Página na internet denuncia empresas que expõem trabalhadores durante a pandemia

Entre as empresas mais denunciadas na página ‘Coronacapitalismo’ estão Riachuelo, Havan e Cocobambu, além de muitas empresas de call centers



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Por Carlos Hortmann, para o 247 - Diante da pandemia mundial do coronavírus e os impactos econômicos dessa crise, um grupo criou uma página para permitir que trabalhadores denunciem as empresas que estiverem cometendo violações contra os trabalhadores, como exposição à contaminação ou medidas de retirada de direitos. 

A página Coronacapitalismo está presente no Instagram, Facebook e Twitter e convoca pessoas que estão em quarentena e querem, nesse momento, salvar vidas ao impedir situações de violação e exposição impositiva ao contágio.

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Apenas no Instagram, o perfil alcançou mais de 30 mil seguidores na primeira semana e tem incentivado as pessoas a acessarem a página das empresas denunciadas para constranger e pressionar para que modifiquem suas políticas com os trabalhadores. 

“Nesse momento de crise tão grande e diante de tamanha incompetência do presidente para lidar com a pandemia, é necessário que trabalhadores do Brasil tenham um instrumento que saia em sua defesa para que consigam uma política de prevenção no trabalho essencial, ou um isolamento social justo para áreas não-essenciais sem que isso signifique demissões, afastamentos não-remunerados, férias compulsórias, redução de salários e medidas que retirem a dignidade dos trabalhadores em um momento tão grave”, afirmou um dos organizadores.

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Uma página sem donos

A criação da iniciativa foi espontânea, a partir de pessoas comuns espalhadas em várias partes do país. Elas relatam que tomaram a decisão de não se identificar por questões de segurança e por uma questão pedagógica. “Sabemos que os tempos que vivemos hoje não são fáceis. A própria família presidencial tem denúncias de envolvimento com as milícias e grupos de extermínio e sabemos que os grandes grupos econômicos também não são inocentes nas suas relações sociais. Sabemos que corremos riscos nesse momento ao enfrentar poderosos dessa forma, mas seguimos, pois acreditamos que é nosso dever diante da crise e para evitar um sofrimento ainda maior da população”, comentou outro organizador, que pediu para não ser identificado na matéria.

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Mas o risco de perseguição não foi o único motivo de não-identificação, segundo o grupo. “Além dessa precaução de segurança, também acreditamos que a página cumpre um papel mais bonito não sendo de ninguém, justamente porque é de toda a população trabalhadora desse país. É nossa, mas é também daquela pessoa que está em quarentena, quer fazer o bem e pode ajudar a divulgar as denúncias, e é também, e principalmente, daquela pessoa trabalhadora que está sofrendo uma violação nesse exato momento e busca alguma forma de apoio” - diz outro relato. 

As denúncias

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O grupo relata os desafios do complexo processo de recebimento, análise, checagem de fatos e dados, produção de conteúdo, revisão e publicação das denúncias na página. “Desde o início decidimos que só faria sentido realizar as denúncias que tivessem credibilidade e capacidade de verificação. Só não imaginávamos o tamanho do trabalho que isso traria quando tem tantas violações acontecendo e recebemos mais de 3 mil denúncias apenas na primeira semana”, afirmou uma das várias pessoas dedicadas à checagem de fatos.

Entre as empresas mais denunciadas pelos trabalhadores estão Riachuelo, Havan, Bradesco, JBS, Cocobambu, Uber, Itaú, muitas empresas de call centers e de vários outros setores. “Não é exatamente uma surpresa, mas percebemos que a maior parte das denúncias que chegam são de empresas cujos donos apoiam abertamente as mudanças trabalhistas de retiradas de direitos e várias se engajaram ativamente na campanha eleitoral do atual presidente”, aponta uma das pessoas organizadoras responsável pela análise prévia e triagem das denúncias. 

