Centenas de milhares marcham pela paz em Bogotá

Colombianos foram às ruas para apoiar os diálogos de paz entre o governo e as FARC e exigir paz com justiça social; "Um Bogotazo pela paz", resumiu o prefeito da capital, Gustavo Petro; marcha pela Paz, Democracia e Defesa do Público foi convocada pela prefeitura de Bogotá e por uma série movimentos sociais e políticos, como Marcha Patriótica e Congreso de los Pueblos; leia reportagem de Matheus Lobo Pismel, correspondente do 247 em Bogotá

Centenas de milhares marcham pela paz em Bogotá
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Matheus Lobo Pismel, de Bogotá, especial para o 247 - No dia 9 de abril de 1948, foi assassinado, em Bogotá, Jorge Eliécer Gaitán, o maior líder popular que a Colômbia já viu. Sua morte gerou uma revolta violenta, que ficou conhecida como "Bogotazo" e, posteriormente, uma guerra de dez anos entre partidários liberais e conservadores, que deixou milhares de mortos nos campos colombianos. Como resposta ao pacto entre os dois partidos, que deu fim à guerra bipartidista, surgiram guerrilhas campesinas, como as FARC, e o conflito armado interno, que segue existindo.

Nesta terça-feira, 65 anos depois, centenas de milhares de colombianos enchem as ruas de Bogotá para apoiar os diálogos de paz entre o governo e as Forças Revolucionárias da Colômbia (FARC-EP) e exigir paz com justiça social. "Um Bogotazo pela paz", declarou o prefeito da capital, Gustavo Petro. A marcha pela Paz, Democracia e Defesa do Público foi convocada pela prefeitura de Bogotá e por uma série movimentos sociais e políticos, como Marcha Patriótica e Congreso de los Pueblos.

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O presidente Juan Manuel Santos também participou da mobilização. "Hoje todos os colombianos, não importa como pensem, estamos unidos pela paz", acredita. Por outro lado, os setores agrupados em torno dos ex-presidentes Alvaro Uribe e Andrés Pastrana, maiores crítcos do processo de paz de Havana, defendem que a marcha está infiltrada pelas FARC. "Usam a boa fé de alguns cidadãos para reviver combinação de terrorismo e política", disparou Uribe.

Com as eleições presidenciais do ano que vem, a marcha de hoje também serviu para marcar posições políticas. Apesar de Santos ter sido o candidato de continuidade do governo Uribe, os diálogos pela paz afastaram os dois políticos. A resolução do conflito é a grande aposta do presidente para a reeleição. "A guerra e as FARC sempre foram pretexto para que o país não mudasse. Uribe sabe que um acordo de paz com a guerrilha mudaria o país e, por isso, se opõe", analisa a jornalista Marta Ruiz, da revista Semana, a maior do país. "Uribe se reduziria a muito pouco. Alguém que fala do passado, que quer conservar o passado", acredita.

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Da mesma forma, a esquerda partidária, que tem maior expressão no Polo Democrático Alternativo (PDA), não participou da marcha por acreditar que seria uma forma de legitimar o governo Santos e fortalecer sua candidatura. Já o deputado indígena Hernando Hernandez, dissidente do PDA, e líder da Marcha Patriótica não acredita que a manifestação serve para respaldar o governo. "Não estamos de acordo com ele e temos claro os interesses que Santos defende, mesmo tendo aberto um processo de diálogo com as FARC. Santos aprofunda a aplicação do modelo econômico neoliberal no nosso país". Porém, Hernandez defende a necessidade de isolar as vozes da ultradireita. "A marcha é um respaldo e acompanhamento aos diálogos de paz. É uma grande mobilização contra vozes como as de Álvaro Uribe e Andrés Pastrana, que atiram pedras ao processo de paz e estão a favor da guerra", completa.

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"Somos mais! Agora sim a paz!"

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A grande maioria dos colombianos que marcharam hoje pela paz é gente comum: campesinos, indígenas, afrodescendentes, mulheres e estudantes. "Viajamos mais de oito horas, mas aqui estamos para mostrar ao governo colombiano que precisamos urgentemente terminar com esse pesadelo de mais de 50 anos de guerra", diz Aurelio Capacho, camponês e líder comunitário, que veio da região de Santander, centro-norte colombiano. "Estamos no meio de um fogo cruzado, por isso apostamos no processo de paz, apoiamos e respaldamos a vontade política do governo", afirma Capacho.

Da região do chamado Magdalena Médio, uma das zonas mais intensas do conflito armado, vieram sete mil pessoas, em 120 ônibus. "Viemos exigir das partes que estão sentadas na mesa de diálogos a participação das comunidades organizadas, de diferentes setores sociais, na mesa de negociação", conta Daniel Cristancho, da Associação Campesina do Vale do Rio Cimitarra (ACVC). "Por outro lado, também dizemos ao governo que necessitamos garantias para que essa mesa de diálogo continue, como o cessar-fogo bilateral".

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Em seu discurso, a ex-senadora Piedad Córdoba, principal nome da Marcha Patriótica, lembrou do que representa a morte de Gaitán. "Deixamos de nos estremecer com a morte, nos tornamos tolerante com o crime. Cada dia que termina sem que se assine um acordo de paz, mais vítimas se somam à lista do crime". Para ela, quem tem a "chave da paz" são todos os colombianos, por isso a importância da mobilização. "É a hora da paz da Colômbia. Tomos merecemos", anunciou, otimista, Córdoba.

Apesar de a esquerda institucional não estar presente na marcha, o professor e investigador do Instituto Latino-americano para uma Sociedade e um Direito Alternativos (ILSA) Jairo Estrada acredita que os movimentos populares vivem um momento promissor, enquanto a forças tradicionais se dividem. "O início e o desenvolvimento dos diálogos do governo com as FARC modificou o tabuleiro político. Um dos impactos é a ruptura do consenso dentro do bloco dominante de poder", afirma se referindo às rusgas entre Uribe e Santos.

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Estrada acredita que a Colômbia vive um aumento na mobilização e organização social e popular. "Não é um auge, mas há uma dinâmica em que se transita da resistência à proposta de projeto alternativo de poder. Há uma série de acúmulos como a Marcha Patriótica, o Congreso de los Pueblos". O professor também frisa a necessidade de estes movimentos seguirem caminhos de unidade. Para ele, a marcha de hoje é expressão dessa vontade.

Um dos porta-vozes do Congreso de los Pueblos, Boris Duarte, acredita que este nove de abril marca um ponto de ruptura no país. Além de ter sido um espaço de unidade, "diz aos inimigos do povo colombiano e aos beneficiários da guerra que estamos cansados disso, que o que queremos é resolver de uma vez por todas o conflito armado". Duarte acredita que o tema da resolução do conflito é o que hoje une a esquerda colombiana em busca da paz.

"Mas a paz não é somente o silêncio dos fuzis. A paz significa educação, saúde, participação, democracia. A paz significa exercício dos direitos, que é o que nós colombianos não temos. Nossa missão é associar a paz com mudanças estruturais", declarou Piedad Córdoba no centro de Bogotá para milhares de colombianos, em um discurso direcionado ao governo Santos.

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