Durante cinco horas, por decisão de Dilma, somente as cúpulas do governo, das Forças Armadas e dos órgãos de segurança sabiam onde ela estava e o que fazia.
UM MÊS ANTES o chefe do cerimonial da Presidência da República telefonara para José Viegas, embaixador do Brasil em Roma, pedindo uma sugestão: de volta da Índia, onde o avião deveria pousar? Viegas respondeu na hora: em Palermo, capital da ilha da Sicília, parte da Itália. Ali conhecera um dos bens mais preciosos da humanidade - a Capela Palatina, recoberta de mosaicos do século XII.
VIEGAS FOI avisado uma semana antes da chegada de Dilma à Índia de que deveria recepcioná-la em Palermo. Os que cuidam da segurança da presidente haviam inspecionado os locais por onde ela passaria - o centro da cidade, a capela e o restaurante reservado para o jantar da comitiva de 18 pessoas, o quatro estrelas Tratoria Piccolo Napoli (telefone: +39 091 320431). Somente o governo da ilha sabia da visita.
"NÃO QUERO seguranças ao meu lado", ordenara Dilma. Que desembarcou em Palermo reclamando da companhia do fotógrafo da Presidência. A seu lado, Helena Chagas, então ministra da Comunicação Social, nada disse. Ninguém ousaria. Viegas consultou Dilma sobre o jantar. A Tratoria fica em um bairro popular de Palermo. De varais com roupas estendidos entre as casas. O bairro lembra o do Brás, no Centro de São Paulo.
HAVIA OUTRA opção - um cinco estrelas à beiramar, posto de prontidão pelos agentes de segurança brasileiros. "Vamos para o Brás", respondeu Dilma.
O jantar custou cerca de mil dólares. Dilma gosta de pizza. Em um domingo, há mais de ano, faltou pizza no Palácio da Alvorada. E ela queria uma. Seus assessores entraram em pânico. Foi aberta uma pizzaria para servi-la.
O QUE ELA JANTOU em Palermo é "segredo de Estado".
Fora os presidentes-generais da ditadura militar de 1964, presidente algum foi tão autoritário quanto Dilma. Nenhum deles - nem mesmo Fernando Collor de Mello, o primeiro a ser eleito pelo voto direto, em 1989. Ministros deixaram o governo Dilma por não suportá-la (atenção: sem desmentidos, prefeito Fernando Haddad). Outros recusaram convites.
O COZINHEIRO de Palermo foi aplaudido de pé. O encarregado dos bichos que vivem no Palácio da Alvorada, certa vez, foi procurado por Dilma. Jamais esquecerá o que ela lhe disse porque um avestruz bicara um cão. Palermo da Capela Palatina foi a primeira viagem de Dilma mantida em segredo. Salvo em ocasiões especiais, presidentes de países democráticos como o nosso nunca procederam assim.
NA SEMANA PASSADA, de volta da Suíça, sabia-se que Dilma iria a Cuba. O jornal "O Estado de S. Paulo" descobriu o que fora omitido do público por ordem dela: o avião presidencial faria uma escala em Lisboa. A informação parece irrelevante? De novo: em democracias, não é. O distinto público tem o direito de saber onde seu presidente está. Omissão equivale a uma mentira.
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