Mino Carta: no Brasil, o povo humilhado não reage

"Em qual país do mundo dito civilizado o povo humilhado e ofendido, inclusive por reformas trabalhistas medievais, não reage?", questiona o jornalista Mino Carta. "Em Honduras, vitimado há oito anos por um golpe similar ao de 2016, o povo está hoje nas ruas a desafiar a violência da repressão, armada para matar. É doloroso ter de reconhecer que o PT, os sindicatos e a pretensa esquerda não chegaram ao povo, não souberam levá-lo pela mão à consciência da cidadania"

"Em qual país do mundo dito civilizado o povo humilhado e ofendido, inclusive por reformas trabalhistas medievais, não reage?", questiona o jornalista Mino Carta. "Em Honduras, vitimado há oito anos por um golpe similar ao de 2016, o povo está hoje nas ruas a desafiar a violência da repressão, armada para matar. É doloroso ter de reconhecer que o PT, os sindicatos e a pretensa esquerda não chegaram ao povo, não souberam levá-lo pela mão à consciência da cidadania"
"Em qual país do mundo dito civilizado o povo humilhado e ofendido, inclusive por reformas trabalhistas medievais, não reage?", questiona o jornalista Mino Carta. "Em Honduras, vitimado há oito anos por um golpe similar ao de 2016, o povo está hoje nas ruas a desafiar a violência da repressão, armada para matar. É doloroso ter de reconhecer que o PT, os sindicatos e a pretensa esquerda não chegaram ao povo, não souberam levá-lo pela mão à consciência da cidadania" (Foto: Leonardo Attuch)


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247 – Leia, abaixo, um trecho do editorial do jornalista Mino Carta, publicado na mais recente edição da revista Carta Capital:

É do conhecimento até do mundo mineral que o povo brasileiro não saiu do limbo precipitado por três séculos e meio de escravidão, cuja cultura a Abolição não extinguiu, como escrevia Joaquim Nabuco mais de cem anos atrás.

Certo é que, neste período, nunca enfrentamos momentos tão sombrios, de retorno ao passado remoto.

Em qual país do mundo dito civilizado o povo humilhado e ofendido, inclusive por reformas trabalhistas medievais, não reage?

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Em Honduras, vitimado há oito anos por um golpe similar ao de 2016, o povo está hoje nas ruas a desafiar a violência da repressão, armada para matar.

É doloroso ter de reconhecer que o PT, os sindicatos e a pretensa esquerda não chegaram ao povo, não souberam levá-lo pela mão à consciência da cidadania e do monstruoso desequilíbrio social, que agora se acentua em um dos países mais desiguais do mundo. Antes da reeleição de Dilma Rousseff, quando a manobra golpista se desenhou com total nitidez à sombra da Lava Jato, o PT portou-se como um bicho acuado, e assim continuou depois do impeachment, tíbio e inseguro diante do golpe.

O próprio Lula, com quem mantenho há 40 anos uma amizade inoxidável, cometeu enganos graves que CartaCapital não deixou de verberar. Tenho a granítica certeza de que tivesse assumido a chefia da Casa Civil na hora da formação do novo governo, não haveria impeachment.

Também não se daria se, no primeiro semestre de 2015, Lula partisse com o mesmo discurso para as caravanas que realiza hoje, na clara visão dos propósitos do golpe em marcha. Ainda haveria tempo, sem contar com a covardia crônica dos quadrilheiros a serviço da casa-grande. Massa nas ruas, mesmo pacífica, põe medo.

Naquela situação, teria precedido as manifestações dos beócios de camiseta canarinho e dos panelaços do alto dos espigões.

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Lula disse que perdoa os protagonistas daqueles dias porque sabe que muitos deles hoje lhe dariam seu voto.

Convém acentuar agora a validade do esforço do ex-presidente, por mais tardio, e a qualidade do seu discurso, ao perceber a impossibilidade da conciliação e de qualquer entendimento entre Capital e Trabalho e ao anunciar aquele que seria seu programa de governo, com ênfase na taxação dos ricos.

Desassombrado desafio do grande líder popular brasileiro, impavidamente alheio à perspectiva da condenação iminente.

Lula foi o melhor presidente da chamada redemocratização, de longe, muito de longe. Neste instante, promete, porém, ir muito além para ser o reformador que enfrenta a casa-grande de peito aberto, e desde já parte para a luta.

A condenação do ex-presidente ao torná-lo inelegível deságua na ilegalidade do pleito. Resta, porém, a dúvida: haverá eleições? Os quadrilheiros engolfam-se na busca vã de um candidato potável, enquanto Lula engorda seu favoritismo para enfrentar Bolsonaro, medalha de prata nas pesquisas, muito afastado, entretanto, do inevitável vencedor.

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Há tempo, a dúvida paira a inquietar quem raciocina com os dados da realidade. Os golpistas conseguiram alcançar todos os seus intentos na demolição do Brasil e com a condenação de Lula dão o primeiro passo na direção do golpe dentro do golpe.

Que serão capazes de excogitar quando o candidato sustentado pelo ex-presidente está bem à frente na corrida presidencial? Sabe-se que um “Lulinha” conta de saída com 30% dos votos, perspectiva aterrorizante para as quadrilhas enraizadas no poder. Das duas, uma: ou produzem mais uma exceção ao legalizar qualquer tramoia destinada a liquidar sem o mais tênue risco, ou deixam as eleições inexoravelmente para lá.

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