Analista explica recentes fracassos do Pentágono e aponta caminho semelhante para Putin

Andrew Bacevich destaca o fracsso da política militar dos EUA e também que o governo de Vladimir Putin está seguindo o mesmo caminho fracassado na Ucrânia

Vista aérea do Pentágono
Vista aérea do Pentágono (Foto: REUTERS/Jason Reed)


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Artigo de Andrew Bacevich* originalmente publicado em www.tomdispatch.com, no dia 13/9/22. Traduzido e adaptado por Rubens Turkienicz com exclusividade para o Brasil 247

Há uma ampla concordância em Washington que o desempenho do exército russo na “Operação Militar Especial” do Kremlin em execução na Ucrânia se classifica entre ruim e verdadeiramente abismal. A questão é: Por quê? Nos círculos políticos estadunidenses, tanto civis quanto militares, a resposta parece ser qualquer coisa menos auto-evidente. A Rússia de Vladimir Putin tem teimosamente insistido em ignorar os princípios, as práticas e os métodos identificados como necessários para obter sucesso na guerra e aperfeiçoados neste século pelas forças armadas dos EUA. Simplificando, ao recusar-se a fazer as coisas da maneira estadunidense, os russos estão falhando contra um adversário muito mais fraco.E os analistas estadunidenses – especialmente os oficiais militares aposentados que opinam nos shows nacionais de notícias – concedem o fato de que outros fatores contribuíram para o pesaroso dilema da Rússia. Sim, a heroica resistência ucraniana – reminiscente da Guerra de Inverno de 1939-1940, quando a Finlândia se defendeu tenazmente contra as forças militares mais poderosas da União Soviética – pegou os russos de surpresa. A expectativa de que os ucranianos ficariam inertes enquanto os invasores varriam o seu país se provou fora de contexto. Além disso, as abrangentes sanções econômicas impostas pelo Ocidente em resposta à invasão complicaram o esforço de guerra russo. De forma alguma não menos importante, a enchente de armamentos modernos providos pelos EUA e seus aliados – Deus abençoe o complexo militar-industrial-congressional – aumentaram consideravelmente o poder de combate ucraniano.

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Mesmo assim, na visão das figuras militares estadunidenses, todos estes fatores são secundários à incapacidade (ou recusa) manifesta da Rússia de compreender os requisitos básicos da guerra moderna. O fato de que os observadores ocidentais possuem uma compreensão limitada de como funciona a liderança militar daquele país torna mais fácil a elaboração de tais julgamentos definitivos. Isto é como especular sobre as convicções mais íntimas de Donald Trump. Como ninguém realmente sabe disso, qualquer opinião forçosamente expressa adquire pelo menos uma credibilidade passageira.

A explicação estadunidense prevalente e autorreferenciada para a inépcia militar russa, enfatiza pelo menos quatro pontos-chave:

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  • Primeiro, os russos não entendem de operações conjuntas, a doutrina militar que provê a integração contínua de operações de terra, ar e marítima – não só no Planeta Terra, mas também no ciberespaço e no espaço extraterrestre;
  • Segundo, as forças terrestres russas não aderiram aos princípios da guerra com armamentos combinados, que foi inicialmente aperfeiçoada pelos alemães na Segunda Guerra Mundial – a qual enfatiza a colaboração tática íntima entre tanques, infantaria e artilharia;
  • Terceiro, a tradição russa de longa data de liderança de cima para baixo inibe a flexibilidade na frente de batalha, deixando que os oficiais juniores e os oficiais não-comissionados transmitam ordens que vêm do alto, sem demonstrarem capacidade alguma, ou o instinto, para exercitar iniciativas próprias;
  • Por último, os russos parecem carecer até da mais rudimentar compreensão de logística no campo de batalha – os mecanismos que provêm um suprimento contínuo e confiável de combustível, alimentos, munições, apoio médico e as peças de reposição necessárias para sustentar uma campanha.

Implícita nesta crítica, expressada por autoproclamados especialistas estadunidenses, está a sugestão de que, se o exército russo tivesse prestado mais atenção em como as forças militares dos EUA lidam com tais assuntos, eles teriam se dado melhor na Ucrânia. O fato que eles não o fazem – e, talvez, não o consigam – chega como boas notícias para os inimigos da Rússia, obviamente. Por implicação, a inépcia militar russa afirma de soslaio o domínio militar dos EUA. Nós definimos o padrão de excelência ao qual os outros só podem aspirar.

Reduzindo a guerra a uma fórmula

Tudo isso levanta uma questão a qual o 'establishment' de segurança nacional [dos EUA] permanece firmemente alheio: se operações conjuntas, táticas de armamentos combinados, liderança flexível e logística responsiva são fatores-chave para a vitória, por que as forças estadunidenses – supostamente possuindo estas qualidades em abundância – não foram capazes de ganhar os seus próprios equivalentes na Guerra da Ucrânia? Ao final de contas, a Rússia está emperrada na Ucrânia só por seis meses, enquanto os EUA ficaram emperrados no Afeganistão durante 20 anos e ainda têm tropas no Iraque quase duas décadas depois da sua desastrosa invasão daquele país.

