Lula erra ao compor com quem apoiou o golpe, diz Luís Felipe Miguel
Cientista político diz ser "muito infeliz" a frase dita pelo ex-presidente Lula, em que ele diz perdoar os golpistas, e declara que "perdoar não está no horizonte. A questão passa longe de perdão. A questão, apresentada com as palavras certas, é se será possível compor de novo com parte deles. É essa a questão que o enquadramento em termos de 'perdão', seja contra ou a favor, impede que seja discutida"; "Devemos compor de novo com eles? Eu acho que não", opina
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Por Luis Felipe Miguel, via Facebook
Eu não queria falar do perdão, mas vou falar.
Não acho que a política se confunda com uma decisão sobre perdoar ou não perdoar. A frase de Lula foi muito infeliz, pois colocou nestes termos a questão e, pior, avocou a si mesmo a escolha, como um gesto de magnanimidade pessoal: “eu perdoo”. Falou como um namorado traído, como um padre no confessionário. Com isso, despolitizou de vez o assunto. Fez parecer que o que está em jogo são relações interpessoais – sacanearam a Dilma, não é mesmo? – e não interesses em conflito.
Mas também é infeliz a reação de quem diz que é impossível “perdoar”. Sabemos quem são os golpistas, como agem, o que querem. Perdoar? Jamais, com certeza. Mas perdoar não está no horizonte. A questão passa longe de perdão. A questão, apresentada com as palavras certas, é se será possível compor de novo com parte deles. É essa a questão que o enquadramento em termos de “perdão”, seja contra ou a favor, impede que seja discutida.
Devemos compor de novo com eles? Eu acho que não – acho que Lula erra gravemente quando aposta nesse caminho. Mas não é uma questão moral. Não é que os golpistas se mostraram maus demais para que possamos pensar em conversar com eles. Nelson Mandela dividiu uma transição política e um Nobel da Paz com Frederik de Klerk, um racista particularmente repulsivo. Duvido que o tenha “perdoado”, mas entendeu que era o caminho possível para superar o apartheid. Se Lênin não tivesse aceitado o trem blindado que o Kaiser lhe ofereceu – o Kaiser, um imperialista conservador e belicoso – provavelmente hoje não teríamos nenhum centenário para comemorar.
Em suma, o problema não é que Renan, por exemplo, não tem caráter. Se for por isso, é só erguer um pouquinho mais o sarrafo e vai sobrar pouca coisa também nos partidos da esquerda. O problema é que uma nova composição com a direita aponta para uma reedição piorada do pacto de 2002, condenando o novo lulismo a meras políticas assistenciais para minorar as sequelas de retrocessos que não serão revogados e querendo que o campo popular se resigne a isso para não colocar em risco “o que é possível”.
Gleisi Hoffman soltou nota tentando corrigir a fala de Lula e disse que na verdade “Lula dirigiu-se à parcela da sociedade que apoiou o golpe contra a presidenta Dilma Rousseff e hoje percebe que foi enganada”. Boa tentativa, mas exige uma leitura bastante tortuosa das palavras do ex-presidente. Seja como for, o resultado não é muito melhor. Não se trata de perdoar os “enganados”. Trata-se de aprofundar o debate político, disputar de fato as visões de mundo e construir uma adesão robusta a um projeto que seja radicalmente igualitário e democrático.
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