à Justiça Eleitoral.

10. Estabelecer sanções proporcionais às faltas para os partidos que não cumpram os requisitos estabelecidos, podendo chegar até ao cancelamento do registro do partido.

iBest: 247 é o melhor canal de política do Brasil no voto popular

Assine o 247, apoie por Pix, inscreva-se na TV 247, no canal Cortes 247 e assista:

Comentários

Os comentários aqui postados expressam a opinião dos seus autores, responsáveis por seu teor, e não do 247

continua após o anúncio

Ao vivo na TV 247

Cortes 247