A década do kirchnerismo
O apoio da população às mudanças, ratificado todas as vezes em que os argentinos foram chamados às urnas, inclusive na eleição da presidenta Cristina Kirchner em 2011, deixa claro que a Argentina segue trajetória sem volta e dificilmente aceitará retroces
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O kirchnerismo completou dez anos à frente do governo da Argentina com um saldo bastante positivo de avanços e reformas, contradizendo seus críticos mais ferrenhos, apressados em classificar as administrações de Néstor Kirchner (2003-2007) e Cristina Kirchner (a partir de 2007) como a "década perdida".
O saldo desses dez anos de governos progressistas mostra o quanto são distorcidas as análises feitas pela mídia e pela oposição. Entre 2003 e 2012, a Argentina experimentou uma forte guinada rumo à democratização e foi o quarto país da América Latina que mais cresceu economicamente, expandindo-se a uma taxa anual de 5,8%, atrás apenas de Panamá, Peru e Uruguai. O desemprego foi drasticamente reduzido de 17,3% para 7,9%, enquanto a pobreza caiu de 54% para 21% -- dados de especial significado, ainda mais em meio ao contexto de desemprego que assola o mundo pós-crise econômica internacional.
Essa retomada do crescimento econômico e social não significa que ainda não haja muitas questões a serem enfrentadas. Aliás, não poderia ser diferente dada a dimensão dos problemas que antecederam a eleição de Néstor Kirchner. A hiperinflação do governo Raúl Alfonsín e a nefasta política de paridade com o dólar, a estagnação vivida sob o governo de Carlos Menem, o descontentamento popular motivado pela grave crise financeira que levou Fernando de La Rúa à renúncia, no final de 2001, criaram profunda tensão social e política.
Mesmo diante deste cenário e de um Estado falido, graças à política de privatizações de Menem, sem condições de oferecer garantias aos seus credores, Néstor Kirchner assumiu e conseguiu renegociar a quase totalidade da dívida, pré-condição para que o país pudesse tomar as próprias rédeas e fazer as reformas necessárias com vistas à estabilidade econômica e social.
É verdade que a inflação se manteve acima dos 10% anuais desde 2007, com anos em que chegou a níveis mais altos, como em 2012, com 22,8%, mas, aos poucos, a nação vem trilhando o caminho de um projeto de desenvolvimento voltado à promoção do bem-estar e da melhoria de vida. A dívida pública baixou de 139,3% do PIB para 45,2% do PIB entre 2003 e 2012. Em investimento estrangeiro direto, a Argentina passou de US$ 1,652 bilhão para US$ 12,551 bilhões. Os investimentos em Educação e Ciência subiram e o IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) melhorou de 0,86 para 0,81.
Assim como os governos do ex-presidente Lula e da presidenta, Dilma Rousseff, no Brasil, os do casal Kirchner representam para a Argentina a superação da submissão à cartilha neoliberal, que por tanto tempo impediu a nação de se desenvolver e de promover a inclusão de seus cidadãos. Não à toa encontraram na grande mídia e nas classes dominantes do país constante e impiedosa oposição.
Além de buscar o reequilíbrio econômico e social, os governos dos Kirchner lançaram mão de iniciativas importantíssimas para aprofundar o processo de redemocratização do país. A contundente política de apuração da verdade e revisão das leis que garantiam impunidade aos assassinos e torturadores da ditadura militar, possibilitando não apenas a reabertura de processos, mas também a condenação e a punição dos responsáveis é dos exemplos mais emblemáticos das conquistas deste período.
A nacionalização da empresa de energia YPF, privatizada nos anos 1990, a aprovação Lei de Meios pelo Congresso, em 2009, considerada uma das legislações de Comunicação mais modernas do mundo, e do matrimônio igualitário, em 2010, além da iniciativa pela democratização do Judiciário, que permitirá a eleição de uma parte dos juízes da instância superior do Judiciário pelo voto popular, igualmente aprovada pelo Congresso, também são avanços irrefutáveis do kirchnerismo e do povo argentino.
O apoio da população às mudanças, ratificado todas as vezes em que os argentinos foram chamados às urnas, inclusive na eleição da presidenta Cristina Kirchner em 2011, deixa claro que a Argentina segue trajetória sem volta e dificilmente aceitará retrocessos. O desafio agora é seguir adiante e consolidar as transformações em curso, para que a esta década ganha se sigam outras de mais progresso econômico e social, capazes de pavimentar um caminho seguro para o futuro.
José Dirceu, 67, é advogado, ex-ministro da Casa Civil e membro do Diretório Nacional do PT
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