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“O que nos revolta é que são grandes empresas de praticamente todos os segmentos sociais, que até ano passado vinham ostentando recordes de lucro e que estão neste momento desrespeitando seus trabalhadores ao colocarem o lucro acima da vida deles, expondo ao vírus ou realizando medidas que precarizam seu trabalho e sua condição de sobrevivência financeira nessa crise”, afirmou uma das pessoas organizadoras da página responsável pela revisão do texto antes da publicação.

As reivindicações

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O grupo organizador afirma também que as reivindicações de um isolamento social justo envolvem a transferência imediata de todo trabalho não-essencial para o combate ao coronavírus para funções remotas e home-office e, nos casos em que não seja possível essa modalidade de trabalho, que seja concedida licença remunerada aos trabalhadores tanto do salário fixo quanto da média variável dos últimos três meses sem férias compulsórias, sem afastamentos sem remuneração, sem reduções de salários e sem demissões nesse período de crise. 

“O que nós estamos reivindicando não é nada muito diferente do que países do mundo inteiro estão adotando para não colocar a conta da crise e da pandemia sobre a população mais pobre. É um absurdo que Jair Bolsonaro, nesse momento atuando contra a população, vá na contramão de todos os países e pense somente nos super-ricos e abandone a população mais pobre à sua própria sorte”, defende um dos articuladores da iniciativa.

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A página também possui reivindicações para setores estratégicos no combate à pandemia (principalmente saúde, produção alimentar, serviços de água, luz, telefone, internet, gás e ajuda humanitária). Nesse caso, a demanda é por melhores condições de trabalho para a prevenção da contaminação, o consentimento dos trabalhadores com relação a jornada de trabalho e remuneração extra. “Essas pessoas estão lá arriscando suas vidas para salvar a população mundial de uma de suas mais graves crises. É fundamental que elas sejam retribuídas com respeito, recebendo os materiais de proteção necessários, com diálogo sobre o grau de exposição, escala de trabalho e que tenham uma remuneração digna, pois muitas trabalhadoras da área de saúde (principalmente auxiliares e técnicas de enfermagem) recebem salários muito baixos que mal garantem a sobrevivência, ainda mais nesse momento de crise”, ressaltou.  

Nesse momento em que os decretos estaduais começam a surgir, a página também questiona o teor deles e as categorias elencadas. “Para nós é um verdadeiro absurdo considerar que call centers de qualquer espécie são serviços essenciais que podem trabalhar em aglomeração. Uma coisa é garantir que o Corpo de Bombeiros ou o sistema de saúde recebam suas ligações de emergência, outra totalmente diferente é termos pessoas sendo contaminadas em ambientes sem ventilação, sem equipamentos de proteção, porque uma grande empresa não quer abrir mão de fazer ligações promocionais ou de cobrança a seus clientes”, afirmou. 

Elas também realizaram muitas críticas ao decreto de Jair Bolsonaro - que torna possível a suspensão do salário por 4 meses -, apontando que “ele completou um ciclo inteiro de violações contra a população: salva os bancos e as grandes empresas com dinheiro público, emite medidas provisórias que retiram direitos dos trabalhadores nesse momento de crise tão grave, emite decretos que deixam vários setores da economia funcionando desnecessariamente (como viagens interestaduais, internacionais e até o mercado financeiro especulador), desrespeita todas as recomendações de saúde ao encorajar manifestações e comparecer a elas com todos os indícios de que estava infectado desde aquele momento e ainda cumpre o papel deseducativo ao dizer que a pandemia mundial é apenas uma histeria”.

O futuro da página

A página ressalta em suas postagens que é necessário construir uma saída popular para a crise. E a intenção do grupo organizador é que ela seja um espaço de recebimento de denúncias, fiscalização e mobilização das pessoas permanentemente para que sejam enfrentadas essas injustiças sociais. O viés transformador está presente em todos os materiais postados e é ressaltado pelo grupo com bastante veemência: “cada vez mais as pessoas estão percebendo que esse sistema injusto, desigual e insustentável do ponto de vista ambiental não serve e não nos levará a futuro nenhum. É necessário refletirmos sobre o que queremos colocar no lugar desse sistema, agora que está cada vez mais evidente que ele só pode nos levar ao colapso”.

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