A vitória de Trump e o que resta de vida inteligente no jornalismo
"Donald Trump foi a única escola possível para uma parcela que desejava dizer não. E que dizendo, com ele, disse sim a tudo que não quer. Mas um sim com som de não, que Hilary não lhe daria", diz Fernando Brito, editor do Tijolaço
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Por Fernando Brito, editor do Tijolaço
Contam-se às dúzias os artigos, na internet, proclamando a estupidez do povo americano em eleger Donald Trump.
Mas nos dedos das mãos é possível enumerar os que entendem que foi muito menos uma conspiração conservadora – a vitória de Hillary mais propriamente seria, pela união mídia + mercado que a embalou – e muito mais.
Que o eleitorado conservador e reacionário votou em Trump é algo que se enquadra no famoso “até aí morreu Neves”.
Ipanema votou Crivella, quer prova maior?
O que leva, porém, gente simples da periferia, do interior depauperado pela concentração econômica votar num candidato conservador?
Como diz Glenn Grenwald, em belo artigo no The Intercept, culpar racismo e sexismo por isso é raso como uma poça d’água.
Culpar o povo, como fez Paul Krugmann, uma – como diriam os mexicanos desprezados pelo candidato republicano – uma tontería.
Muito mais lúcida foi Patricia Campos Mello que, na Folha, diz que “o fato é que o problema foi surdez. Surdez generalizada aos recados dos brancos dos dois lados do Atlântico, que se sentem injustiçados, que veem suas vidas piorando, sempre culpando o “outro”. Seja o muçulmano, o imigrante, o hispânico ou o negro.”
Numa tradução brasileira, o político, o miserável, o lgbt, o desgraçado que, como o seu odiador, faz parte do povo e não reivindica como ele, mas como um ente específico, a quem um “maldito” governo progressista dá atenção especial, em seu detrimento.
Quanto perdemos por ignorar e deixar que fosse corroído o conceito de povo?
Quanto contribuímos para isso formando nossos conceitos excludentes, de tribos, de grupos?
Glenn Greenwadl escreve no The Intercept:
As pessoas frequentemente falam sobre “racismo/sexismo/xenofobia” versus “sofrimento econômico” como se fossem totalmente distintos. É claro que há elementos substanciais de ambas as coisas na base eleitoral de Trump, mas as duas categorias estão intimamente ligadas: quanto mais sofrimento econômico as pessoas enfrentam, mais irritadas ficam, e se torna mais fácil direcionar sua insatisfação a bodes expiatórios.
Houve vozes nem tão à esquerda a falar da vitória de Trump com as quais concordo e às quais me associo numa autocritica de te-lo feito demônio (o que será muito menos do que os atuais) e ter desprezado a crítica ao inferno, como a do escritor português Miguel Esteves Cardoso, a que muitos acham de direita, mas ninguém acha burro.
Donald Trump foi sujeito à maior e mais violenta campanha de ataques pessoais que alguma vez vi na minha vida. Todos as principais publicações alinharam entusiasticamente. Sem recorrer a sites de extrema-direita o único site que defendia Trump foi o extraordinário Drudge Report. Foi só através dele que comecei a achar – e aqui vim dizer – que o eleitorado reage sempre mal às ordens paternalistas dadas por uma unanimidade de comentadores, jornalistas e celebridades.
A eleição de Donald Trump foi um triunfo da democracia e uma derrota profunda dos meios de comunicação social.
Claro que Trump não é nenhum outsider. É um bilionário que sempre fez parte da ordem estabelecida, da elite que dá as ordens e manda na economia dos EUA. É um amigo de Hillary e Bill Clinton que só se tornou ex-amigo porque lhe deu na gana ser presidente dos EUA.
Agora é. Conseguiu o que queria. Há de voltar as costas ao eleitorado que o elegeu logo que perceba que a única coisa que esse eleitorado tinha para lhe dar já foi dado: os votos de que ele precisava para ser eleito.
Não é Trump que tem de dar uma reviravolta. Somos nós. Trump ganhou porque foi eleito. Nós perdemos porque fomos derrotados pelos nossos próprios preconceitos e pelo excesso de zelo com que perseguimos a vitória de Hillary Clinton. (…)
Mas um sim com som de não, que Hilary não lhe daria.
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