Luis Felipe Miguel: o pacto do jornalismo

O cientista político Luiz Felipe Miguel destaca que "o pacto do jornalismo com seu público tem dois momentos básicos", "O primeiro – e mais simples – é a promessa de que as notícias que ele apresenta são verdadeiras" e no segundo, "como quem não quer nada, o jornalismo da mídia corporativa reafirma seu poder de agenda", diz

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tvdigital (Foto: Paulo Emílio)


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Por Luis Felipe Miguel, em seu Facebook

O pacto do jornalismo com seu público tem dois momentos básicos.

O primeiro – e mais simples – é a promessa de que as notícias que ele apresenta são verdadeiras. Se está escrito que Donald Trump e Kim Jong-un se encontraram, então eles se encontraram.

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O jornalismo da mídia corporativa tem enfatizado sua confiabilidade quanto a este quesito para afirmar a si mesmo como a oposição às temidas fake news. No discurso de seus porta-vozes, o combate à disseminação de notícias falsas desliza quase que naturalmente para o privilégio ao jornalismo da mídia corporativa. A reivindicação agora é que as mídias sociais criem mecanismos para diferenciar o que é "jornalismo de verdade", isto é, o produzido pelas empresas, de outras fontes noticiosas, que se tornam então automaticamente sinônimo de fake news.

Com isso, como quem não quer nada, o jornalismo da mídia corporativa reafirma seu poder de agenda.

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Este é o segundo – e mais complexo – pacto com o público. O jornalismo promete apresentar uma seleção confiável dos fatos mais relevantes, feita a partir da aplicação, de boa fé, de critérios que são julgados pertinentes.

Se o encontro entre Trump e Kim está no jornal, então é um fato importante.

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No entanto, não há um metro universal para determinar quais fatos são os mais importantes. A seleção do jornalismo é influenciada por diferentes fatores.

As rotinas de produção da notícia privilegiam determinados fatos – pela acessibilidade das fontes ou pela possibilidade de programar a cobertura, por exemplo.

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A posição social dos jornalistas afeta sua visão de mundo. É por isso, por exemplo, que notícias sobre trabalho doméstico em geral se colocam mais do ponto de vista dos patrões do que das empregadas.

Mas há também, é claro, as pressões dos anunciantes e os interesses econômicos das próprias empresas jornalísticas. Às vezes, de maneira aberta – ou alguém acha que a Folha dá páginas e páginas para sua próprias coleções de CD's ou livros por conta de seu elevado valor cultural? Mas, em geral, de forma disfarçada.

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E há, por fim, as preferências políticas dos controladores da empresa. Enquanto os primeiros vieses são quase inconscientes (o que não os torna menos relevantes), os últimos são deliberados.

Rompe-se o compromisso da "neutralidade" da notícia, isto é, de que a decisão de divulgá-la não será afetada pelo fato de que vai prejudicar A ou favorecer B, mas apenas por sua relevância intrínseca, de acordo com os critérios de seleção adotados.

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Quanto mais débeis são os parâmetros profissionais vigentes, mais fortes são estas últimas influências. No Brasil, como sabemos, estes parâmetros são baixíssimos.

Por isso, assassinatos de lideranças camponesas e indígenas se sucedem no interior do país sem que sequer sejam registrados nos jornais.

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Por isso, o noticiário econômico martela sem parar o déficit da previdência social – com espaço próximo do zero para quem contesta o cálculo – e se cala sobre a estrutura tributária que favorece fortemente os muito ricos ou sobre a sonegação de impostos em larga escala.

Por isso, nenhum grande jornal noticia quando o chefe da Igreja Católica manda um emissário visitar no cárcere um ex-presidente, levando presente e tudo.

Os meios de comunicação alternativos são importantes para apresentar os fatos que a mídia corporativa deixa de lado. São um componente fundamental para gerar um mínimo de pluralidade no nosso ambiente informacional.

O foco na denúncia das fake news e seu complemento, o fetiche do fact checking, têm como efeito primário anular a questão da seleção das notícias. O retorno do jornalismo da mídia corporativa ao trono de "verdade confiável" busca, muito mais do que eliminar as fake news, eliminar a competição na produção da agenda.

Enquanto isso, a própria mídia corporativa produz suas fake news. Mas as produz com classe, usando as estratégias de evasão da responsabilidade que a sociologia do jornalismo identifica há décadas. Há sempre uma desembargadora para dizer que Marielle Franco era vinculada ao crime organizado, um procurador para dizer que o barco de lata é prova de corrupção, um delegado para dizer que o movimento social é desordeiro.

Notícias falsas são, sim, um problema. Mas nosso problema maior é a falta de pluralismo nos meios de comunicação, isto é, o alinhamento de toda a grande imprensa a um mesmo restrito conjunto de interesses sociais, econômicos e políticos. O enquadramento que o jornalismo da mídia corporativa quer dar à questão das fake news, que reforça sua própria centralidade, agrava nosso problema principal, em vez de remediá-lo.

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