Merval ainda não foi avisado de que o golpe acabou

Embora quase todo o PSDB já tenha desembarcado do impeachment, o colunista Merval Pereira ainda deposita suas esperanças na "voz rouca das ruas" e fala até em renúncia da presidente Dilma Rousseff; "O que resta a Dilma a esta altura é querer se diferenciar dos que à sua volta estão envolvidos nos escândalos de corrupção", diz o jornalista Merval Pereira; "Uma atitude psicológica natural essa de procurar se proteger quando o mar de lama se aproxima. Quanto mais não seja para justificar depois uma atitude mais dramática, como a renúncia à Presidência"

Merval ainda não foi avisado de que o golpe acabou
Merval ainda não foi avisado de que o golpe acabou


✅ Receba as notícias do Brasil 247 e da TV 247 no canal do Brasil 247 e na comunidade 247 no WhatsApp.

247 – Nos últimos dias, as principais lideranças do PSDB, como Fernando Henrique Cardoso, Armínio Fraga, Geraldo Alckmin e até mesmo Aécio Neves transmitiram sinais claros de que não estão mais na canoa do golpe contra a presidente Dilma Rousseff. No entanto, o colunista Merval Pereira, do Globo, ainda não foi avisado. Leia abaixo:

A voz rouca das ruas

Por Merval Pereira

Em linguagem parlamentar chula, o tempo é de vaca não reconhecer bezerra, tal a confusão em Brasília. Como não há nenhuma liderança política que se imponha para tentar controlar a crise, e nem legendas partidárias de peso que possam se posicionar acima das dissidências, pois estão envolvidas em tenebrosas transações ou interesses próprios, ou não têm expressão para a mediação política necessária, o que vai definir o rumo dos acontecimentos serão as manifestações populares.

Se a programada para o dia 16 de agosto tiver a grandiosidade das primeiras, acontecidas em 2013 e, mais adiante, em março deste ano, o frágil equilíbrio do governo desmoronará rapidamente. O Congresso e os órgãos de controle como o Tribunal de Contas da União (TCU) e o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) se moverão de acordo com a voz rouca das ruas (na definição perfeita de Ulysses Guimarães), e nesse caso o espalhafatoso anúncio do presidente da Câmara Eduardo Cunha de que está na oposição ao governo terá conseqüências drásticas enquanto ele tiver poder para tanto.

continua após o anúncio

É claro que ter um atirador de elite como Eduardo Cunha à solta por aí, com o único propósito de levar junto consigo o maior número de pessoas possível para o destino que parece inevitável, não é uma situação confortável nem mesmo para seus maiores inimigos.

Mas, dentro da confusão que está instalada, soou como música a ouvidos palacianos a denúncia do empresário Julio Camargo contra o presidente da Câmara. Cunha, porém, vai fazer o estrago possível e ontem mesmo já convocou a temida (pelo governo) CPI do BNDES, e anunciou que convocará em agosto outra bomba, a CPI dos Fundos de Pensão.

continua após o anúncio

Seu companheiro de infortúnios, o senador Renan Calheiros, já havia anunciado a formação das mesmas CPIs no Senado. Mesmo sem ser tão histriônico quanto Cunha, Calheiros guarda na geladeira a vingança que usará contra seus adversários, enquanto tiver forças para lutar.

O mais provável, porém, é que ambos sejam obrigados a deixar as presidências das Casas legislativas que comandam, se não por questões morais que há muito superaram por um pragmatismo político desprezível, por força de decisão judicial. Mas enquanto estiverem de posse de suas funções, farão tudo para atazanar a vida do Palácio do Planalto, que, estão convencidos, está por trás da “perseguição” do Ministério Público a eles.

continua após o anúncio

Uma teoria conspiratória de péssima qualidade, pois se o governo tivesse condições de controlar os controladores e os investigadores, não estaria na situação de penúria política em que se encontra. Mas também para Cunha e Calheiros é bom se convencerem dessa estapafúrdia versão, pois somente ela justifica o que está acontecendo com os dois.

A alternativa seria admitir que estiveram mesmo metidos nas negociatas da Petrobras, o que não farão, nem depois de presos, se for o caso.

continua após o anúncio

Quem diz que sabe o que vai acontecer está mentindo. Tamanha confusão sem uma instância de mediação nunca se viu no país, a começar por um governo tão fraco que não consegue nem mesmo manter a maioria aparente no Congresso, quanto mais comandar um grupo político.

Eduardo Cunha disse, com endereço certo, que existem vários “aloprados” no Palácio do Planalto minando as negociações políticas que o vice-presidente Michel Temer vem tentando. Existem de fato informações de que tanto o ministro Chefe do Gabinete Civil, Aloisio Mercadante – a quem Cunha certamente quis atingir com o epíteto “aloprado” – e a Ministra do Planejamento Miriam Belchior, não liberam as nomeações acertadas com a base política.

continua após o anúncio

Mas e se fazem assim com a anuência da própria presidente Dilma, que nos bastidores já se queixou de não se sentir confortável com esse presidencialismo de coalizão que troca cargos por votos?

O que resta a Dilma a esta altura é querer se diferenciar dos que à sua volta estão envolvidos nos escândalos de corrupção. Já disse que não vai pagar a conta pelo que outros fizeram – referência indireta ao PT e, sobretudo, a Lula – e que não encontrarão nenhum proveito pessoal dela nesses desvios.

continua após o anúncio

Uma tentativa de bloquear suas próprias culpas, como ter sido presidente do Conselho de Administração da Petrobras e não saber o que estava se passando sob seu nariz na companhia. Ou “fazer o diabo” para se eleger, fechar os olhos e aceitar dinheiro sujo para financiar sua campanha. 

Uma atitude psicológica natural essa de procurar se proteger quando o mar de lama se aproxima. Quanto mais não seja para justificar depois uma atitude mais dramática, como a renúncia à Presidência.

continua após o anúncio

iBest: 247 é o melhor canal de política do Brasil no voto popular

Assine o 247, apoie por Pix, inscreva-se na TV 247, no canal Cortes 247 e assista:

Comentários

Os comentários aqui postados expressam a opinião dos seus autores, responsáveis por seu teor, e não do 247

continua após o anúncio

Ao vivo na TV 247

Cortes 247