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Para reformular a questão: Por que a explicação sobre o baixo desempenho russo na Ucrânia atrai tantos comentários presunçosos aqui, enquanto o baixo desempenho militar dos EUA é descartado?

Talvez “descartado” seja duro demais. Ao final de contas, quando as forças militares estadunidenses não conseguem cumprir as expectativas, sempre há alguns que se apressarão a apontar o dedo acusador aos líderes civis por estragar tudo. Com certeza, este foi o caso com a caótica retirada das forças militares estadunidenses do Afeganistão, em agosto de 2021. Os críticos foram rápidos em culpar o presidente Biden por aquele fiasco, enquanto os comandantes que presidiram a guerra lá por aqueles 20 anos escaparam praticamente incólumes. Efetivamente, alguns daqueles antigos comandantes – como o general aposentado e ex-diretor da CIA David Petraeus, também conhecido como “Rei David” – foram ansiosamente procurados pelas mídias após a queda de Kabul.

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Então, se o desempenho das forças militares dos EUA desde que foi lançada a Guerra Global contra o Terror, há mais de duas décadas, foi um desapontamento, para usar termos polidos – e esta seria a minha opinião –, pode ser tentador colocar a responsabilidade nos pés dos quatro presidentes, oito secretários de defesa (incluindo dois ex-generais) e os vários vice-secretários, subsecretários, secretários-assistentes e embaixadores que projetaram e implementaram a política estadunidense naqueles anos. Essencialmente, este se torna um argumento para sustentar a incompetência geracional. 

No entanto, existe um outro lado da moeda para aquele argumento. Isto rotularia os generais que dirigiram as guerras no Afeganistão e no Iraque (e outros conflitos menores como o da Líbia, da Somália e do Iraque) como sendo uniformemente incapazes para o seu trabalho – que é um outro argumento para a incompetência geracional. Membros do outrora-dominante fã clube de Petraeus poderiam citá-lo como uma notável exceção. No entanto, com o passar do tempo, as conquistas do Rei David enquanto general-chefe – primeiro em Bagdá e depois em Kabul – perderam muito do seu brilho. As “vitórias” do falecido “Stormin' Norman” Schwarzkopf e do General Tommy Franks foram diminuídas pelos eventos subsequentes.

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No entanto, permitam-me sugerir uma outra explicação para o hiato de desempenho que aflige o 'establishment' militar dos EUA no século XXI. O problema real não tem sido os civis arrogantes e mal-informados ou os generais que carecem das coisas certas, ou que sofrem de má sorte. Trata-se da maneira como os estadunidenses, especialmente aqueles que exercem influência nos círculos de segurança nacional – incluindo jornalistas, think tankers, dirigentes corporativos do complexo militar-industrial e membros do Congresso – acabaram pensando a guerra como um meio atrativo e de preços acessíveis para resolver problemas.

Os teóricos militares enfatizaram por um longo tempo que, pela sua própria natureza, a guerra é fluida, enganosa, caprichosa e permeada por acasos e incertezas. Os que a praticam tendem a responder sugerindo que, apesar de serem verdade, estas descrições não ajudam. Eles preferem conceber a guerra como essencialmente conhecíveis, previsíveis e eminentemente úteis – um canivete suíço da política internacional.

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Portanto, daí vem a tendência – tanto entre autoridades civis quanto militares em Washington, para não mencionar os jornalistas e intelectuais da política – de reduzir a guerra a uma frase ou uma fórmula (ou, ainda melhor, a um conjunto de siglas) –, de modo que o tema inteiro pode ser resumido em uma apresentação manhosa de 30 minutos de slides. Esta ânsia por simplificar – de resumir as coisas à sua essência – é qualquer coisa menos uma casualidade. Em Washington, a evitação da complexidade e da ambiguidade facilita o marketing (isto é, sacudindo o Congresso para obter dinheiro).

Para citar um pequeno exemplo disso, considere um recente documento militar intitulado 'Army Readiness and Modernization in 2022’, produzido pelos propagandistas da Associação do Exército dos EUA, que tem a intenção de descrever para onde o Exército dos EUA está indo. Ele identifica “oito equipes interfuncionais” constituídas para focalizar em “seis prioridades”. Se forem adequadamente dotadas de recursos e vigorosamente acionadas, essas equipes e propriedades garantirão, alega o documento, que “o Exército mantenha uma vantagem em todos os domínios contra todos os adversários em futuros combates”.

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Pondo de lado o desconfortável fato que, quando valia de verdade no ano passado em Kabul, as forças armadas estadunidenses demonstraram qualquer coisa menos qualquer vantagem em todos os domínios. Mesmo assim, o que a liderança do Exército tenciona fazer entre agora e 2025 é criar “um exército transformado em domínios múltiplos” ao colocar em campo uma pletora de novos sistemas descritos em uma nevasca de acrônimos:  ERCA, PrSM, LRHW, OMVF, MPF, RCV, AMPV, FVL, FLRAA, FARA, BLADE, CROWS, MMHEL, e assim por diante, mais ou menos ad infinitum.

