Além de humilhar, Trump manda em Bolsonaro e quer fazer do Brasil seu agente na ONU
O jornalista Jamil Chade, que acompanha as atividades da ONU em Genebra, publica em seu blog neste sábado uma reportagem que vale como uma grave denúncia. Nos bastidores, a guinada ideológica na política externa brasileira foi resultado de uma pressão direta dos EUA
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247 - O jornalista Jami Chade, especializado no acompanhamento dos temas ligados aos direitos humanos na Organização das Nações Unidas (ONU), em Genebra, relata que ocorreu uma transformação sem precedentes da diplomacia do Brasil, atendendo a pedidos vindos diretamente de Washington.
"Em março, a Comissão sobre o Estatuto da Mulher se reuniria em Nova Iorque e, de repente, delegações estrangeiras e – mesmo o diplomatas brasileiros – descobririam que o Brasil estava prestes a passar por uma mudança profunda em seu tradicional posicionamento sobre igualdade de gênero e direitos das mulheres e meninas, com impacto sobre as questões de saúde sexual e reprodutiva", escreve o jornalista.
"Naqueles dias, os representantes do Itamaraty na ONU, em Nova Iorque, passaram a ser procurados pelo governo dos EUA para reuniões. Nelas, os americanos insistiam em convencê-los a adotar uma nova linha. Na agenda, um posicionamento ultraconservador que vetaria referências a termos como educação e direitos sexuais e reprodutivos".
"A lógica era de que todos essas referências em textos oficiais da ONU eram formas para introduzir a legalização do aborto no direito internacional, uma interpretação que não era compartilhada nem pelo Brasil e nem por dezenas de outras delegações. O governo americano não fazia parte da Comissão e, portanto, precisava de aliados. O Brasil seria um deles".
O jornalista informa que diplomatas brasileiros em Nova Iorque resistiram a essa guinada e às pressões dos Estados Unidos. Mais grave de tudo foi que o Departamento de Estado aproveitou a ocasião da visita de Bolsonaro aos Estados Unidos para fazer com que essas pressões chegassem, dias antes da visita, diretamente ao novo ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo.
"Em Brasília, o gabinete do ministro recebeu as explicações do governo americano sobre a necessidade de que o Brasil mudasse de posição e atuasse em linha com a visão dos EUA", conta o jornalista.
Assim, faltando apenas quatro horas para a adoção de um texto final da conferência sobre o fortalecimento dos direitos das mulheres, a missão do Brasil em Nova Iorque receberia um novo discurso e novas orientações.
"No telegrama, uma reviravolta completa e as ordens eram radicalmente diferentes de tudo o que o Brasil representou no debate internacional por mais de 20 ano"s. "Assim, falando no encerramento da Comissão sobre o Estatuto da Mulher no dia 22 de março, os representantes do Itamaraty anunciaram que se dissociavam de diversos trechos de um texto que havia sido adotado por unanimidade e que reforçava os direitos das mulheres".
"Ali estavam já os pilares do que seria a política externa ideológica do Brasil e, em muitos casos, atendendo a pedidos americanos. "O governo americano, para o período entre 2020 e 2022, não faz parte do Conselho de Direitos Humanos da ONU. Mas, assim como na Comissão sobre Mulheres, sabe que conta com o Brasil para assumir o desgaste da agenda ultraconservadora no centro dos debates da ONU", escreve Jamil Chade.
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