Celso Amorim considera cancelamento de agenda com presidente português uma grosseria inominável
Jair Bolsonaro desmarcou um encontro com o presidente português previsto para segunda-feira (4) por causa de uma reunião do europeu com o ex-presidente Lula
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Denise Assis, especial para o 247 - No ano de 2022, em que Brasil e Portugal têm muito a dialogar sobre a efeméride dos 200 anos de independência do país, Bolsonaro cometeu uma das maiores descortesias que se pode cometer com um chefe de estado. Cancelou a agenda com o visitante, Marcelo Rebelo de Souza, presidente daquele país, que chegou hoje ao Brasil. O cancelamento se deu de maneira unilateral, por motivos meramente “emocionais” e de cunho pessoal. O “desconvite” teve origem na informação obtida por Bolsonaro, de que Rebelo de Souza visitaria também o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Fato que já foi veiculado na mídia, sem ser desmentido pela assessoria da presidência.
O gestou foi descrito como “uma grosseria inominável”, pelo embaixador, ex-chanceler e ex-ministro da Defesa, Celso Amorim. Mais do que afeito aos códigos e subtextos da diplomacia, Amorim não só censurou a atitude, como aludiu a grosseria ao que o próprio Bolsonaro já confirmou: o fato de o presidente português ter agendado também uma visita com o seu adversário na corrida presidencial. Foi o bastante para ser retirado da pauta. Ou, na linguagem das redes, ser cancelado.
Amorim lembrou que visitar ex-chefes de estado ou lideranças políticas é uma atitude comum nas visitas oficiais. E apontou, ainda, que esta não foi a primeira vez que Bolsonaro exibiu a sua descortesia a visitantes externos. “Ele já fez isto com o ministro francês das Relações Exteriores, Le Drian (Jean-Yves Le Drian)”, comentou, destacando que “desta vez é um chefe de Estado. Ele representa o Estado de Portugal. Ele não deu a razão, deduz-se (aludindo a desfeita à visita a Lula), o que também revela uma total falta de visão”, reforçou Amorim.
Para ele, “é uma coisa muito comum que num governo democrático um visitante estrangeiro, mesmo que ele venha visitar o então chefe de governo, ele visite também chefes da oposição. Até no governo Collor - Fernando Collor de Mello -, se eu não me engano, Fidel Castro visitou Lula. E em outras ocasiões também (houve isso). E na época era uma oposição considerada pelo establishment, mais extremada. É um total absurdo e diplomaticamente não se consegue compreender”, disse, repisando com a expressão: “é uma coisa absurda”.
Na época da visita do ministro das relações exteriores francês (agosto de 2019) reagiu com bom humor ao “bolo” recebido do chefe de governo do Brasil. “Todo mundo conhece as restrições próprias das agendas dos chefes de Estado. Ao que parece, houve uma emergência capilar. Essa é uma preocupação que é estranha para mim”, declarou Drian, referindo-se à sua calvície, em uma entrevista ao Journal du Dimanche, ao ser questionado se o cancelamento de última hora da reunião não seria uma humilhação.
Desta vez, o presidente Jair Bolsonaro (PL) decidiu que não se encontrará com o presidente de Portugal, Marcelo Rebelo de Sousa.
Em visita ao Brasil, o chefe de Estado português tinha uma audiência prevista com Bolsonaro na próxima segunda-feira (4), em Brasília. Porém, segundo notícia veiculada no portal G1, mandou avisar aos emissários portugueses que a audiência está cancelada, se Rebelo de Sousa tiver um encontro com o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Como a agenda com o ex-presidente está confirmada, conclui-se que Rebelo de Souza não será recebido no Alvorada.
Ainda de acordo com o que foi veiculado na mídia – esta informação é da agência Sputnik -, "já havia essa conversa. Tentou-se deixar claro que, se ele se encontrasse com o Lula, Bolsonaro não o receberia", afirmou um assessor do presidente.
Lula se encontrará na manhã deste domingo (03/07) com o presidente português, no Consulado Geral de Portugal, em São Paulo.
Rebelo de Sousa desembarcou ontem (01/07), no Rio de Janeiro. Hoje, sábado (02/07), ele participa da 26ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo e amanhã não desembarcará em Brasília, conforme plano original, que previa o encontro com Bolsonaro.
Na última vez que esteve no Brasil, durante a pandemia, o presidente de Portugal estranhou ser recebido por um Bolsonaro sem máscara e sem os devidos cuidados. E ainda teve de ouvir piadas de mau gosto.
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