'Golpeiam o líder para derrubar a presidente'
O jornalista Eric Nepomuceno escreveu para o jornal argentino Página 12 o relato dos fatos que ocorreram na última sexta (4), envolvendo a operação Lava Jato, com a condução coercitiva do ex-presidente Lula para prestar depoimento, pela Polícia Federal; a reportagem também foi destaque no influente diário mexicano "La Jornada"; "O aspecto mais grave desta história é que se tornou evidente que o esquema do juiz Sérgio Moro, da Polícia Federal, do Ministério Público e da grande imprensa hegemônica encontrou seu ponto ideal. A operação da polícia contra o ex-presidente demonstra que Moro é um juiz sem limites, e que atua em perfeita harmonia com o calendário golpista, para derrubar Dilma e inviabilizar Lula", diz o texto
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247 - O jornalista Eric Nepomuceno escreveu para o jornal argentino Página 12 o relato dos fatos que ocorreram na última sexta-feira (4), envolvendo a operação Lava Jato, com a condução coercitiva do ex-presidente Lula para prestar depoimento, pela Polícia Federal. A reportagem também foi destaque no influente diário mexicano "La Jornada".
Abaixo o texto traduzido:
Pouco antes das sete horas, a Polícia Federal se apresentou no condomínio onde o ex-presidente Lula reside, em São Bernardo, na área industrial de São Paulo. Pouco antes, os seguranças aos quais Lula tem direito como o ex-presidente tinha chegado ao local e alertado para a presença da polícia judiciária. O próprio Lula abriu a porta.
Cumprindo ordem do juiz Sergio Moro, a Polícia Federal levou Lula para o aeroporto de São Paulo. Na sala reservada às autoridades - uma cortesia concedida à figura política de maior importância no Brasil -, Lula prestou depoimento por quase quatro horas. Em mais de uma ocasião, ele estava irritado com as perguntas dos agentes da Polícia Federal. Ele se aborreceu, por exemplo, quando perguntado sobre garrafas de vinho - algumas de marcas importadas encontradas na casa de campo que o ex-presidente frequenta nos fins de semana. Também sobre os pedalinhos que sua esposa comprou para os netos do casal. "Vocês não têm nada mais importante para me questionar do que isso?", perguntou Lula a seus interrogadores. Um advogado que acompanhou o interrogatório disse que Lula respondeu a todas as perguntas sem hesitar um momento.
A notícia de que o ex-presidente foi alvo de uma ordem coercitiva, levado pela polícia para depor teve enorme impacto em todo o país.
Na parte da tarde, Lula e a presidente Dilma Rousseff expressaram sua "indignação" sobre as medidas tomadas pelo juiz Sergio Moro. "Eu me senti como um prisioneiro nesta manhã", disse Lula. "Se eles queriam me ouvir só tinham de me chamar porque eu não devo e não temo." Por sua vez, Dilma expressou sua "total discordância" com a operação policial em uma mensagem televisionada dada a partir do palácio presidencial ao lado de seus ministros. "Quero expressar minha total discordância com o fato de que um ex-presidente da República, que muitas vezes apareceu voluntariamente para prestar esclarecimentos às autoridades competentes, está agora sujeito a transferência coerciva desnecessária para testemunhar", reclamou a presidente.
O ministro Marco Aurélio Mello, do Supremo Tribunal Federal, a mais alta instância da Justiça no Brasil, também criticou a medida abusiva, determinada pelo responsável pela Operação Lava Jato, que investiga o esquema de corrupção na Petrobras. Figura proeminente no principal partido da oposição, o PSDB, José Gregori, ex-ministro da Justiça e Direitos Humanos no governo de Fernando Henrique Cardoso, denunciou o que ele considerava um "flagrante abuso" praticado pelo juiz. O economista Luis Carlos Bresser-Pereira, um dos fundadores do PSDB, foi ainda mais forte, dizendo que "é hora de o Supremo Tribunal intervir na Operação Lava Jato, para evitar mais abusos de poder que estão ocorrendo como prisões temporárias que se tornam perpétuas ou a conduta coercitiva de um ex-presidente que ainda não tinha sido chamado a depor. "
Na parte da tarde, Lula se manifestou de forma contundente. "Não era necessário que o juiz Sérgio Moro mandasse pessoas na minha casa, na dos meus filhos e de meus companheiros de militância", disse ele, indignado, recordando que só este ano já havia comparecido três vezes para fazer declarações. "Foi um gesto de arrogância, prepotência", acrescentou.
