Paulo Nogueira: Confissão da Globo foi marketing

"Ação de marketing destinada ao fracasso", diz o jornalista do Diário do Centro do Mundo, para quem o pedido de desculpas por apoio ao golpe militar pretende limpar marca da empresa, que sofre uma "colossal rejeição dos brasileiros"; segundo ele, "se realmente quiser melhorar sua imagem, a Globo terá mais sucesso com ações concretas", entre elas, o pagamento de sua dívida com a Receita, hoje em R$ 1 bilhão

"Ação de marketing destinada ao fracasso", diz o jornalista do Diário do Centro do Mundo, para quem o pedido de desculpas por apoio ao golpe militar pretende limpar marca da empresa, que sofre uma "colossal rejeição dos brasileiros"; segundo ele, "se realmente quiser melhorar sua imagem, a Globo terá mais sucesso com ações concretas", entre elas, o pagamento de sua dívida com a Receita, hoje em R$ 1 bilhão
"Ação de marketing destinada ao fracasso", diz o jornalista do Diário do Centro do Mundo, para quem o pedido de desculpas por apoio ao golpe militar pretende limpar marca da empresa, que sofre uma "colossal rejeição dos brasileiros"; segundo ele, "se realmente quiser melhorar sua imagem, a Globo terá mais sucesso com ações concretas", entre elas, o pagamento de sua dívida com a Receita, hoje em R$ 1 bilhão (Foto: Gisele Federicce)


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247 - Ao admitir ter apoiado o golpe militar, e ter pedido desculpas por isso, a Globo só pode estar fazendo uma coisa: ação de marketing. Esta é a interpretação do jornalista Paulo Nogueira, do Diário do Centro do Mundo. Em sua avaliação, porém, se quiser limpar sua marca, rejeitada por muitos brasileiros, a empresa tem que partir para ações concretas, como pagar a dívida de R$ 1 bilhão nos valores atuais com a Receita Federal.

Leia abaixo seu artigo:

Como interpretar a confissão da Globo?

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Admitir que foi errado apoiar o golpe foi provavelmente uma ação de marketing — destinada ao fracasso.

Se a Globo confessar todos os pecados, o confessionário ficará ocupado por muitos anos.

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Mas é de uma confissão específica que vamos tratar: o apoio ao golpe de 1964. A confissão, expressa numa nota publicada ontem, teve ampla repercussão, como era de esperar.

A questão mais intrigante, para mim, é: o que a Globo pretendeu com isso? A única hipótese lógica que encontro é que ela quis fazer uma ação de marketing que limpe uma marca – ela própria – que, como os protestos de agora mais uma vez mostraram, sofre uma colossal rejeição dos brasileiros.

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São remotas, remotíssimas na verdade, as chances de que isso melhore o drama da má reputação da Globo.

Primeiro porque o raciocínio usado no texto é manipulador. Palavras de Roberto Marinho, nos vinte anos do golpe, são evocadas para afirmar uma lorota histórica que eu imaginava que ninguém mais usaria, conhecidos os fatos reais: a de que foi o povo que exigiu a deposição de João Goulart.

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Disse Roberto Marinho: "Os acontecimentos se iniciaram, como reconheceu o marechal Costa e Silva, 'por exigência inelutável do povo brasileiro'. Sem povo, não haveria revolução, mas apenas um 'pronunciamento' ou 'golpe', com o qual não estaríamos solidários."

Pobre povo brasileiro: além de ser objeto de uma predação econômica selvagem que transformaria o Brasil no campeão mundial de desigualdade social, ainda é responsabilizado por isso.

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Não foi a CIA, não foi a direita, não foram generais reacionários, não foram barões da mídia como Roberto Marinho que deram o golpe do qual seriam grandes beneficiários. Foi o povo, vítima número 1 da quartelada.

Por esse ângulo, para voltarmos à confissão do Globo, Roberto Marinho estava, portanto, ao lado do povo, como um Zorro ou um Robin Hood.

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Nas reflexões de RM rememoradas na confissão, são destacados "os avanços econômicos obtidos naqueles vinte anos".

Avanço para quem?

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Para ele, certamente. Os militares lhe deram uma televisão que transformou a Globo de dona de um jornal de segunda categoria numa grande corporação.

Basicamente, foi uma troca: Marinho levou a tevê e, em troca, garantiu apoio à ditadura. No livro Dossiê Geisel, escrito à base de documentos pessoais de Geisel, essa troca aparece com clareza. Roberto Marinho não fazia nenhuma cerimônia em pedir mais e mais favores à ditadura lembrando o apoio que dava a ela.

Para o "povo", o golpe foi uma tragédia econômica. Os trabalhadores perderam direitos trabalhistas como a estabilidade, e foram proibidos – não raro a balas — de fazer greve para se defender na relação desigual com as empresas.

Disso resultou uma brutal concentração de renda. A fatia do bolo nacional do povo foi minguando, enquanto homens como Roberto Marinho acumulavam uma fortuna pessoal que os levaria, ou a seus herdeiros, às listas de bilionários feitas pela respeitada revista americana Forbes.

A falácia empregada na época, uma criação do homem forte da economia, Delfim Netto, era que o bolo tinha antes que crescer para depois ser distribuído.

Impedidos de responder com greves, os trabalhadores tinham, para usar a grande expressão de Noam Chomsky, a "liberdade de consentir" naquela tese desonesta, cínica e responsável pela favelização do Brasil.

Se realmente quiser melhorar sua imagem, a Globo terá mais sucesso com ações concretas.

Uma delas, que poderia ser a primeira, é pagar o que deve à Receita Federal depois de ter sido flagrada numa fraude fiscal na compra dos direitos da Copa de 2002.

O problema é que, para isso, não bastam palavras. É preciso colocar dinheiro: 1 bilhão de reais em valores atuais.

E quem acredita que a Globo põe a mão no bolso, mesmo em situações escandalosamente claras como aquela, acredita em tudo, como disse Wellington.

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