‘Greve geral mostrou vergonhoso momento da mídia tradicional brasileira’

"A greve geral da última 6ª feira, que paralisou parcela relevante e majoritária do país, aprofundou também o fosso que aparta a mídia tradicional brasileira do Brasil real. Veículos como a Rede Globo (TVs aberta e fechada, suas rádios, jornais e sites), TV Bandeirantes e sua rádio, jornais O Estado de S. Paulo, Correio Braziliense e muitos outros títulos regionais parecem habitar um bloco de gelo que já se separou do continente e navega num mar de rosas particular", analisa o jornalista Luís Costa Pinto em artigo

"A greve geral da última 6ª feira, que paralisou parcela relevante e majoritária do país, aprofundou também o fosso que aparta a mídia tradicional brasileira do Brasil real. Veículos como a Rede Globo (TVs aberta e fechada, suas rádios, jornais e sites), TV Bandeirantes e sua rádio, jornais O Estado de S. Paulo, Correio Braziliense e muitos outros títulos regionais parecem habitar um bloco de gelo que já se separou do continente e navega num mar de rosas particular", analisa o jornalista Luís Costa Pinto em artigo
"A greve geral da última 6ª feira, que paralisou parcela relevante e majoritária do país, aprofundou também o fosso que aparta a mídia tradicional brasileira do Brasil real. Veículos como a Rede Globo (TVs aberta e fechada, suas rádios, jornais e sites), TV Bandeirantes e sua rádio, jornais O Estado de S. Paulo, Correio Braziliense e muitos outros títulos regionais parecem habitar um bloco de gelo que já se separou do continente e navega num mar de rosas particular", analisa o jornalista Luís Costa Pinto em artigo (Foto: Romulo Faro)


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Luís Costa Pinto - Poder 360

A greve geral da última 6ª feira (28.abr.2017), que paralisou parcela relevante e majoritária do país, aprofundou também o fosso que aparta a mídia tradicional brasileira do Brasil real. Veículos como a Rede Globo (TVs aberta e fechada, suas rádios, jornais e sites), TV Bandeirantes e sua rádio, jornais O Estado de S. Paulo, Correio Braziliense e muitos outros títulos regionais parecem habitar um bloco de gelo que já se separou do continente e navega num mar de rosas particular.

O bloco, transformado em iceberg, assiste de longe ao derretimento continental. Mas seus arautos áulicos preferem crer que o mar de rosas enxergado só por eles irá congelar e reconstruir caminhos capazes de lhes conduzir de volta ao meio de onde vieram, e onde haviam reinado. A Folha de S.Paulo, desesperada e na dúvida, segura-se com uma mão na beira do abismo formado entre o iceberg e a placa continental em chamas. Em razão disso, ainda é dentre eles o único veículo capaz de relatar com alguma fidelidade o que se passa na vida real.

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No universo paralelo do iceberg que está a vagar por águas incandescentes não houve greve geral –houve "paralisações pontuais" e "protestos promovidos por centrais sindicais". O entardecer da 6ª feira, que levou às ruas das principais metrópoles vigorosas manifestações de repúdio a uma agenda de reformas econômicas que carece de chancela popular, posto não ter emergido das urnas, foi o "encerramento com protestos de grupos violentos, entre eles black blocks".

Em seu desespero e confusão mental produzida por quem parece estar mais atenta a ter tudo o que todos têm e menos à qualidade do que publica, sem saber se é uma foca destinada a se conservar placidamente na praia iceberguiana ou se é uma orca com gana predatória por notícia, a Folha de S.Paulo produziu a pérola destinada a sintetizar o vergonhoso momento da mídia tradicional brasileira: ante sequência irrefutável de imagens que mostravam um capitão da Polícia Militar de Goiás desferir violento golpe de cassetete contra a cabeça do estudante Mateus Ferreira da Silva, durante os protestos em Goiânia, descreveu o ato de violência desproporcional como tendo sido praticado por "um homem trajado de policial militar".

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A atitude do jornal foi tão covarde quanto a do capitão Augusto Sampaio de Oliveira Neto, subcomandante da 37ª Companhia da Polícia Militar de Goiás. Ele foi o agressor de Mateus, usou de força tão desproporcional que o porrete quebrou na cabeça do estudante. Mateus respira por aparelhos, corre risco de morte. O mau jornalismo que produziu o relato parcial do crime quase consumado contra o universitário goiano, contudo, é apenas a síntese parcial de um conjunto patético de veículos de comunicação que já não sabem refletir sobre o papel destinado a eles na sociedade. Dentre todos esses veículos os casos mais abrasivos de divergência entre o fato e a versão são protagonizados pelas TVs Globo e GloboNews e pela rádio CBN.

Na 5ª feira 27 de abril, como relatado aqui e em diversos outros espaços destinados a tentar flagrar uma crônica lógica do dia a dia político do Brasil, os veículos das Organizações Globo esconderam a greve convocada para a 6ª feira. Quando a greve eclodiu, com sucesso, na manhã do dia 28, os telejornais vespertinos pareciam surpresos e tentavam bancar o papel de guardiães do serviço público focando nos "transtornos" do movimento paredista à população e tratando a greve como "protestos de centrais sindicais". Em momento algum houve foco naquilo em torno de que se protestava –as reformas trabalhista e da Previdência que tramitam no Congresso Nacional. Um mico.

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Ao longo do dia, comentaristas amestrados desses canais, que nasceram para funcionar como elos entre a sociedade dispersa e as instituições do país e são concessão pública (devendo, portanto, observar um compromisso mínimo com a tradução de expectativas sociais e a mediação de conflitos de opinião), esforçaram-se por tentar explicar o que para eles –e só para eles– parecia inexplicável: por que existe quem seja contra reformas como aquelas ora propostas? O esforço, como todo o resto, era parcial. Não havia opiniões divergentes às deles sendo ouvidas e levadas em conta nos programas levados ao ar.

Para alguns é cômico, motivo de piada de mau gosto, flagrar a desfaçatez diária com a qual a notícia é maltratada nesses veículos. Há sempre um viés político por trás daquilo que se diz, ou daquilo sobre o que não se fala. Não é difícil perceber a seletividade dos temas abordados, a escolha precisa de qual frase de entrevistado encerra as passagens das "reportagens" –em geral, com a missão precisa de reafirmar a tese dominante dos controladores de opinião desses veículos. Mas é tudo muito trágico. Afinal, o telespectador médio brasileiro, habitante de um país de iletrados reais ou funcionais, só tem contato de fato com o cotidiano do Brasil por meio de veículos audiovisuais. Produz-se, portanto, uma massa bovina que segue o peão boiadeiro. As reses que ousam fugir do rebanho tornam-se, por conseguinte, desqualificadas e imprestáveis. O berrante segue guiando a massa para o matadouro, um ou outro mugido é ouvido, e aqueles que saíram do caminho são apartados para virar boi de piranha nas travessias mais arriscadas do charco.

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As focas contemplativas que lagarteiam na praia gelada do iceberg da mídia tradicional brasileira falam apenas para dentro do universo paralelo em que vivem. Como o continente está em chamas, a luta travada nesse momento só tem 2 resultados possíveis: ou o calor dos fatos, de um país que arde por dentro, derrete o bloco à deriva no mar de rosas particular; ou o ar gelado da redoma construída pelas focas às custas de muitos micos arrefecerá as chamas e permitirá o reembarque deles num país só existente em seus imaginários panglossianos.

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