Nem toda a ajuda que chega à Venezuela é humanitária, diz pesquisadora

A pesquisadora Consuelo Giménez Pardo, diretora do Mestrado Universitário em Ação Humanitária Sanitária da Universidade de Alcalá, na Espanha, afirma que a ajuda humanitária é regida por regras rígidas internacionais; ela diz: "é definido como ação humanitária (AH) o conjunto diverso de ações de ajuda às vítimas de desastres (catástrofes naturais, epidemias e conflitos armados ou emergências complexas), cuja magnitude ultrapassa a capacidade de resposta das autoridades nacionais"

Nem toda a ajuda que chega à Venezuela é humanitária, diz pesquisadora
Nem toda a ajuda que chega à Venezuela é humanitária, diz pesquisadora (Foto: William Urdaneta/Reuters)


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Do Brasil de fato - Aqueles que não estejam familiarizados com a ação humanitária talvez pensem que toda ajuda é bem-vinda, venha de onde vier. Talvez fiquem surpresos e lhes interesse saber que ela está perfeitamente regulamentada por normas e resoluções.

A Resolução A/RES/46/182 da 78ª sessão plenária das Nações Unidas de 19 de dezembro de 1991 indica que ajuda é tudo o que compreende as seguintes condições.

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É definido como ação humanitária (AH) o conjunto diverso de ações de ajuda às vítimas de desastres (catástrofes naturais, epidemias e conflitos armados ou emergências complexas), cuja magnitude ultrapassa a capacidade de resposta das autoridades nacionais.

Implica não só a provisão de produtos e serviços básicos para a subsistência, mas também, especialmente em situações de conflito, a proteção das vítimas e seus direitos fundamentais através do trabalho na defesa dos direitos humanos (advocacy), o testemunho, as demandas, a pressão política (lobby) e o acompanhamento.

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Os princípios que regem essa ajuda são:

• Universalidade: qualquer vítima de um desastre natural ou humano deve ser socorrida, independentemente de qualquer diferença política, étnica ou de outro tipo;

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• Humanidade: trata de adotar todas as medidas possíveis para evitar ou aliviar o sofrimento humano provocado por conflitos ou calamidades;

• Independência: as organizações humanitárias devem desempenhar suas funções em base de suas próprias decisões;

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• Neutralidade: trata sobre a abstenção de todo ato que, em qualquer situação de conflito, possa ser interpretado como favorável a uma das partes envolvidas ou em detrimento da outra;

• Imparcialidade: princípio pelo qual a ajuda humanitária deve ser fornecida às vítimas em função de suas necessidades, não em função de qualquer outro critério que suponha discriminação por raça, sexo, ou ideologia política.

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Muito mais do que pacotes e fitinhas

A ajuda humanitária é muito mais que distribuir pacotes ou colocar fitinhas. Pretende-se precisamente salvar vidas, curar doenças e aliviar a dor das vítimas.

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As pessoas que sob a proteção das Nações Unidas (Resolução A/RES/717129) trabalham nesta área são profissionais altamente qualificados, e as organizações para as quais trabalham realizam uma avaliação prévia da situação, um diagnóstico que coloca em destaque os mais vulneráveis, mulheres e crianças.

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Além disso, trabalham com boas práticas, transparência e prestação de contas, e fundamentam suas atuações em condições de qualidade construídas por consenso durante anos, a base de trabalho e esforço em nível internacional.

Os mecanismos para pôr em marcha uma ajuda humanitária acontecem quando o governo legítimo de um país entende que a situação ultrapassa as suas capacidades e solicita ajuda internacional. Caso não haja governo, esta ajuda humanitária é impulsionada pelos organismos das Nações Unidas que têm competências neste assunto.

Assumir os acordos internacionais

Essa ajuda deve cumprir os acordos assumidos internacionalmente na Declaração de Paris sobre a Eficácia da Ajuda a Desenvolvimento, os Princípios de Ajuda Humanitária das Nações Unidas e o Consenso Europeu sobre Ajuda Humanitária.

Recentemente, temos visto exemplos que parecem se apoiar em uma base que não tem nada a ver com a ajuda humanitária. A crise econômica, político-institucional e sócio-sanitária que sofre a Venezuela tem efeitos muito graves na população que precisa de atendimento. Cabe destacar que muitas organizações já estão trabalhando no país no acesso a medicamentos e alimentos há um bom tempo.

Porém, é necessário fornecer o dado de Inform, tal como menciona o Instituto de Estudo sobre Conflitos e Ação Humanitária (IECAH), no qual a Venezuela aparece em 64º, como país com risco médio de crise humanitária – com um índice de 4,5, enquanto que a Colômbia tem um índice de 5,5, que a coloca em risco alto.

Os meios se voltaram na situação venezuelana e a possível distribuição de ajuda humanitária é utilizada como um instrumento para gerar uma legitimidade paralela. Desta forma, as normas internacionais se contrapõem e gera-se mais divisão, tensão e violência entre a população.

Ingerência política

Aplicar a falsidade da ajuda humanitária a questões que não o são, embora não seja nada novo – tem sido utilizado muitas vezes na História—, é um fato gravíssimo, que implica a utilização dos princípios que a regem com a finalidade de realizar ingerência política.

É de extrema gravidade que seja utilizada a simbologia, nomenclatura e conceitos próprios do humanitarismo para outros interesses. É irresponsável e as consequências são terríveis, gerando que o trabalho de anos de organizações e trabalhadores humanitários seja visto como algo submetido a suspeita. Os que sofrerão as consequências a curto, médio e longo prazo serão, como sempre, os mais fracos.

Sempre é necessário o diálogo, lutar pela prevenção de conflitos e pela procura da paz civil, não militar, tal como referem as Diretrizes de Oslo. Existem mecanismos nacionais e internacionais perfeitamente habilitados para isso.

Dizer que se trabalha neste sentido e atuar de outra forma se escondendo atrás da chamada ajuda humanitária, transmite mensagens erradas à população. Isto é algo que forma arte do aprendizado de erros do passado, e nos fará refletir sobre ações que não procuram o bem-estar de um povo, mas o controle dos recursos da população a qualquer preço.

Vivemos um momento social internacional em que acordos, princípios, normas, leis e resoluções que até agora eram estáveis e supunham um ponto de partida se quebram, ou parecem ser cumpridos a critério dos interesses de determinados líderes políticos, utilizando a ajuda humanitária também, algo que como sociedade nós não podemos permitir e não devemos consentir.

*Consuelo Giménez Pardo é diretora do Mestrado Universitário em Ação Humanitária Sanitária da Univeridade de Alcalá, na Espanha.

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