Lula lembrou que foi em seus dois governos (2003-2010), que foi concedida, como nunca antes, a autonomia à Polícia Federal e a independência ao Ministério Público. "Nós fizemos isso", disse ele, "porque acreditamos na democracia. Moro, não. Muito antes de Moro, eu já era um democrata. Enquanto ele não fazia nada, estávamos lutando para restaurar a democracia no país. "
O ex-presidente, após se declarar indignado com a humilhação a que foi submetido, criticou o esquema criado entre policiais federais, o juiz Sérgio Moro e os meios de comunicação. "Às sete horas da manhã, quando os meus advogados não sabiam de nada, e eu menos, alguns meios de comunicação já anunciavam a operação", disse.
Os argumentos da Polícia Federal e do Ministério Público que integram a Operação Lava Jato para solicitar a condução coercitiva de Lula, prontamente acatados pelo juiz Moro, referem-se de forma vaga, às contribuições de grandes empresas ao Instituto Lula. Além disso, também acusam as palestras de Lula feitas no Brasil e em outros países de serem um disfarce para pagamento de propina por contratos da Petrobras. Ele também é acusado de ter ocultado patrimônio, especialmente um apartamento triplex no decadente balneário de Guarujá, e um sítio distante uma hora e meia de São Paulo. A transferência dos dois imóveis seria uma forma disfarçada de pagar propinas para Lula.
O ex-presidente já disse várias vezes que não é o proprietário nem do apartamento nem do sítio, que pertence a um amigo que conhece há mais de 40 anos.
Lula disse que, suas palestras no exterior, pelas quais cobra até 200 mil dólares, e que "estão todas declaradas no Imposto de Renda", as perguntas da plateia sempre giravam sobre as conquistas sociais do Brasil desde sua chegada ao governo. "Por que Bill Clinton pode vir para o Brasil, como veio recentemente falar na Confederação Nacional da Indústria e receber 1 milhão de dólares, e eu não posso contar aos amigos africanos ou latino-americanos como fizemos para reduzir a pobreza neste país de injustiça eterna?".
Lula anunciou que está pronto para viajar o país para defender sua história e a história do Partido dos Trabalhadores (PT). "Eles queriam matar a jararaca, mas em vez de bater em sua cabeça bateram na cauda. E a jararaca está viva como nunca esteve", disse ele, em referência clara às eleições de 2018.
O aspecto mais grave desta história, no entanto, é que se tornou evidente que o esquema do juiz Sérgio Moro, da Polícia Federal, do Ministério Público e da grande imprensa hegemônica encontrou seu ponto ideal.
A operação da polícia contra Lula demonstra que Moro é um juiz sem limites, e que atua em perfeita harmonia com o calendário golpista. Assediando Lula, assedia Dilma. Com isso, fortalece o enfraquecido processo de impeachment, que está parado na Câmara dos Deputados, faltando pouco mais de uma semana para as manifestações de rua convocadas pela direita radical para o domingo, 13 de março.
A euforia registrada no mercado financeiro - o dólar caiu muito e a Bolsa de Valores subiu como um foguete - mostra quem são os que se alegram com a perspectiva de derrubada de Dilma Rousseff e degradação de Lula. Agora, restar saber qual será a reação dos movimentos sociais, da militância do PT e do eleitorado que, em quatro ocasiões sucessivas, derrotou o PSDB nas urnas.
Texto original aqui.
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