Talvez você não se surpreenda de saber que o plano do Exército – ou melhor, a sua visão – para o seu futuro evita a mais leve menção aos custos. Ele tampouco considera as potenciais complicações – adversários equipados com armas nucleares, por exemplo – que poderiam interferir com as suas aspirações de dominar tudo.

No entanto, o documento merece a nossa atenção como um exemplo exótico do pensamento do Pentágono. Ele provê a resposta preferida do Exército a uma pergunta de importância quase existencial – não “como pode o Exército ajudar a manter os estadunidenses seguros?”, mas “como pode o Exército manter e, idealmente, aumentar o seu orçamento?”

Oculta dentro da pergunta está uma suposição implícita que suportar mesmo a pretensão de manter os estadunidenses seguros requer um alcance militar global que mantém uma presença global massiva. Dadas as espetaculares descobertas do Telescópio James Webb, talvez a palavra galáctica um dia substituirá a palavra global no léxico do Pentágono. Neste ínterim, enquanto mantém talvez 750 bases militares em todos os continentes, exceto a Antártica, que os militares rejeitam imediatamente a proposição de defender os estadunidenses onde eles vivem – isto é, dentro das fronteiras dos 50 estados que compõem os EUA podem ser suficientes para definir o seu propósito abrangente.E aqui nós chegamos ao cerne da questão: globalismo militarizado, o paradigma preferido do Pentágono para política básica, se tornou cada vez mais inacessível. Com o passar do tempo, isso também se tornou irrelevante. Os estadunidenses simplesmente não têm dinheiro para satisfazer as pretensões orçamentárias forjadas no Pentágono – especialmente aquelas que ignoram as preocupações mais elementares que nós enfrentamos – incluindo as doenças, as secas, os incêndios, as enchentes e a elevação do nível do mar, sem falar em evitar o potencial colapso da nossa ordem constitucional. Querer dominar tudo é de duvidosa relevância para tais ameaças.

Para prover a segurança e o bem-estar da nossa república, nós não precisamos aumentar ainda mais as operações conjuntas, as táticas de armamentos combinados, as lideranças flexíveis e a logística responsiva. Em lugar disso, nós precisamos de uma abordagem inteiramente diferente para a segurança nacional.

Estados Unidos, voltem para casa antes que seja tarde demais

Dado o precário estado da democracia estadunidense, apropriadamente descrito pelo presidente Biden no seu recente discurso na Filadélfia, a nossa prioridade pressionante é a de consertar o dano causado ao nosso tecido político doméstico e não de engajar-nos em outra rodada da “competição de grandes potências” sonhada por mentes febris em Washington. Simplificando: a Constituição é mais importante que o destino de Taiwan.Eu peço desculpas: Eu sei que eu blasfemei. Mas os tempos atuais sugerem que nós pesemos os prós e os contras da blasfêmia. Tendo pessoas sérias advertindo publicamente sobre a abordagem possível para uma guerra civil e muitos dos nossos compatriotas demasiadamente armados dando as boas-vindas a esta perspectiva, talvez seja chegado o momento de reconsiderarmos as premissas dadas-de-barato que têm sustentado a política de segurança nacional dos EUA desde imediatamente após a Segunda Guerra Mundial.

Mais blasfêmias! Será que eu acabo de defender uma política de isolacionismo?

Que os céus nos protejam! Eu aceitaria, ao invés disso, um mínimo de modéstia e prudência, juntamente com um respeito vívido pela guerra (ao invés de um afeto excessivo por ela).

Eis aqui a encruzilhada não-reconhecida de ligação na qual o Pentágono se colocou – e a todos nós: ao se preparar para combater (mesmo que ineficazmente) em qualquer lugar, contra qualquer adversário e em qualquer tipo de conflito, ele não se encontra preparado para combater em lugar algum em particular. 

Os estadunidenses gastam muito tempo atualmente tentando entender o que faz Vladimir Putin funcionar. Eu não finjo sabê-lo e tampouco me importo muito com isso; no entanto: o mergulho de Putin na Ucrânia confirma que ele nada aprendeu sobre a loucura a política militar dos EUA após os eventos de 11 de setembro de 2001.

Será que nós, por nossa vez, aprenderemos algo da loucura de Putin? Não conte com isso. 

*Andrew Bacevich, analista regularmente publicado no website TomDispatch, é o presidente do 'Quincy Institute for Responsible Statecraft'. O seu livro mais recente, coeditado com Danny Sjursen, é intitulado 'Paths of Dissent: Soldiers Speak Out Against America's Misguided Wars'. Seu próximo livro na editora Dispatch, 'On Shedding an Obsolete Past: Bidding Farewell to the American Century' será publicado em novembro de 2022.

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