Argentinos despertam do pesadelo neoliberal
Com uma provável vitória da chapa de esquerda Alberto Fernández-Cristina Kirchner, o povo argentino parece despertar de um período de desemprego, inflação e um dado definitivo o aumento da pobreza que agora atinge 13 milhões de cidadãos, um em cada três argentinos
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Por Murilo Matias, do canal Vozes Latinas - A dormir disse o presidente da Argentina, Maurício Macri, dirigindo-se à população após o resultado das primárias realizadas em agosto que confirmou a reprovação ao seu governo e a liderança da chapa à esquerda Fernandez-Fernandez, que inclui a ex-presidenta Cristina Kirchner na condição de vice. Ao contrário do desejo do atual mandatário, o povo argentino parece despertar de um período de desemprego, inflação e um dado definitovo o aumento da pobreza que agora atinge 13 milhões de cidadãos, um em cada três argentinos.
A questão alimentar é a que melhor expressa o aumento das desigualdades na segunda maior economia da América do Sul, atrás somente do Brasil. Apesar de grande produtora de alimentos com destaque para a soja, trigo e pecuária, o governo argentino decretou estado de emergência alimentar diante do aumento da fome entre sues cidadãos. As centenas de pessoas esperando pela janta solidária nas imediações do congresso na capital Buenos Aires revelam diariamente o grau avançado do problema.
"Por aqui vivemos uma crise enorme. O último cliente acaba de comprar duas bananas e duas laranjas, anos atrás as pessoas comprariam uma penca e uma saca das mesmas frutas. Isso para os que ainda tem algum dinheiro para comprar", compara Lili Ventura, dona de uma fruteira em Salta, no norte do país, onde a administração local criou o Plano Alimentar Salteno com a previsão de abertura das escolas públicas e centros de infância aos fins de semana, afora o financiamento para a compra de itens básicos para populações vulneráveis como idosos e indígenas para combater a desnutrição.
O menor consumo de leite desde 2003 e o quadro de momento contrastam com a situação quando Macri assumiu e o país encontrava-se fora do mapa da fome, após as três gestões lideradas pelo campo de esquerda com Nestor e Cristina Kirchner. Para piorar a inflação descontrolada faz com que hoje um argentino não saiba quanto pagará no mês seguinte pelos serviços de água, energia e habitação, cujos aluguéis sobem constantemente. Somada à incerteza monetária e à desvalorização do peso argentino, a diminuição do poder de compra das classes médias junto e a desindustrialização empurraram o país a níveis altos de desemprego mesmo em locais famosos como Mar del Plata, que apresenta desocupação recorde apesar do potencial turístico e da força da atividade pesqueira na região.
"Macri manteve os programas sociais, mas o plano econômico deu errado, foi mal e isso empobrece o povo. A realidade é que independentemente de quem vença neste domingo na segunda-feira precisaremos trabalhar", opina o funcionário público Otelo Maestri, técnico do ministério de Ciência, Tecnologia e Inovação.
Um perro, um livro e um Clio
Diariamente registra-se na Argentina greves de profissionais, manifestações de sindicatos e protestos de movimentos sociais, feministas e de minorias. Junto ao quadro de ebulição social provocada pelo avanço das privatizações e da precarização da qualidade de vida da população a anedota popular aponta que a esquerda voltará ao poder com uma campanha muito diferente das demais. "Vamos ganhar as eleições com um cachorro, referindo-se ao famoso animal de estimação de Alberto, um livro, o Sinceramente de Cristina e um Clio, o carro utilizado por Kicillof, candidato a governador de Buenos Aires", brinca Hebe de Bonafini, líder das madres da Plaza de Maio, que toda quinta-feira ocupam a praça para denunciar os assassinatos da ditadura argentina.
Ao contrário da campanha que promete colocar novamente a 'Argentina de pé', as peças do oficialismo praticamente escondem Macri. "A manipulação midiática e a desinformação transformar popular em populismo para confundir o povo, precisamos retomar a América Latina integrada e com espírito coletivo que se viu há alguns anos atrás e aqui será uma grande resposta a direita regional", observa o aposentado Mario Scioni.
Caso a vitória da chapa que reúne a mais importante parcela do peronismo - movimento político nacionalista inspirado no ex-presidente Peron - se confirme precisará atuar com urgência na reconstrução da máquina pública. O aumento da tuberculose, enfermidade da pobreza como é conhecida, revela o resultado negativo da retirada do status de ministério do setor da saúde, decisão que deve ser revertida a partir do próximo ano. A dolarização da economia é outro marco que deve ser revisado a fim de uma nova política econômica que reverta as distorções produzidas pela circulação da moeda estrangeira, para se ter ideia grandes transações na Argentina como a compra de imóveis são feitas em dólar.
A atuação política do judiciário deflagra outra estrutura cujas mudanças são exigidas pelo campo popular. "Na Argentina há aproximadamente 70 presos políticos, a quem o governo de Cambiemos (partido de Macri) define como políticos presos por delitos de corrupção. A primeira presa política foi Milagro Sala, líder da organização social Jujuy Tupac Amaru, la acusada de associação ilícita, extorsão e fraude ao Estado, a mesma acusação feita a ex-presidenta Cristina, afora a detenção de funcionários dos governos de Nestor e de Cristina, incluindo os ex-ministros de economia e planejamento", revela a advogada do segmento dos direitos humanos Marta Scavedri.
Apesar das críticas que se espalham pelo território os governistas se apoiam em alguns resultados regionais que dão algum fôlego à tentativa de Macri de se manter no cargo, a vitória no departamento de Mendoza aparece nessa perspectiva. "As pesquisas (que indicam vitória da oposição em primeiro turno) falharam. Há o ressurgimento da classe média trabalhadora que não quer o narcotráfico expandido-se, a falta de estatísticas oficiais e o aumento do estado e de seus funcionários", acredita o deputado de Cambienos Federico Angelini, de Rosário.
Por outro lado a expectativa do segmento progressista da Argentina se anima com a retomada de um amplo arco de alianças em toda a região. "As eleições da Bolívia, Uruguai e Argentina desenham um novo tridente ofensivo de um grande projeto libertador. Alberto fala com entusiasmo desses temas", projeta o peronista Pedro Fiori.
A reunião de mais de 200 mil mulheres na cidade de La Plata na metade de outubro durante o evento promovido movimento feminista pode ser o presságio de uma nova Argentina que deve sair das urnas neste domingo. Não somente a retomada da economia, mas a ampliação dos direitos está no horizonte dos que pretendem comemorar a retomada do campo progressista e os ares de esperança respirados ao largo do Rio da Prata.
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